Preferimos ter um lado fiscal um pouco pior para que as pessoas possam honrar seus contratos, diz Campos Neto
O presidente do Banco Central (BC), Roberto Campos Neto, destacou que a instituição se preocupa em dar condições às empresas cumprirem suas obrigações financeiras, evitando um movimento de quebra massiva de contratos

O presidente do Banco Central (BC), Roberto Campos Neto, disse hoje que um cenário de quebra generalizada de contratos por falta de liquidez seria bastante negativo para a economia como um todo — e, para evitar tal situação, a instituição vai usar as ferramentas que lhe cabem.
"Nós preferimos ter até um fiscal um pouco pior para colocar dinheiro na mão das pessoas, para que elas possam honrar os contratos", disse Campos Neto, durante teleconferência promovida pela XP Investimentos. "Se nós entrarmos em um regime de quebra de contratos, vai ser muito danoso para a economia brasileira no médio e no longo prazo".
Durante o evento, o presidente do BC destacou as principais iniciativas que já foram colocadas em prática pela autoridade monetária brasileira e elencou alguns dos próximos pontos a serem atacados pela instituição, destacando sempre a gravidade da crise do coronavírus — que, segundo ele, tem um impacto global maior e mais incerto que a de 2008.
Logo no início de sua apresentação, Campos Neto mostrou um levantamento produzido pela The Economist Intelligence Unit destacando impacto econômico do surto de coronavírus em cada país. E, de acordo com o levantamento, o PIB do Brasil irá recuar 5,5% em 2020:

"Independente de a estimativa (da The Economist) estar correta ou não, fato é que o Brasil vai ter um impacto forte", disse Campos Neto, sem revelar qualquer tipo de projeção oficial do BC.
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Entre as medidas já adotadas, o presidente do BC citou a redução da alíquota do recolhimento compulsório sobre recursos a prazo, de 31% para 25% — iniciativa que, em conjunto com outras diretrizes, liberará cerca de R$ 1,2 trilhão em liquidez ao sistema financeiro.
Ao falar especificamente sobre a linha de crédito especial de R$ 40 bilhões para pequenas e médias empresas (PMEs), Campos Neto voltou a ressaltar que a medida tem como objetivo a preservação de empregos, dada a característica desse tipo de companhia.
Segundo ele, as PMEs são altamente concentradas no setor de serviços, que sofre em especial com as medidas de distanciamento social. "É uma medida que irriga essas empresas", disse o presidente do BC, afirmando que uma fatia relevante do custo operacional dessas empresas diz respeito à folha de pagamento.
Quanto às iniciativas em elaboração, Campos Neto afirmou que o BC já está trabalhando para direcionar novos créditos às PMEs, e que a autarquia está se esforçando para conseguir liberar mais recursos já na próxima semana.

Olhando adiante
Questionado a respeito dos próximos passos do BC em relação à taxa Selic, Campos Neto afirmou que a estratégia de comunicação adotada pelo banco tem sido consistente, sempre levando em conta os eixos da condução das reformas econômicas, das variáveis internacionais e dos fatores domésticos.
Dentro desses eixos, ele destacou que a expectativa de aprovação das reformas pode ter sido adiada. Quanto aos acontecimentos globais e o surto de coronavírus, ele ponderou que o equilíbrio fiscal pode piorar antes de melhorar.
"É importante comunicar que o trem vai sair do trilho, mas nossa tarefa é explica como o trem volta aos trilhos lá na frente", disse.
Campos Neto não deu qualquer sinalização mais concreta a respeito da condução da política monetária, mas ressaltou que é preciso ter cuidado ao comparar a atuação do BC brasileiro com a de outras autoridades mundiais, uma vez que as situações econômicas e fiscais nem sempre são semelhantes.
Ele citou especificamente os casos de países com taxa de juros próxima a zero, mas que são receptores de capital — ou seja, funcionam como 'portos seguros' dos investidores que retiram seus recursos de ativos de risco e, assim, não servem como comparação.
Segundo o presidente do BC, os movimentos na Selic são feitos de modo a serem permeados pela curva de juros futuros. "Sempre que cai o juros, é para fazer com que as condições de liquidez se ampliem".
[captacao]
Data para normalização?
Campos Neto também evitou dar alguma data específica a partir da qual a economia deva começar a retornar à normalidade. Por mais que ele concorde que a ausência de um prazo seja ruim para os empresários, ele lembra que os países que fizeram isso precisaram prorrogar o cronograma.
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