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Julia Wiltgen

Julia Wiltgen

Jornalista formada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) com pós-graduação em Finanças Corporativas e Investment Banking pela Fundação Instituto de Administração (FIA). Trabalhou com produção de reportagem na TV Globo e foi editora de finanças pessoais de Exame.com, na Editora Abril. Hoje é editora-chefe do Seu Dinheiro.

De olho nos desbancarizados

Fintech do Santander, Superdigital quer ser a conta dos MEI e das classes C e D

Banco digital de bancão, a Super dá lucro, cobra tarifa e não se volta para os millenials descolados. Foco são os desbancarizados e, sobretudo, as folhas de pagamento dos grandes empregadores.

Julia Wiltgen
Julia Wiltgen
20 de janeiro de 2020
5:30 - atualizado às 20:11
Felipe Castiglia, CEO da Superdigital: "inclusão digital acaba andando junto com a financeira". Imagem: Divulgação

Apesar de os bancos digitais ainda não terem realmente abalado o império dos bancões, estes não estão alheios à ameaça que os novatos representam para as suas áreas de serviços e cobranças de tarifas. Alguns até decidiram investir nos seus próprios bancos digitais. É o caso do Santander, com a sua Superdigital.

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Ainda não sabemos quais fintechs serão as vencedoras dessa onda, mas o fato é que os bancos digitais ocasionaram uma mudança forte na forma como as pessoas se relacionam com as instituições financeiras.

Mas nem só de clientes millenials e discursos descolados vivem os bancos digitais. Uma parte dessas fintechs aposta no público desbancarizado e de renda mais baixa, para o qual, muitas vezes, o pacote de serviços completo dos grandes bancos se mostra inadequado, ou então sequer vale a pena para a instituição fornecer.

Como não poderia deixar de ser, foi nesse público que o Santander decidiu focar. Afinal, o banco tem forte atuação no segmento de microfinanças, voltado justamente para “a base da pirâmide”.

E esse campo de atuação é vasto. Estima-se que o Brasil tenha entre 40 milhões e 50 milhões de pessoas sem conta em banco. Mas a Superdigital não olha apenas para o mercado doméstico. A fintech já tem operação no Chile e no México, e até ano que vem deve se expandir ainda para Peru, Colômbia, Argentina e Uruguai.

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Também não é uma operação que topa abrir mão do lucro a fim de crescer vertiginosamente. Segundo Felipe Castiglia, CEO da Superdigital, a base de clientes da Super vem crescendo de 4% a 5% ao mês e a operação no Brasil já é lucrativa.

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“Não temos meta de crescimento acelerado, pois o objetivo é ter uma operação rentável e boa para o cliente”, me disse Castiglia.

Hoje, a Super tem 1,9 milhão de contas abertas, com 1,3 milhão de clientes que já transacionaram ao menos uma vez e 500 mil considerados realmente ativos (que transacionaram ao menos uma vez nos últimos três meses). A meta, em 2020, é crescer a base de clientes em cerca de 50%.

De olho nos desbancarizados

Criada em 2012 como ContaSuper pelos empreendedores Alfredo Morais e Márcio Salomão, a Superdigital foi totalmente adquirida pelo Santander em 2016, com foco em clientes que ganham de um a dois salários mínimos e, sobretudo, nas folhas de pagamento de alto turnover.

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Em outras palavras, o banco mirava o pagamento de salários a trabalhadores de renda mais baixa em empresas de alta rotatividade de pessoal.

Por exemplo, usinas de cana de açúcar, varejistas que utilizam trabalhadores temporários e intermitentes e empresas de telemarketing, como a Atento, uma das principais clientes da Super nessa área.

Construtoras também utilizam a Super para pagar seus pedreiros e mestres de obras. “Cada obra tem seu próprio CNPJ, e a Super consegue fazer a gestão de todas as obras de uma mesma construtora”, me explicou Felipe Castiglia.

Outra parceria importante é com a Natura - por meio do app da empresa de cosméticos, as consultoras conseguem abrir uma conta Natura, que é uma conta Superdigital para elas receberem suas comissões de vendas.

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Felipe Castiglia, CEO da Superdigital, fintech do Santander.
Felipe Castiglia, CEO da Superdigital. Crédito: Divulgação.

De acordo com Castiglia, esse tipo de operação não era interessante para o Santander devido ao seu alto custo. Mas por meio da Super, faz sentido. Apesar de ser ligada ao bancão, a Superdigital é uma empresa apartada e funciona em ritmo de startup.

A fintech inclusive processa de graça o pagamento das remunerações desses trabalhadores, o que normalmente é cobrado dos departamentos de recursos humanos das empresas.

“O custo de um banco para processar pagamentos é bem maior. A Super construiu seus sistemas em cima de uma arquitetura mais flexível que a de um banco tradicional, onde os sistemas são muito pesados. Então ela consegue processar pagamentos de uma forma mais barata e ágil”, me explicou o CEO da Super.

Além disso, por se tratar de um público mais difícil de rentabilizar, pois não costuma usar todos os serviços oferecidos pelos grandes bancos, o baixo custo de uma operação de banco digital é fundamental - por exemplo, sem agências e atendimento presencial.

