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2020-05-11T15:28:54-03:00
Jasmine Olga
Jasmine Olga
Cursando jornalismo na Universidade de São Paulo (ECA-USP), já passou pelo Centro de Cidadania Fiscal (CCiF) e o setor de comunicação da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo
De olho no Bitcoin

Halving: o evento que veio para chacoalhar o mercado de criptomoedas finalmente chegou

Fenômeno cortará pela metade a emissão de novos bitcoins em momento de alta demanda e pode ter reflexos na cotação da moeda

11 de maio de 2020
5:57 - atualizado às 15:28
bitcoin, halving
Imagem: Shutterstock

O que acontece de quatro em quatro anos e nem mesmo o coronavírus vai adiar? Infelizmente não estamos falando das Olimpíadas, já que a edição que aconteceria em Tóquio neste ano ficou para 2021, mas sim de um outro evento que está no radar dos investidores do mercado de criptomoedas desde o ano passado e que promete mudanças drásticas. Não é possível saber o seu momento exato, mas todas as estimativas e cálculos apontam para a noite do dia 11 de maio como o mais provável.   

Estamos falando do halving, uma correção técnica prevista no algoritmo de criação do bitcoin, que corta pela metade a oferta de novas moedas no mercado. 

Esse "fenômeno"  foi criado lá em 2008, junto com o bitcoin, pelo anônimo programador conhecido apenas como Satoshi Nakamoto. Para garantir a escassez do ativo e segurar o processo inflacionário da moeda, a cada 210 mil blocos minerados, a remuneração paga aos mineradores cai pela metade. 

Falei grego?

Para entender melhor, é preciso analisar o que está por trás do complexo processo de computação responsável por manter o funcionamento desse mercado, conhecido como mineração. É assim que as novas moedas são criadas e a oferta de novos bitcoins se mantém constante no mercado. 

Como o bitcoin não é centralizado em torno de um banco central ou governo, o seu funcionamento é mantido por meio de um trabalho coletivo de "mineradores".  

Para que as transações com a moeda sejam verificadas, autorizadas e registradas em uma espécie de livro contábil conhecido como blockchain, é preciso um grande poder computacional. Com placas de processamento poderosas, esses mineradores realizam a validação das transações e garantem a segurança de todo o processo em troca de um pagamento feito em novos bitcoins. 

A cada 10 minutos, um novo bloco é processado e 12,5 novos bitcoins são emitidos. E é justamente aí que o halving vai mexer com o mercado.

Na programação do ativo está previsto um corte pela metade da remuneração paga a cada 210 mil blocos validados na blockchain. Atualmente, uma média de 144 novos blocos são minerados todos os dias - o equivalente a 1,8 mil novos bitcoins criados diariamente. 

Assim que o bloco 630 mil for processado, esse número cairá para uma média de 900 novas moedas por dia. Com a medida, a taxa de inflação da moeda também será reduzida, caindo de 3,6% para 1,8%.

Uma lei antiga

Você já pode ter ouvido dizer que o evento, que já aconteceu outras duas vezes no passado - em 2012 e 2016 - pode mexer drasticamente com o mercado de criptomoedas, causando um novo ‘boom’ de alta do bitcoin. Isso não é de hoje. 

Após o primeiro e segundo halvings, a moeda teve dois picos de valorização. Em novembro de 2012, data do primeiro evento, o bitcoin era negociado por poucas dezenas de dólares e passou para a casa dos US$ 200 um ano depois. Já em 2016, a moeda teve uma valorização de 2.900%, até atingir o seu topo histórico de US$ 20.089 um ano e meio depois.

Comportamento do bitcoin após os dois primeiros halvings da sua história.
Fonte: Messari

Desde 2019 a expectativa dos investidores com a proximidade do halving vem crescendo, criando uma demanda ainda maior pelo ativo e, com isso, empurrando para cima a cotação da moeda digital. No ano passado, o bitcoin liderou a lista de melhores investimentos, acumulando uma alta de 95,62%. 

E nos últimos dias só se fala dele. Depois de uma derrapada em março, quando a moeda sofreu com a crise de liquidez que atingiu todos os ativos globais, no ápice da crise dos mercados por conta do coronavírus, o bitcoin vem em uma alta expressiva nas últimas semanas. Só nos primeiros dias de maio a alta foi superior a 13%. No ano, o acumulado já está na casa dos 36%.

Valorização do bitcoin em 2020
Fonte: CoinMarketCap

A já batida e velha conhecida lei da oferta e da demanda ajuda a explicar a recente escalada do preço do bitcoin. Uma queda nas novas ofertas da moeda e uma demanda estável ou, mais provável, crescente pelo ativo deve levar a uma valorização da moeda.

