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Não sei bem a razão. O Dia das Mães sempre me leva a Winnicott e sua prescrição por uma “good enough mother”. As mães, claro, deveriam ser boas aos filhos. Mas apenas suficientemente boas. Se se tornam mães edípicas, excessivamente protetoras e presentes, estragam a prole. A virtude está no meio.
Depois de duas depressões, anos (já superados) de Seroquel e Depakote, meia década de terapia freudiana, suspeito que ele esteja correto. Aos trancos e barrancos, aqui estamos.
Uma mãe muito presente não deve ser assim tão ruim. Só tenho a agradecer. Adaptando a frase atribuída ao ministro Delfim Netto ao contexto, dívida filial não se paga, se rola. Devo muito a minha mãe e sei que jamais serei capaz de retribuir à altura.
No final do dia, talvez Freud já tivesse mesmo resumido a coisa: educar, assim como governar e analisar (no sentido psicoterapêutico), é impossível.
Winnicott daria um bom economista. O crescimento econômico deve ser suficientemente bom. O temor de que ele venha a ser excessivamente bom vem penalizando os mercados.
O que começou concentrado no ambiente de tecnologia na véspera se espalha hoje para outros segmentos, sob inflação acima do esperado ao produtor chinês, expectativa pelos preços ao consumidor norte-americano amanhã e ajustes técnicos adicionais diante de realocação e desalavancagem dos portfólios.
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A Economia é um bicho meio estranho. Desafiando as noções da Física, ela consegue crescer acima do seu potencial. E quando isso acontece, basicamente temos aceleração da inflação.
Ainda é cedo para predizer se, de fato, a inflação virá como um fenômeno sistemático, forçando subidas de taxas de juro capazes de levar-nos a um período recessivo — o que seria obviamente trágico para os mercados. Contudo, já há elementos suficientes para apontarmos uma mudança de paradigma em curso, quase como um exemplo de livro texto para Thomas Kuhn.
O “Bidenomics" desafia o Consenso de Washington clássico e questiona a cartilha neoliberal estereotipada. Talvez seja excessivo reduzi-lo ao “tax and spend” (taxar e gastar), como quer a analogia simplista com uma repetição da estagflação dos anos 1970. De todo modo, parece razoável supor que caminhamos para um período de mais participação estatal, em programas de infraestrutura sobretudo e de transferência direta de renda.
Ray Dalio, por exemplo, faz paralelos do momento atual com o New Deal de Roosevelt. Voltaríamos ao arcabouço prevalecente anterior à era Reagan nos EUA, com maior preocupação direta de redistribuição de renda, mais impostos, mais inflação e mais crescimento de curto prazo estimulado por uma política fiscal expansionista (tangenciando o irresponsável?).
E se há alguma dúvida sobre os novos ventos, vale recorrer à explicitada preocupação do Fed com uma meta de emprego “inclusivo”. O Fed virou ESG!
Se há novos tempos de política econômica, talvez possamos prescrever também algumas coisas sob a ótica top-down.
Destaco cinco pontos:
Se há uma mudança de inflação e taxas de juro, o que está lá na frente vale menos. Depois de tempos em que planilhas admitiam contemplações platônicas concentradas na perpetuidade, o sonho acabou. Vale é o caso mais claro nessa seara: estamos falando de 25% de fluxo de caixa livre para o acionista em 2021.
Seu apartamento vale a soma dos fluxos dos aluguéis estimados de hoje até o infinito, trazidos a valor presente por uma taxa de desconto apropriada. Esses aluguéis são reajustados pela inflação, por construção e contrato. Nominalmente, portanto, os fluxos devem ser maiores e, assim, o negócio precisa valer mais.
Os 120 mil pontos do Ibovespa, em tese, para que as empresas valham a mesma coisa, precisam ser atualizados pela inflação no tempo. Se você vê o índice estável nominalmente, na verdade as empresas estão valendo menos. Terras, ações, imóveis e aplicações indexadas devem ser preferidas às prefixadas. E aqui ainda existe uma combinação interessante: se o Brasil der certo, vai andar por crescimento; se der errado, vai andar por inflação.
Não é só uma prerrogativa ética. É uma agenda de negócios. Em termos práticos, se até o Fed tem meta de emprego inclusivo, contemplando minorias e respeito ao meio ambiente, há aqui claramente a ascendência de um mercado consumidor, com provável re-rating dos ativos associados. Enquanto isso na sala da justiça, temos aqui Natura negociando em valuations bem razoáveis.
Percorra caminhos alternativos e coloque um pouco de dinheiro em alternativos. Criptos, cannabis, urânio, genomics, private equity são alguns temas que podem merecer um trocado.
No pânico, não há diferenciação. Mas ela ocorre no pós-pânico. Passada a desalavancagem e o reajuste de portfólio, a realidade material de cada empresa se impõe. Comece olhando para o management. Se o paradigma mudou, precisamos de gente capaz de se adaptar. Olha a captação líquida diária do BTG — caminha para fazer um lucro líquido anual de R$ 6 bilhões. Nas minhas contas, o Digital pode terminar o ano com mais de R$ 150 bi, o que é bem relevante.
Então, vai ter que fazer preço, o que confere uma combinação única de um banco de investimento de ponta com rentabilidade e crescimento, cujas métricas de valuation são conhecidas e tangíveis, com uma operação exponencial e tecnologia. No consolidado, seria bem razoável negociar a 25 vezes lucros e, então, temos um banco de R$ 150 bi — na conta de padeiro, 40% de upside.
Veja o resultado simplesmente irretocável de Direcional: o cara reporta uma margem bruta de 36%, com diluição de 3,3 pontos percentuais de G&A. Defende e se adapta à pressão de custos e flerta com expansão de margem líquida e ramp up brutal de Riva, que já vale pelo menos R$ 1 bi. Dividendos em sete menos de nada menos do que 14%. E está só começando.
No final do dia, lembre-se: o value investing também é anterior à era Reagan. Algumas coisas nunca mudam.
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