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entrevista

‘A gente deve se preocupar mais com o governo Bolsonaro do que com o coronavírus’, diz economista

Segundo ele, a divulgação, pelo presidente, de vídeos apoiando o protesto contra o Congresso pode atrapalhar a agenda de reformas

Brasil, São Paulo, SP, 05/06/2009. Retrato do economista José Roberto Mendonça de Barros durante entrevista. - Imagem: NTONIO MILENA/ESTADÃO CONTEÚDO

O avanço do coronavírus deve reduzir o crescimento do PIB brasileiro neste ano e abrir espaço para o Banco Central voltar a cortar a taxa básica de juros, a Selic, segundo José Roberto Mendonça de Barros, sócio da MB Associados. A questão, porém, não é a maior preocupação para o economista no momento.

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Segundo ele, a divulgação, pelo presidente Jair Bolsonaro, de vídeos apoiando o protesto contra o Congresso pode atrapalhar a agenda de reformas e, portanto, prejudicar mais a retomada econômica do que o vírus. "Se a pauta reformista tiver um problema adicional, acho que a expectativa limitada de crescimento vai se tornar mais aguda e o resultado será postergação de investimento", disse em entrevista.

Qual impacto a chegada do conoravírus ao Brasil pode causar na economia?
Ontem (na quarta-feira, 26) teve um movimento forte na Bolsa, porque houve uma coincidência. Durante o carnaval, os mercados globais sentiram as notícias de o coronavírus ter se espalhado e isso fez com que, na segunda e na terça-feira, houvesse uma baixa generalizada nas Bolsas. Ao mesmo tempo, se confirmou um caso no Brasil. Então, na reabertura dos mercados, após o carnaval, o ajuste no Brasil foi realmente parrudo.

Deve haver impacto no PIB?
Ainda é cedo para estimar. Certamente vai cortar um pouco do crescimento. A China, nosso parceiro preferencial, vai crescer menos. A equipe do BNP Paribas já estimou para este ano que o crescimento chinês, que antes era visto como algo na ordem de 6%, vai se reduzir a 4,5%. Isso terá um efeito grande lá e, a partir daí, no mundo todo. Vai haver menos comércio, o que já apareceu um pouco na balança comercial do Brasil de janeiro. Os preços de exportação, especialmente de petróleo e minério de ferro, são os maiores candidatos a sofrer. No Brasil, tem também um efeito positivo: por causa da queda das commodities, aquela inflação das carnes no fim do ano passado (consequente do aumento das importações chinesas) acabou. Mas também tem um efeito sobre crescimento. Nós, na MB, sempre estivemos menos otimistas que o mercado. Temos projetado um PIB de 2% e viés de baixa, mas está muito cedo para avaliar (o impacto da doença). O que é certo é que vamos depender mais da demanda interna para ter uma retomada um pouco mais segura.

Este será, então, o quarto ano consecutivo de revisões de estimativa de PIB para baixo, agora por causa do coronavírus?
Infelizmente, o coronavírus foi aquele fator adicional. Por razões variadas, o PIB está de novo queimando a largada. Uma expressão adequada é que um pouco do encantamento com a política econômica que tínhamos em 2019 se quebrou. E o coronavírus está sendo até algo brutal para acabar com esse encantamento.

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Com esse cenário, o BC pode voltar a cortar juros?
Acho que sim. Não na próxima reunião, porque o BC será cauteloso. Mas a gente pode imaginar que a taxa Selic irá para 4%. A redução dos juros é boa para o crescimento, mas não vai evitar que este ano tenha um crescimento, mais uma vez, relativamente modesto.

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A indústria brasileira deve sofrer com falta de matéria-prima chinesa?
Com a produção parada na China, vai começar a faltar coisas no mundo inteiro. Aqui, mais o pessoal do setor automotivo e de produtos ópticos mencionam um certo desconforto com estoques baixos. Mas esse efeito é de curto prazo. O efeito mais relevante é que nossas exportações vão sofrer mais, e elas já vinham sofrendo com a Argentina.

Como o sr. analisa a notícia de que Bolsonaro enviou vídeos apoiando o protesto contra o Congresso? O que atrapalha mais a economia: o coronavírus ou as crises políticas internas?
Considerando esses eventos recentes, talvez seja provável que a política esteja atrapalhando mais, porque a incerteza tende a se elevar e porque o pique reformista do Congresso provavelmente vai sentir. Precisamos aprovar várias coisas no Congresso. Um exemplo: a reforma do saneamento básico é fundamental para a gente voltar a ter investimento nessa área. Por conta desses eventos (divulgação de vídeos pelo presidente), a pauta do Congresso pode ficar mais parada. Então estou mais preocupado com isso do que com o efeito da crise internacional (decorrente do coronavírus). Se a pauta reformista, que já não está fácil de ser carregada, tiver um problema adicional, acho que a expectativa limitada de crescimento vai se tornar mais aguda e o resultado será postergação de investimento. Sem investimento, ninguém cresce.

O real deve continuar se desvalorizando?
Vimos na abertura dos mercados (ontem, quarta-feira) que a pressão é para mais desvalorização. Essa desvalorização tem dois componentes. Um é internacional: a fuga de capital para a qualidade está se traduzindo em um dólar valorizado em relação às principais moedas. Agora tem um fator interno, que tem a ver com essa incerteza política e com o crescimento. A única vantagem que temos agora é que, como quase todos estão de acordo de que essa desvalorização é temporária, ela tem sido pouca transmitida para preços.

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*Com informações sdo jornal O Estado de S. Paulo e Estadão Conteúdo

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