Vale lembrar também que dos 21 milhões programados para serem minerados, 18 milhões deles já estão no mercado. Ou seja: a moeda está cada vez mais escassa. Será que o halving é o suficiente para engatilhar uma alta expressiva da moeda?

Efeito Halving?

Para Samir Kerbage, diretor de tecnologia da Hashdex, gestora de fundos de criptomoedas, não é possível comprovar que o halving por si só tenha um efeito direto na cotação do bitcoin. Além disso, Kerbage afirma que o comparativo com o fenômeno visto após os halvings de 2012 e 2016 é complicado, já que neste ano o mercado de criptomoedas está muito mais consolidado e diferente do cenário dos anos anteriores.

A comparação dos momentos é natural, mas pode trazer leituras erradas, já que os gráficos que normalmente encantam os investidores se referem a um período mais longo de apreciação e criam uma relação de causalidade que talvez não exista.

“Para nós [Hashdex],o impacto nessa redução na oferta que está acontecendo agora de novos bitcoins minerados é insignificante perto do volume negociado no dia. Então, o que podemos esperar é certamente um aumento na volatilidade, justamente por esse evento estar tendo uma repercussão muito grande” - Samir Kerbage, diretor da Hashdex

Daniel Coquieri, COO da corretora BitcoinTrade, também acha difícil cravar o que o futuro reserva para o bitcoin, mesmo olhando para o passado, já que o mercado está muito diferente do que era quatro anos atrás. Mas não há como negar que um choque na oferta pode sim impactar no preço do ativo, já que ele vem em um momento onde a demanda está constante e crescente.

Para Coquieri, o bitcoin está em um excelente momento para compra, mas é preciso entrar no mercado olhando e pensando no médio e longo prazo, nunca na semana que vem.

Felipe Trovão, sócio da Foxbit, acredita que assim como nos halvings anteriores, a tendência é de uma disparada no valor nos próximos meses, mas manda um recado para aqueles interessados em embarcar agora nessa empreitada: as pessoas não devem entrar neste mercado esperando ficar rico da noite para o dia. Esse pensamento obriga as pessoas a conhecerem melhor o mercado e também evita que desavisados acabem caindo em fraudes, frequentes pela falta de regulamentação do setor. 

“A gente sabe que vai acontecer esse choque na oferta, e a demanda está estável, então a tendência é o bitcoin subir. O que não significa que ele não possa cair. É saudável todo ativo passar por uma correção, ninguém pode crescer para sempre. Sabemos que é um ativo volátil de alto risco, com bruscas variações, então você deve olhar para uma curva de tempo maior” - Daniel Coquieri, COO da BitcoinTrade

Se não dá para saber ao certo como o halving pode afetar o futuro, podemos ter uma palinha do que ele é capaz de fazer no presente. 

Mesmo de olho em um futuro mais distante, tanto Samir, quanto Daniel e Felipe concordam que a expectativa em torno do evento está movimentando o mercado de diversas formas no curto prazo.

A primeira delas é a maior busca por informações sobre o mercado de criptomoedas, o que aumenta a demanda pelos ativos do grupo (aqui inclusas também as alt coins, moedas digitais que costumam pegar carona nos movimentos do bitcoin). 

A vontade dos investidores de se posicionarem para surfar a onda de valorização que pode vir pela frente também entra na equação, sejam eles otimistas ou pessimistas com o futuro da criptomoeda. Então, é bom ficar preparado: todo esse movimento deve reservar dias de alta volatilidade pela frente.

E os números já aparecem. Segundo Samir, a Hashdex tem visto um crescimento no interesse pelos seus fundos, sejam eles destinados ao varejo, com aportes mínimos de R$ 500, ou a investidores institucionais, com investimento mínimo de R$ 100 mil. Segundo ele, o aumento no volume de demandas vindas de investidores institucionais é inédita e demonstra uma maior confiabilidade no setor. 

Nas vésperas do Halving, de março para abril, a BitcoinTrade registrou um crescimento de 35% de novos clientes, 40% no aumentos de cadastros e 20% no aumento do volume negociado. Para o COO da corretora, embora o volume negociado pelo mercado brasileiro ainda seja pequeno perante o cenário global, a proporção de crescimento é a mesma. 

A Vitreo, primeira a permitir que investidores qualificados comprassem cotas de um fundo 100% em criptomoedas, também registrou um aumento na captação dos seus fundos nos últimos meses. De março para abril, a companhia teve um aumento de 43,82% de aplicações no fundo reservado ao varejo e 58,8% no destinado aos investidores institucionais.

