Não vá com muita sede ao pote!
Para equilibrar a relação entre risco e retorno de sua carteira, vou mostrar agora a você como dosar o tamanho da sua posição.

Na newsletter de hoje quero falar a respeito do tamanho ideal para uma determinada aposta na bolsa de valores.
Começo com este termo “aposta” ao invés de usar a palavra investimento, alguns certamente me criticarão por isso.
Por outro lado, a gente pode pensar que mesmo um investimento com horizonte de tempo mais longo pode ser visto como uma certa "aposta" de que tudo se materializará no futuro.
De qualquer forma, este não é o cerne que quero discutir aqui neste texto.
Quero falar a respeito do tamanho da operação, mais em função de algo que vi recentemente em uma entrevista na CNBC (rede televisiva dos EUA focada no mercado financeiro).
Nesta entrevista, um gestor foi questionado sobre o tamanho de suas posições em ações da empresa Nvidia, que produz e fabrica processadores gráficos de computadores, utilizados no segmento de jogos e de criptomoedas.
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Esta ação subiu de US$ 150 para quase US$ 500 e o gestor foi questionado se não estava na hora de vender, de colocar o lucro no bolso.
Ele disse que não, apontando que a participação na Nvidia era uma posição estrutural para ele e que somente venderia se essa exposição passasse a ocupar um espaço maior na carteira.
Toda vez que a exposição supera 4% de sua carteira, ele vai lá no mercado, vende e faz um rebalanceamento de seu portfólio utilizando este parâmetro de 4% para Nvidia.
Achei muito interessante e logo pensei: poxa, será que nós pessoas físicas fazemos o mesmo? Logicamente existem diversos investidores bem diversificados e disciplinados em relação ao tamanho da exposição das ações.
Por outro lado, tenho ciência de que muitos investidores não são. E eu, que sou um pequeno investidor ativo na bolsa, presente no mercado diariamente, muitas vezes (quase sempre) cometo sacrilégios se o tema for tamanho da operação.
Cassinos e riscos
Quando ouvi esse gestor falando logo pensei no critério de Kelly, um conceito muito discutido pelo autor Ed Thorp no seu livro “A Man for All Markets”.
O Ed Thorp é o pai dos fundos quantitativos, esteve presente nos mercados lá nos anos 1960 e nas décadas de 1970 e 1980. Com 88 anos, ele não está muito mais ativo nos mercados como antigamente, mas seu legado e sua contribuição são históricos para o mundo das finanças.
Ele fez uso do critério de Kelly para estabelecer qual o tamanho das apostas que ia fazer nos cassinos lá no começo dos anos 1960 quando estava colocando em prova uma tese que ele desenvolveu enquanto dava aula no MIT.
Esta tese foi documentada e publicada em seu livro Beat the Dealer. O texto foi revolucionário, fazendo com que alguns cassinos tivessem que mudar sua forma de atuação.
O que é pertinente para este texto é o que o critério de Kelly nos diz: “o tamanho da aposta deve ser proporcional à nossa probabilidade de ganho e o quanto a gente tem pra ganhar em cada aposta”.
A fórmula é bem simples e muito útil em um lugar como um cassino, local em que você tem probabilidades distintas e bem calculáveis.
Não podemos, de forma grosseira, pegar este ambiente de cassino e trazer diretamente para o mercado.
O Nassim Taleb até fala sobre este tema, ao dizer que o uso dessas características do cassino no mercado é uma falácia lúdica.
Nos cassinos nós conseguimos dizer “a chance de dar preto em uma roleta é de X%”. Na bolsa, não há essa precisão.
Vá com calma, dose suas posições
Mesmo assim, vale muito a pena refletir a respeito do que o critério de Kelly nos diz porque nós, pessoas físicas, muitas vezes vamos com muita sede ao pote.
Então, devemos sempre pensar em fazer apostas menores, podem até ser mais frequentes, mas elas devem ser menores.
Uma aposta grande sempre peca por falta de humildade. Pensar ter um ponto de partida como um critério de Kelly acho que é uma ótima largada.
Então vai lá: se você tiver a oportunidade, faz uma consulta no Wikipedia “critério de Kelly” e você verá essa fórmula relativamente simples.
Você pode brincar com a fórmula, atribuindo determinada probabilidade para um certo evento e colocando ali que, caso este evento se materialize, você tem um percentual para ganhar, 10%, 20%.
Assim, você começa a ter uma noção de quanto de fato você deve atribuir a cada determinada “aposta”.
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Falando nisso, eu aposto que você, ao avaliar seus movimentos no mercado, deve chegar a mesma conclusão que eu cheguei ao avaliar os meus trades.
A conclusão de que, em muitos casos, eu fui com muita sede ao pote. Em muitos casos, deveria ter reduzido o tamanho da minha aposta.
Assim, conseguirei permanecer vivo no mercado e ir crescendo de uma forma consistente ao longo do tempo.
Um abraço,
Marink Martins
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