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Bitcoin não é privado. Sem o uso de artifícios que tentam esconder movimentações, é relativamente fácil ligar a posse dos ativos à identidade
Espero que você goste de histórias, porque hoje temos uma das boas por aqui.
Sendo um mercado de risco, casos curiosos em cripto são relativamente corriqueiros.
Ontem (8), um desses ganhou, na minha opinião, o título de melhor roteiro de filme dos últimos tempos. Me refiro à saga envolvendo o hack da Bitfinex, exchange de cripto, em 2016.
Para resumir o ocorrido, em agosto daquele ano, um hacker conseguiu autorizar 2.000 transações fraudulentas, roubando quase 120 mil BTCs que, à época, valiam cerca de US$ 72 milhões.
Se hoje o mercado ainda carece de pontos mais claros sobre regulação, você pode imaginar o Velho Oeste que era esse mundo em 2016…
Sem chance de resgatar os bitcoins roubados, a Bitfinex adotou uma prática curiosa para a época: reduziu os saldos das contas dos clientes em cerca de 35% para se manter solvente. Em troca, enviou aos usuários seu token próprio, LEO.
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Corta pra 31 de janeiro deste ano. Os bitcoins roubados, que até então estavam parados, começaram a ser movimentados para uma carteira desconhecida.
Como há vários observadores atentos às movimentações desse mercado, o fluxo definitivamente chamou atenção, especialmente por ser tão escancarado, sem usar soluções de privacidade como mixers ou moedas como Monero.
As dúvidas em torno do ocorrido se dissiparam ontem, quando o Departamento de Justiça dos EUA anunciou que os bitcoins roubados — que hoje valem mais de US$ 3,5 bilhões — haviam sido recuperados.
Mas a primeira pergunta que fica é: como conseguiram recuperar os fundos após tanto tempo?
Bem, após cruzar informações obtidas ao longo das investigações, o Departamento conseguiu ligar os bitcoins roubados às identidades de duas pessoas, sendo uma delas Heather Morgan, que, além de rapper amadora, foi colunista nas revistas Inc. e Forbes.
A outra pessoa é seu marido, Ilya Lichtenstein. A história fica ainda mais interessante quando percebemos que, apesar da capacidade de ter roubado uma soma hoje bilionária em cripto, Ilya guardava suas chaves privadas em um arquivo de texto simples, não criptografado, em um serviço de cloud.
Com acesso às chaves, o Departamento de Justiça conseguiu, finalmente, recuperar os fundos.
Uma curiosidade: neste momento, o governo americano possui quase US$ 4 bilhões em cripto. Já podemos falar que os EUA estão seguindo a tendência de El Salvador?
Brincadeiras à parte, a soma deve ser devolvida à Bitfinex, que deveria recomprar os tokens LEO, distribuídos em 2016 a seus clientes, devolvendo os valores em BTC e encerrando o caso após quase seis anos.
Encerrada essa história, quais lições podemos tirar dela? Algumas me vêm à mente:
As exchanges de cripto evoluíram muito nos últimos anos, mas ainda precisa haver a consciência do investidor de que, ao deixar somas nas exchanges, o dinheiro não está em seu controle;
Bitcoin não é privado. Na verdade, sem o uso de outros artifícios que tentem esconder as movimentações feitas, é relativamente fácil ligar a posse dos ativos à identidade de uma pessoa (já podemos parar de falar que bitcoin é dinheiro da deep web?);
Se você armazenar seus ativos em uma wallet, guarde sua chave privada ou sua “seed phrase” (aquela sequência de 12 ou 24 palavras) ou em local offline, ou com camadas extras de proteção em seu computador;
O mercado de cripto tem risco, mas sem risco não há retornos expressivos. Tenha isso em mente tanto para o bem quanto para o mal. Não adianta ficar parado, mas também não caia na ideia de que cripto só sobe;
Ainda que não seja a melhor experiência, quem perdeu os BTCs na Bitfinex em 2016 e os receberá de volta agora apurou uma valorização monstruosa sem movimentar os ativos por seis anos (considerando que os mesmos valores em BTC, e não em dólares, sejam devolvidos). “Buy and hold” (comprar e manter) é uma das melhores estratégias para cripto.
Espero que essa siga sendo a história mais bizarra do ano, sem novos casos estrondosos como esse.
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