Troca de e-mails indica que Vale sabia de falha em sensores de Brumadinho
Polícia Federal de Minas teve acesso a troca de e-mails entre funcionários da mineradora e fiscalização, em que eles discutem “discrepâncias” nas informações dos equipamentos

Uma troca de e-mails entre funcionários da Vale e de empresas que atuavam na fiscalização da barragem do Córrego do Feijão, em Brumadinho (MG), indica que a mineradora já havia identificado problema em dados dos sensores da estrutura dois dias antes do rompimento, que deixou até ontem 150 mortos e 182 desaparecidos.
A Polícia Federal de Minas teve acesso a essa troca de e-mails, em que eles discutem “discrepâncias” nas informações dos equipamentos.
No depoimento aos policiais, ao ser questionado sobre o que faria se tivesse um filho no local e soubesse das informações contidas na troca de e-mails, o engenheiro Makoto Namba, da Tüv Süd, disse que o mandaria sair imediatamente. E afirmou que acionaria a Vale para disparar o plano de emergência. A informação foi revelada ontem pela repórter Andreia Sadi, da GloboNews, e confirmada pelo "Estado de S. Paulo".
A barragem de Brumadinho se rompeu em 25 de janeiro. Os e-mails foram trocados entre os dias 23 e 24, antevéspera e véspera da tragédia e citam dados “discrepantes” colhidos no dia 10 de janeiro, ou seja, 15 dias antes da tragédia. O Estado mostrou ontem que o relatório da Tüv Süd, que atestou a estabilidade da barragem, trabalhava com uma margem de segurança muito baixa para a hipótese da liquefação dos rejeitos - fenômeno apontado como a provável causa do colapso.
Os funcionários da Tüv Süd André Jum Yassuda e Makoto Namba prestaram depoimento ao delegado Luiz Augusto Nogueira da Polícia Federal de Minas e responderam perguntas sobre os e-mails em posse da PF. Os dois foram presos na semana passada e tiveram ordem de soltura expedida anteontem, 05, pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ). A PF disse que não comentaria o caso, porque o inquérito está sob sigilo.
Questionado a respeito de “dados discrepantes obtidos através da leitura dos instrumentos automatizados (piezômetros) no dia 10/01/2019, instalados na barragem B1 do CCF (Complexo Córrego do Feijão), bem como acerca do não funcionamento de 5 (cinco) piezômetros automatizados”, Namba afirmou que os dados dos sensores só foram levados a seu conhecimento pela Vale após o rompimento.
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Pressão
Namba também afirmou ao delegado federal que se sentiu pressionado por um funcionário da Vale durante reunião para falar sobre a assinatura do laudo de estabilidade da barragem feito por ele. De acordo com o engenheiro, o funcionário o questionou se a Tüv Süd iria assinar a declaração de estabilidade. Embora a princípio tenha respondido que só assinaria após o cumprimento de suas recomendações, recuou e avalizou a segurança da barragem por se sentir pressionado.
Ele também disse à PF ter conhecimento sobre nascente de água próxima do reservatório da barragem, o que poderia comprometer sua estabilidade. Segundo ele, “a água excedente corria para dentro da barragem”. “O declarante não sabe dizer ao certo, mas pode afirmar que desde o fim de julho/2018 foi construída uma barreira e colocada uma tubulação na nascente para desviar a água do reservatório”, diz trecho do relatório da PF sobre o relato.
Segundo ele, ainda em setembro de 2018 solicitou à Vale a construção de um equipamento específico para que o excedente de água fosse retirado da barragem. Sobre a localização do refeitório e da sede administrativa da empresa, destruídos pelo rompimento e onde estavam algumas das vítimas, o engenheiro disse que, se o Plano de Ação de Emergência de Barragens de Mineração (PAEBM) mostrou que estavam no caminho da lama, a Vale deveria ter transferido todas essas construções para outros locais.
Defesa
A Tüv Süd, por meio de nota, afirmou que após o desastre a empresa deu início a uma investigação sobre o caso. “Faremos tudo o que estiver ao nosso alcance para contribuir para uma investigação abrangente desse caso”, diz a nota. Segundo a empresa, além de contatar um escritório para conduzir uma investigação independente, será contratado “um especialista” para fazer uma avaliação de questões técnicas.
Também por meio de nota, a Vale afirmou que vem colaborando “proativamente e da forma mais célere possível com todas as autoridades que investigam as causas do rompimento da barragem”. “Como maior interessada no esclarecimento das causas desse rompimento, além de materiais apreendidos, a Vale entregou voluntariamente documentos e e-mails, no segundo dia útil após o evento, para procuradores da República e delegado da Polícia Federal.”
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