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Trecho sujeito a neblina: reduza a velocidade e dirija com os faróis baixos. Vale para todos.
“Se você está atravessando o inferno, não pare.”
Winston Churchill
Talvez não devesse começar este texto com referências a Churchill. Até porque, a esta altura, ele deve estar se remoendo no túmulo. “Me deixe em paz, por favor.” De fato, os tempos requerem paz, em várias instâncias.
Apesar de alguns paralelos pertinentes com situações de guerra, este é um momento que, de algum modo, é diametralmente oposto às guerras. Diferentemente das situações de conflito, a situação atual exige parar as economias — o fluxo de atividade e de pessoas. Nas guerras, os governos querem estimular a economia. Além disso, agora temos um inimigo comum a todos os países, que insiste em avançar sobre todo o tabuleiro de WAR.
Investigando a mim mesmo, suponho que talvez haja um motivo para lembrar da liderança de Churchill. Tomo emprestadas as palavras de Thomas Friedman em artigo no New York Times (desculpe pela péssima tradução apressada): “Estes são tempos que testam qualquer líder — municipal, estadual e nacional. Cada um deles está sendo chamado a tomar decisões de vida ou morte, enquanto dirigem na neblina, com informação imperfeita, e todos no banco de trás gritando freneticamente para o motorista”. Passa rápido pela minha cabeça que, de algum modo, essa também é a posição de um alocador de recursos agora. Deixo isso para outro momento. Talvez seja só o meu ego tentando dar ao mundo interpretações autocentradas.
To be locked-down or not to be? (Ser trancado em casa ou não ser). Eis a questão que se coloca. E deveria ser uma questão séria. Conforme os cálculos de trade-off passam a ser colocados de maneira mais científica na mesa, cresce a corrente defensora de que, talvez, os custos sociais (e também, quem sabe, até humanitários) de um lockdown restritivo e extenso sejam maiores do que a liberação parcial daqui a duas semanas, com manutenção do isolamento para grupos de risco.
Donald Trump tem insistido que “a América não pode parar”. Entende que as coisas podem ser relaxadas na Páscoa. O governador de Nova York, Andrew Cuomo, rebateu, com algo mais ou menos assim: “Nenhum americano vai dizer para acelerar a economia sob o risco de colocar vidas em jogo, porque nenhum americano vai colocar valor numa vida. O trabalho número 1 deveria ser salvar vidas”. Bill Gates veio com argumentação semelhante: “Não tem meio termo aqui e é muito difícil dizer para as pessoas: ‘Hey, continue indo a restaurantes, vá lá comprar uma casa nova, e ignore esses corpos que estão sendo empilhados ali na esquina. Nós precisamos de vocês ainda gastando, porque há alguns políticos que acham que o crescimento do PIB é a única coisa que importa”.
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Qual a minha opinião sobre isso? Sinceramente, eu não tenho opinião. Sou uma espécie de Jürgen Klopp dos investimentos. Não consigo, não devo, nem considero ético ter uma opinião sobre tudo. Há cientistas, especialistas em epidemiologia, matemáticos e outras pessoas debruçadas sobre isso. Neste momento, eu, Felipe, não consigo dizer o que é melhor e confesso certo desprezo intelectual pelos defecadores de sapiência que já se apressam a opinar sobre qual o melhor caminho para dirigir nesta neblina, com as crianças berrando no banco de trás.
Contudo, não saber não significa não agir. X não é f(x). Você não precisa entender a realidade para adotar certas regras e princípios de ação. E aqui uma heurística potencialmente útil possa ser do princípio da precaução. Enquanto não tivermos maior clareza sobre os riscos da pandemia, tanto em termos de contágio e número de mortes potenciais, quanto em relação ao eventual colapso dos sistemas de saúde (como Cuomo alerta sobre NY para as próximas semanas), entendo que o caminho da prudência e da parcimônia deveria ser adotado.
Se somos avessos ao risco e prezamos, acima de tudo, pela sobrevivência (essa é a definição de racionalidade, segundo Nassim Taleb, que encontra ressonância na racionalidade ecológica de Gerd Gigerenzer), o momento requer sacrifício.
Obviamente, não quero dizer com isso que devamos ficar confinados para sempre, tampouco que seja insensível aos efeitos econômicos — sou empresário, com 300 funcionários, 350 mil clientes, e arrimo de família (grande). Mas, no meio da neblina, com o piso escorregadio, não há como acelerar na curva. Quando a ciência nos trouxer um pouco mais de resposta, poderemos potencialmente caminhar na direção do afrouxamento do lockdown. Enquanto as argumentações estiverem permeadas por interesses políticos e discursos de palanque, dificilmente as decisões de política serão as apropriadas.
Pergunto honestamente: os defensores da liberação do lockdown, ainda neste momento de grande incerteza, manteriam suas posições caso algum de seus entes queridos fosse vítima do coronavírus?
E talvez coubesse outra questão relevante: se liberamos a circulação das pessoas e a atividade, não corremos o risco de uma segunda grande onda de contágio e colapso do sistema de saúde? Quais seriam os impactos econômicos disso? Voltamos às nossas casas para ficar trancados por mais tempo, mais frustrados e desesperançosos, abandonando a chance de uma recuperação em V definitivamente e migrando para a forma de W? São perguntas que não sabemos responder. Ninguém sabe.
Agora, pense sobre o discurso de ontem do presidente Jair Bolsonaro. Será que nosso brilhante ministro da Saúde (quem deveria, de fato, ser ouvido neste momento) compartilha daquela visão? Será que é prudente — e respeitoso com as vítimas — cogitar um “resfriadinho” ou uma “gripezinha”? Será que é adequado propor um breve retorno às ruas diante de tanta incerteza e tantas perguntas sem resposta neste momento (não só no Brasil; no mundo todo)? Bolsonaro discursou mesmo para os brasileiros, ou para Doria e Witzel?
Não, eu não estou falando de política. Defendi o governo várias e várias vezes. E fico triste só de pensar na hipótese de que esse cisne negro chamado coronavírus possa ter nos tirado do trilho das reformas liberais, do capitalismo de mercado (não de compadres) e de uma sociedade aberta em geral, trazendo a possibilidade de um retorno da esquerda intervencionista ao poder.
Estou falando de economia, de como a falta de coordenação política e o esgarçamento da relação entre os Poderes pode adicionar um novo problema à crise global: uma instabilidade doméstica pesada.
O momento, global e local, exige ações coordenadas, coesão e uma agenda de respostas à crise — veja o tamanho da ogiva nuclear colocada na economia dos EUA após o acordo no Congresso americano ontem.
A reação imediata do presidente do Senado, Davi Alcolumbre, ontem teve algo emblemático. Ela foi escrita. Ela não foi falada. “Verba volant, scripta manent”. As palavras voam, os escritos permanecem. Foi, ipsis literris, assim que começou aquela fatídica carta do então vice-presidente Michel Temer. Deu no que deu.
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