Ecos do 7 de setembro e trégua incerta em Brasília levam bolsa a amargar queda de 2% e dólar subir a R$ 5,26 na semana
O aceno de paz feito por Bolsonaro animou os mercados ontem, mas os investidores custam a acreditar que a guerra em Brasília está encerrada

Existem muitas expressões clássicas entre os agentes financeiros, mas nenhuma vem sendo tão repetida quanto “o mercado odeia incertezas”.
E é bem fácil entender o porquê. Desde junho, quando a bolsa alcançou os 130 mil pontos, o Ibovespa perdeu mais de 16 mil pontos, mesmo com os índices americanos acumulando altas expressivas no ano e renovando máximas por meses seguidos, e uma temporada de balanços que mostrou que a maior parte das empresas brasileiras engrenaram em uma recuperação robusta pós-pandemia.
A triste marca coincide com a elevação dos ruídos políticos em Brasília. Nesse meio tempo, entre outras coisas, tivemos uma reforma do imposto de renda que mais desagradou do que ajudou, problemas com o teto de gastos e troca de ofensas entre membros dos Três Poderes.
O ápice da tensão foi o 7 de setembro, que causou apreensão e promete repercutir por um bom tempo depois da data. Em semana mais curta, o Ibovespa recuou 2,2% e o dólar subiu 1,59%.
Com a bolsa brasileira descontada perante os seus pares internacionais, mas apresentando bons fundamentos, o aceno de paz de Bolsonaro ontem permitiu que, em pouco mais de 15 minutos, o principal índice da B3 saísse do vermelho para fechar o dia em uma alta de quase 2%.
A sexta-feira começou com a mesma força alucinante da véspera, ainda que o mercado já tivesse sinalizado que era muito cedo para comprar uma trégua definitiva entre Executivo, Legislativo e Judiciário. Os temores não demoraram a se confirmar.
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Enquanto o vice-presidente Hamilton Mourão pregava o diálogo entre os Poderes, Bolsonaro minimizou as palavras divulgadas ontem. Ao contrário do que mostrou a carta, hoje o presidente disse não ter cometido erros e que o 7 de setembro “não foi em vão”.
Em outro momento, o chefe do Executivo justificou o aceno de paz ao apontar que “falar para cima" faz o dólar disparar e pressiona o preço dos combustíveis. A resposta veio no tradicional “cercadinho do Alvorada”, após parte da base aliada do governo ficar desconfortável com o tom de recuo do documento orquestrado com a ajuda de Michel Temer.
Como lá fora as bolsas cederam com o peso das preocupações do ritmo de recuperação econômica diante da variante delta, o Ibovespa abandonou o campo positivo para renovar mínimas ao longo de todo o dia, até fechar no nível mais baixo do pregão, em queda de 0,93%, aos 114.285 pontos. Nem mesmo a elevação das vendas no varejo acima do esperado serviu de bálsamo.
O dólar à vista também foi pressionando, fechando próximo da máxima, em alta de 0,78%, a R$ 5,2671. Os juros futuros tiveram mais resistência aos novos ruídos, mas também seguiram o mesmo roteiro e acabou voltando a apresentar alta, já que a inflação não mostra sinais de arrefecimento.
- Janeiro/22: de 7,26% para 7,29%
- Janeiro/23: de 9,03% para 9,16%
- Janeiro/25: de 9,97% para 10,18%
- Janeiro/27: de 10,36% para 10,58%
Confira os destaques do noticiário corporativo desta sexta-feira:
- UBS vê potencial para que as ações da Raízen se valorizem 50%;
- O Bank of America estima que as units do Banco Inter, que já subiram 240% em 12 meses, podem subir ainda mais;
- A CSN comprou ativos da Holeim no Brasil por mais de R$ 1 bilhão.
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Natural, mas preocupante
Para José Navikas, analista de investimentos da Necton, mesmo que o cenário político não tivesse voltado a apresentar novidades ruidosas, a reação do mercado financeiro hoje seria de queda natural após a forte correção vista nos últimos minutos do pregão de ontem.
Navikas aponta também que podemos perceber o peso das incertezas locais ao comparar o nosso Ibovespa com o S&P 500. Enquanto por aqui o saldo anual é negativo, o índice americano sobe mais de 18%, ainda que tenha fechado no vermelho nesta semana.
O inimigo lá fora é outro
Enquanto as bolsas brasileiras sentem o peso da indefinição política e o cabo de guerra entre os Poderes, os mercados internacionais estão de olho no ritmo de recuperação das principais economias do mundo e os possíveis impactos da variante delta.
Ao mesmo tempo que a desaceleração do ritmo de crescimento preocupa, a inflação também segue assombrando os investidores. Hoje o índice de preços ao produtor (PPI) subiu 0,7% em agosto ante julho, acima da expectativa de 0,6% dos analistas.
A variante preocupa principalmente em países com alta rejeição à vacinação, como os Estados Unidos. Hoje o governo americano endureceu as regras para incentivar que a população busque completar o ciclo vacinal. Confira o fechamento dos principais índices americanos:
- Dow Jones: -0,78% - 34.607,72 pontos
- S&P 500: -0,73% - 4.460,30 pontos
- Nasdaq : -0,87% - 5.115,5 pontos
Sobe e desce do Ibovespa
Com a valorização do dólar e a grande sensibilidade no mercado doméstico, as empresas com maior exposição ao mercado internacional acabaram se beneficiando nos últimos dias. Nem mesmo a investigação de dois casos da síndrome da vaca louca e a interrupção da exportação para a China minimizou os ganhos das empresas de proteína animal. Já a Unidas reflete o otimismo do mercado com a sinalização positiva do Cade para a fusão com a Localiza. Confira as maiores altas da semana:
| CÓDIGO | NOME | VALOR | VARSEM |
| BEEF3 | Minerva ON | R$ 9,00 | 15,53% |
| MRFG3 | Marfrig ON | R$ 23,00 | 7,78% |
| WEGE3 | Weg ON | R$ 38,62 | 6,54% |
| PRIO3 | PetroRio ON | R$ 19,07 | 5,07% |
| LCAM3 | Unidas ON | R$ 25,44 | 4,31% |
Com o bloqueio de rodovias e o clima político tenso, nem mesmo a alta das vendas do varejo em julho livrou as varejistas de uma semana amarga. Confira as maiores quedas do período:
| CÓDIGO | NOME | VALOR | VARSEM |
| MGLU3 | Magazine Luiza ON | R$ 17,23 | -8,84% |
| BPAN4 | Banco Pan PN | R$ 15,81 | -8,77% |
| YDUQ3 | Yduqs ON | R$ 23,22 | -6,56% |
| VIIA3 | Via ON | R$ 9,01 | -6,34% |
| LAME4 | Lojas Americanas PN | R$ 5,65 | -6,15% |
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