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As coisas não se passaram da maneira que Putin queria, e já é muito remota a chance de a Rússia anexar integralmente o seu vizinho do oeste
Quando, em 24 de fevereiro deste ano – uma gelada quinta-feira de inverno no leste europeu – tropas da Rússia invadiram a Ucrânia, pelo norte, através da Bielo-Rússia, e pelo sudeste, pelas bordas dos mares Negro e de Azov, achou-se que era coisa para poucas semanas.
Nos primeiros dias, a blitzkrieg versão Vladimir Putin foi avassaladora. Os tanques russos se aproximaram das grandes cidades ucranianas, inclusive a periferia da capital, Kiev, no interior do país.
Em suas exigências, Putin não fez por menos. Queria que o presidente Volodymyr Zelensky fosse deposto por seu próprio exército, que a Ucrânia se desarmasse por completo, que formalizasse, no texto da Constituição, que jamais participaria da Organização do Atlântico Norte (OTAN – NATO) e desse autonomia à região de Donbass, onde ficam as cidades de Donetsk e Luhansk.
O presidente norte-americano, Joe Biden, chegou a oferecer asilo político à Zelensky, recebendo do colega ucraniano uma resposta exemplar:
“Eu não preciso de carona e sim de armas e munição.”
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As coisas não se passaram da maneira que Putin queria. O conflito já está para completar seis meses. Embora no leste e no sul as coisas tenham tomado um rumo favorável aos russos, no centro e na fronteira com a Polônia, as forças armadas ucranianas, auxiliadas por voluntários estrangeiros e guerrilheiros locais, rechaçaram os atacantes. Estes sofreram grandes baixas, inclusive de diversos generais.
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Perderam enorme quantidade de tanques atingidos por coquetéis Molotov.
É difícil analisar este conflito sem mergulhar no passado tanto da Ucrânia como da Rússia.
É uma longa história.
Comecemos pela visão micro, nos concentrando em Donbass. Parte de seus habitantes fala russo; parte, ucraniano. Uma parte quer ser da OTAN e da Comunidade Europeia, parte prefere ser satélite de Moscou.
Muitas famílias têm membros em Donbass e na Rússia.
Quem, Kiev ou Moscou, exercer influência em Donbass, terá de lutar com guerrilha urbana adepta do outro lado.
Os passados da Ucrânia e da Rússia (incluindo o período União Soviética) se confundem ao longo dos séculos.
Já foram e deixaram de ser o mesmo país várias vezes.
Antes de prosseguir narrando esse passado mais distante, é bom começar pelo erro colossal cometido pela República da Ucrânia quando se separou da União Soviética. Era o início dos anos 1990, época em que a URSS (CCCP) se esfacelou e a maior parte de suas repúblicas se tornou independente.
A Ucrânia, pasmem, era a terceira maior potência nuclear do planeta, atrás apenas dos Estados Unidos e da União Soviética.
Quando o Exército Vermelho, obedecendo ordens de Moscou, saiu do território ucraniano, lá deixou milhares de mísseis e armas nucleares, além de silos atômicos e plataformas, fixas e móveis, de lançamento.
Só que, nos anos que se seguiram, os Estados Unidos, a Grã-Bretanha e a própria Rússia, numa reunião realizada na Hungria, convenceram o governo ucraniano a entregar todo seu arsenal nuclear em troca de proteção (vou repetir: proteção) dessas três nações.
Assinou-se então o Memorando de Budapeste. E lá se foram as bombas atômicas e de hidrogênio, além dos foguetes, para as mãos do bêbado Boris Yeltsin.
Nessa ocasião, a União Soviética, após passar alguns anos usando o nome de CEI (Comunidade dos Estados Independentes), deixou que cada antiga república tomasse seu caminho, sempre entregando suas armas nucleares primeiro.
Estou falando da Georgia, Azerbaijão, Cazaquistão, Uzbequistão, Lituânia , Letônia, Estônia , etc.. E da Ucrânia, obviamente.
Voltemos à história que mais interessa a este artigo, que é a da Rússia e da Ucrânia.
Há mais de dois terços de milênio que os ucranianos não permanecem independentes por muito tempo.
Já pertenceram aos mongóis, à Lituânia, à Polônia, aos impérios austríaco e otomano, até caírem sob o domínio dos czares de todas as Rússias, entre os quais, Pedro, o Grande, e Catarina, a Grande.
Finalmente, em 1917, penúltimo ano da Primeira Guerra Mundial, conseguiram ser independentes, ao fundarem a República do Povo da Ucrânia.
Com enorme extensão territorial (603 mil kms quadrados) e uma terra tão fértil que lhe valeu o título de Celeiro da Europa, em 1922 caiu nas mãos dos bolcheviques de Lenine, Trotsky e Stalin e passaram a ser a República Socialista Soviética Ucraniana, só retomando sua independência quando a União Soviética, o comunismo e o Pacto de Varsóvia se esfacelaram.
De novo voltando no tempo, durante o governo de Joseph Stalin na União Soviética, o tirano resolveu coletivizar a agricultura. A reforma deu tão errado que mais de seis milhões de pessoas morreram de fome. Boa parte delas no Celeiro da Europa, cuja produção, que já caíra enormemente com o fim das fazendas familiares, foi levada para ser distribuída por Moscou a quem bem o Kremlin entendesse.
O ódio dos ucranianos aos russos tornou-se tão grande que, pouco menos de uma década mais tarde, quando as tropas da Wehrmacht de Adolf Hitler invadiram o país, na operação Barbarossa, foram recebidos pelo povo com flores e festa.
A alegria durou pouco. Pouquíssimo. Em menos de 24 horas, a população da Ucrânia viu seus intelectuais, religiosos, professores, doutores, escritores, poetas e líderes políticos sendo enforcados pelos grupos de extermínio (Einsatzgruppen) nazistas, que praticamente só deixaram vivos os trabalhadores braçais, de quem precisavam para serem mão de obra escrava do Reich.
Aí, e só aí, ucranianos e russos se tornaram irmãos de sangue, frente ao inimigo comum. E juntos defenderam a pátria mãe (termo que Stalin não se cansava de usar, inclusive enaltecendo os grandes czares, Pedro e Catarina) primeiro na defesa de seus territórios, mais tarde no ataque à Alemanha através da Polônia.
Só o colapso da União Soviética, da chamada Cortina de Ferro e o fim do comunismo permitiram que a Ucrânia voltasse a ser independente.
As chances de continuar a ser um país livre, mesmo perdendo as províncias problemáticas do leste, são grandes. Principalmente agora que Vladimir Putin vai fracassar em dominar os estados bálticos e em sua tentativa de evitar que a Finlândia e a Suécia entrem para a OTAN.
A Rússia está contando com o general Inverno, que derrotou Napoleão e Hitler, para impor severas penas à Alemanha e outros países da Europa, não cedendo-lhes gás natural, que pode passar a vender para os países da Ásia.
Essa guerra entre Rússia e Ucrânia ainda vai durar algum tempo. Mas já é muito remota a hipótese de Moscou anexar integralmente o seu vizinho do oeste, o celeiro da Europa.
Um forte abraço,
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