A tempestade perfeita

Que a demanda por bitcoin só cresce já é uma realidade, mas é difícil colocar todo esse interesse só na conta do halving e todo o buzz em torno do evento. 

A crise econômica trazida pela pandemia de coronavírus também pode estar desempenhando o seu papel e aumentando a consideração do bitcoin como uma alternativa de investimento.

Mesmo após a queda enfrentada pelo ativo em março, quando todo o mercado sangrou, cresce a procura do bitcoin como um ativo de reserva de valor.

Com os bancos centrais anunciando medidas que envolvem a emissão massiva de moeda e redução nas taxas básicas de juros, na luta contra os efeitos do coronavírus na economia, as pessoas aumentam suas buscas por ativos de proteção, como o ouro. E agora o bitcoin. 

A postura deflacionária do bitcoin foi defendida recentemente pelo CEO da Binance, uma das maiores corretoras de criptomoedas do mundo, em entrevista exclusiva ao Seu Dinheiro.

Recentemente, a notícia de que Paul Tudor Jones, gestor de um dos maiores hedge funds do mundo, comprou bitcoin contra a possível inflação da moeda americana deu o que falar. Jones foi o primeiro grande gestor a admitir a estratégia, inclusive comparando com o papel que o ouro desempenhou durante a década 70. Para Trovão e Coquiari, ele deve ser o primeiro de muitos a seguirem a tendência.

Samir, da Hashdex, vê no cenário atual o ambiente perfeito para se testar a tese do bitcoin como uma reserva de valor. Ele destaca que entre as boas características para uma reserva de valor - durabilidade, portabilidade, fungibilidade e escassez -, o bitcoin é igual ou superior ao ouro em todos os aspectos, perdendo apenas na questão da durabilidade, já que o segundo é um elemento natural. 

Na outra ponta, no campo negativo, é importante ressaltar que o bitcoin é um ativo com grande volatilidade, o que pode prejudicar a sua consolidação para esta finalidade. Mas, para Samir, a expectativa é que conforme o uso do bitcoin se popularize, a volatilidade se reduza.

“O bitcoin ainda tem muita estrada para se provar e se desenvolver, mas ele parece que está bem colocado para performar muito bem caso a gente tenha um cenário de inflação nos Estados Unidos”, completa. 

Para Trovão, da Foxbit, o alto deslocamento de dinheiro para investimentos variáveis (com juros cada vez mais baixos no mundo todo), um maior número de pessoas com informações sobre o mercado de criptomoedas e o crescimento da confiança na tecnologia do bitcoin estão criando uma ‘tempestade perfeita’ para que a moeda se destaque de forma positiva. 

“Não significa que o investidor vai investir 100% do patrimônio dele em criptomoedas, mas ele vai ter que pegar um pouco mais e vai ter que aportar mais dinheiro nesses mercados” - Daniel Coquieri, BitcoinTrade

O que muda para os mineradores?

Não é só a cotação do bitcoin que é motivo para especulação nos momentos que antecedem o Halving. Muitas perguntas surgem também sobre o futuro da mineração como um todo.

George Wachsmann, chefe de gestão da Vitreo, destaca que ainda não é possível prever que haverá uma queda do interesse dos mineradores em realizarem o processo com a redução da recompensa.  

O processo certamente ficará mais caro, mas é quase impossível que ele deixe de existir. 

Segundo Bernardo Shucman, CEO da FastBlock, especializada em consultoria de blockchain, para se ter uma mineração eficiente, capaz de gerar lucro, é preciso se ter acesso à ‘energia elétrica em alta quantidade e baixo custo, gestão de rede de computadores, sistemas elétricos e refrigeração e ter expertise para realmente extrair o máximo de eficiência nesses três processos’.

No passado, os halvings e a consequente queda na remuneração em bitcoins foram responsáveis pelo estabelecimento de novos pisos para o custo de produção, forçando empresas mineradoras a buscarem investimentos externos para se manterem competitivas. Para Shucman, o novo halving acelera o processo de transformação da mineração de bitcoin em algo puramente industrial.

Mesmo que exista uma queda de interesse dos mineradores no processo, é impossível acabar a mineração de bitcoin. Sem ela a criptomoeda não existe, pois a mineração não é só a maneira de emissão do bitcoin, ela é o processo de validação e gravação da informação do bloco.

“Uma alta no valor sem dúvida compensaria a perda de mineradores pequenos e individuais, mas também aumentaria os ganhos dos industriais por consequência”.

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