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Simplicidade, inclusão digital e controle de gastos

A Superdigital é hoje uma conta de pagamentos, não uma conta-corrente. Não oferece e nem pretende oferecer todos os serviços bancários, preferindo focar naquilo que seu público realmente usa e precisa. A ideia não é competir com os grandes bancos múltiplos.

A obsessão da empresa é se manter simples para o seu público - fácil de entender e de usar. Hoje, a Super oferece conta para pessoas físicas e Microempreendedor Individual (MEI), sem necessidade de comprovação de renda ou análise de crédito, o que permite a abertura de contas e uso do cartão mesmo por negativados.

Como o objetivo é a inclusão financeira de um público majoritariamente desbancarizado, a Super foca nos primeiros passos desse processo: sair do dinheiro físico para o digital, por meio do uso de cartão e possibilidade de armazenar dinheiro sem ser na forma física.

O cartão é pré-pago, isto é, deve ser usado na função crédito, mas, na prática, é um cartão de débito, debitando o valor que o cliente tem na conta.

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Não há cheque especial, então o cliente não tem como ficar no vermelho, podendo usar o cartão para controlar seus gastos. A ideia é que o cliente aprenda a lidar com o dinheiro digitalmente e sem se endividar.

Mesmo assim, pelo fato de ser usado na função crédito, o cartão pode ser utilizado para compras on-line. De acordo com Felipe Castiglia, o estabelecimento com mais transações no cartão da Super é o Uber, e o app de delivery iFood também é um dos mais utilizados.

Outro serviço que a Super oferece são os cartões virtuais, que permitem uma única operação pela internet.

“Este foi o jeito que encontramos para dar mais segurança às transações on-line, em relação às quais o nosso público tem muita desconfiança. Esse público está cada vez mais conectado, porque muitas vezes consegue soluções mais baratas pela internet. Então, a inclusão digital acaba andando junto com a financeira”, explica Castiglia.

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Oferta de crédito

A Superdigital não oferece e nem tem planos de oferecer cartão de crédito em breve. Por enquanto, a fintech trabalha em parceria com a SIM e a Prospera, operações de microcrédito do próprio Santander, para oferecer crédito para MEI e pessoas físicas que já estejam num bom patamar de controle financeiro e estabilidade de renda, podendo se valer de empréstimos para alavancar sua vida profissional.

“Estamos fazendo uma modelagem estatística específica para esse público, que normalmente tem dificuldade de acessar crédito. Mas seria um crédito produtivo, para ajudá-lo a prosperar”, diz o CEO da Super.

Outra meta é oferecer adiantamento de salário de curtíssimo prazo, para os clientes que têm necessidade de acessar seu dinheiro poucos dias antes do pagamento. “É um produto de baixa inadimplência”, diz Castiglia.

Investimento deve ser oferecido ainda neste ano

Segundo Castiglia, a maior parte dos clientes da Super que consegue poupar ou aplica em uma conta poupança ou deixa o dinheiro na própria conta Superdigital. Alguns chegam a guardar dinheiro nos cartões virtuais.

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Esse tipo de utilização evidencia algumas características do público da Super, como a presença de mais de uma fonte de renda ou a utilização de uma única conta para toda a família, de forma a controlar o orçamento doméstico.

Os clientes muitas vezes arrumam formas de guardar o que sobra, separar a poupança dos recursos do dia a dia ou até mesmo dividir o dinheiro em caixinhas para fazer um melhor controle financeiro.

Só que nem a conta da Superdigital nem os cartões remuneram o dinheiro guardado, diferentemente do que acontece em outras contas de pagamento como a NuConta e a PagBank, ou mesmo em bancos digitais que oferecem CDB, como o Neon e o Banco Inter.

Castiglia disse que a criação de uma opção de investimento está nos planos da fintech, e deve sair no segundo trimestre de 2020. “Estamos buscando uma solução que não tenha custo adicional para o cliente, que seja fácil e que renda mais que a poupança”, disse.

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Não é de graça, mas pode ficar

A principal fonte de receita da Superdigital é a cobrança de tarifas. A conta pessoa física custa R$ 9,90 e inclui um saque ou transferência para outros bancos por mês, um cartão físico, cinco cartões virtuais e dois depósitos por boleto, além da possibilidade de checar saldo por meios virtuais, pagar contas e fazer transferências ilimitadas para outras contas Superdigital.

Porém, nos meses em que o cliente ficar sem saldo em conta ou fizer compras no valor de R$ 500 no cartão, ele fica isento da tarifa. “Aproximadamente 20% dos clientes utilizam o cartão desse jeito para conseguir a isenção”, diz Felipe Castiglia.

Para quem recebe os rendimentos pela Superdigital, os pacotes são um pouco diferentes. O pacote comum inclui quatro saques ou transferências para outros bancos por mês, em vez de apenas um, e comprando R$ 250 no cartão por mês já é possível pagar apenas metade da tarifa de R$ 9,90.

Há ainda uma segunda opção de pacote, que é totalmente gratuita, mas não inclui saques nem transferências para outros bancos. Estes são cobrados à parte e custam R$ 5,90 cada.

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É o mesmo caso da conta MEI, que é gratuita e apenas cobra pelos saques e transferências para outras instituições. Nesse caso, há ainda uma parceria com a adquirente do Santander, a GetNet. A SuperGet possibilita ao cliente comprar a maquininha de cartão da GetNet por 12 parcelas de R$ 2 e abrir junto uma conta Superdigital.

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