Investimos em conversas que vão longe
São raros os dias em que tudo cai — ou tudo sobe —, e eles sugerem um mercado irracional, que não sabe bem o que está fazendo.
Ontem, quase todas as ações não commodities do Ibovespa fecharam o dia em queda.
(Aliás, não acredito nessa historinha de "reflation trade", uma hipotética ressurreição das commodities lastreada em gastos trilionários com infra pelo mundo. Mas vamos em frente.)
São raros os dias em que tudo cai — ou tudo sobe —, e eles sugerem um mercado irracional, que não sabe bem o que está fazendo.
Aquilo que chamamos tecnicamente de co-movimento do mercado é um péssimo sinal. Todas as forças se tornam sistêmicas, e o intrínseco é jogado para debaixo do tapete.
Não há mais diferenciação entre o ruim e o pior, ou entre o bom e o melhor.
Na verdade, não há sequer diferenciação entre o que é bom e o que é ruim.
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O mercado simplesmente trata os ativos de risco como um corpo coletivo e homogêneo.
Isso nos leva a lembrar das condições de normalidade, de como funcionam as decisões de investimento quando não estão subordinadas a premissas críticas.
Por que, afinal, insistimos em comprar ações específicas ou imóveis específicos?
Mesmo quando investimos em fundos, escolhemos os melhores gestores, não é mesmo? Ou, pelo menos, aqueles que achamos melhores…
Não nos basta comprar pacotes de coisas? ETFs? Estruturas passivas?
Imagino-me em uma festa sob pressão e temperatura normais, sem vírus, sem distanciamento social.
Indivíduo ao meu lado pede licença, repousa seu daiquiri sobre o balcão (eu bebo Campari), pergunta se eu não sou o Rodolfo da Empiricus, e começa a falar dos seus investimentos.
Há duas versões para essa história.
Na primeira delas, meu recém-conhecido colega de festa descreve sua alocação da seguinte forma:
"Eu faço 'dollar-cost average' do Ibovespa a cada dia 8, ou no próximo dia útil. Todo santo mês, faça chuva ou faça sol, pego mil dólares, converto para reais, e compro aquele tanto de BOVV11. Rodo no piloto automático, sequer olho para as cotações. Vou me preocupar com isso daqui a uns dez ou vinte anos. Estou certo, não estou?"
Respondo que está certo de certa forma, que admiro sua disciplina e estoicismo. Certamente enriquecerá. A conversa dura dois minutos.
Na segunda versão, outro tipo de abordagem vem à tona:
"Rodolfo, deixa eu te contar. Acompanho a Empiricus desde 2015. O teu sócio, Felipe Miranda, né? Sempre aparece no meu YouTube, inteligente demais. Sou engenheiro, sempre fui apaixonado por carro. Um tempo atrás comecei a ler umas notícias sobre carros elétricos, e ganhei de Natal do meu cunhado a biografia do Elon Musk. Tá meio desatualizada hoje, mas só o início da trajetória do cara já vale uma vida inteira. Passei a me interessar por Tesla, seguir aqueles tuítes engraçados do Musk, acho o cara animal, tipo um novo Steve Jobs, sabe? Uma pessoa de verdade, que faz algumas cagadas e muitas coisas brilhantes ao mesmo tempo, perfil raro de encontrar hoje em dia. Enfim, fui pegando metade de cada bônus que eu ganhava e comprando ação da Tesla. Eu sei que é arriscado pra caralho, já vi subir ou cair 20% em um dia. Mas acho os carros fantásticos, não vejo a hora de chegar ao Brasil. Comprei até umas ações WEGE3 também, naquela hipótese de que ela pode se beneficiar disso como fornecedora. Sei lá se é verdade, mas WEG é uma puta empresa também. Então, se a Tesla não vier pra cá, foda-se, não faz falta pra WEG. Mas é isso. Tô curtindo pra caralho investir."
Essa é uma conversa que vai longe.
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