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Ela chamou (e muito) a atenção do mercado com a eleição de Jair Bolsonaro. Para entender melhor esse fenômeno, fui até a fábrica da Taurus no Rio Grande do Sul e conheci o passo a passo da produção de armas
Lembro como se fosse hoje a primeira vez que vi o filme "RED: aposentados e perigosos". Eu tinha pouco mais de 17 anos e fui ao cinema com um amigo que adora filmes de ação. De fato, a atuação dos seis veteranos do cinema como protagonistas do filme era muito boa, mas o que mais me impressionou foi a quantidade (e variedade) de armas que os personagens tinham disponíveis.
Esse foi o filme que me veio à cabeça quando visitei a fábrica da Taurus Armas, em São Leopoldo (RS). Logo na entrada, o forte esquema de revista não deixavam dúvidas de que aquela não era uma indústria comum.

As diversas bandeiras do Brasil espalhadas pela planta só não chamaram mais a minha atenção do que a linha de montagem das armas em si. Deixando o produto de lado, a linha poderia facilmente ser confundida com qualquer outra fábrica: homens lado a lado, montando e testando cada parte do produto, no clássico estilo "Toyota" de produção. Mas bastava um olhar mais atento para captar vários testes de gatilho sendo feitos ao mesmo tempo.
A área de testes impressiona. Por lá, as armas passam por vários procedimentos de estresse, de areias ultrafinas a super-congeladores. Me surpreendi com a tranquilidade que o guia manuseava cada uma das armas, como se fosse a última novidade em aparelhos celulares e não um instrumento capaz de matar. Ao longo da visita, diversas vezes me peguei instintivamente ativando a autodefesa ao desviar da mira das pistolas Taurus durante as explicações sobre o funcionamento de cada produto.

Não são apenas os detalhes que impressionam, os números também. Por dia, são 4 mil armas fabricadas em São Leopoldo, a maioria delas (cerca de 70%) com um destino certo: os Estados Unidos. Conheça mais sobre a Taurus no vídeo abaixo:
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A ideia de conhecer a Taurus surgiu durante uma das reuniões de pauta do Seu Dinheiro. As ações da empresa bombaram na bolsa durante as eleições presidenciais do ano passado, mais especificamente quando a vitória de Jair Bolsonaro parecia algo praticamente consolidado. E motivos não faltavam para isso: o então candidato do PSL ao Planalto foi defensor ferrenho da flexibilização do porte de armas para o brasileiro.
As ações da empresa saltaram da faixa dos R$ 2 no meio de setembro de 2018 para pouco mais de R$ 16 em meados de outubro. Uma invejável valorização de 700%.
Naquela mesma época, entretanto, muita gente no mercado entortou o nariz para os papéis da Taurus, classificando o tal salto como uma boa e velha “bolha”. De fato, boa parte dos ganhos das ações se foi após a assinatura do decreto de Bolsonaro sobre o porte de armas, que mostrou a realidade política do tema: o presidente, sozinho, não é capaz de grandes mudanças na legislação.
Ainda assim, o preço dos papéis da Taurus se manteve na faixa dos R$ 4 a R$ 5, muito longe da média de R$ 1,70 que a empresa sustentou nos últimos três anos.
Aí fica a dúvida: se o assunto Taurus era efetivamente uma bolha, como a empresa conseguiu sustentar parte desses ganhos?
Foi exatamente para responder a essa pergunta que visitei São Leopoldo. Por lá, além de visitar o complexo industrial da Taurus, tive a oportunidade de entrevistar com exclusividade o presidente, Salesio Nuhs. A conversa completa, inclusive, você pode conferir nesta matéria. Veja o que de concreto está acontecendo na Taurus antes de decidir embarcar nas ações.
Voltando aos negócios da empresa, quero desmistificar a ideia de que qualquer movimento nas ações da Taurus foi unicamente influenciado pelas questões envolvendo Bolsonaro. Como todo papel da bolsa, existem diversos fatores capazes de guiar os caminhos que o ativo vai seguir, e minha missão aqui é te mostrar todos eles.
A primeira coisa que quero falar é sobre o mercado consumidor da Taurus. Cerca de 85% do faturamento da companhia vem do mercado externo e apenas 15% vem do Brasil. Com isso, verifica-se que qualquer notícia sobre a política nacional impactaria em um percentual dos negócios muito mais baixo do que alguns imaginam.
Conversei com alguns analistas de mercado que acompanham de perto o setor de armas na bolsa. Segundo eles, uma coisa importante é lembrar que o próprio Bolsonaro foi crítico da Taurus nos últimos anos. Para o agora presidente, a companhia desempenha um monopólio no mercado brasileiro e o setor deveria ser aberto ao capital estrangeiro.
Mas, nesse tema da concorrência, o Salesio Nuhs rebate afirmando que existem diversas empresas de armas que atuam no país. Além disso, segundo ele, uma vez tendo o mercado exterior como grande motor de negócios e concorrendo com as empresas lá de fora, a Taurus pouco seria impactada pela abertura maior às empresas gringas.

Fugindo do fator Bolsonaro, há questões mais interessantes sobre a Taurus capazes de influenciar no valor da ação. Não sei se você sabe, mas a Taurus passou por maus bocados nos últimos dez anos e beirou a recuperação judicial. Foram vários trimestres de resultados negativos e que fizeram o endividamento da companhia subirem balanço após balanço.
Mas daí você me pergunta: “Fernando, a empresa não fez nada para reverter tal situação?”. Fez sim. Existe um plano de recuperação em curso desde o início da década, mas sua execução travou em diversos momentos, o que deixou a companhia cada vez mais frágil.
Foi somente a partir de 2015 que as coisas de fato começaram a mudar. A primeira "virada" veio com a unificação das unidades de produção: até então, a Taurus tinha três fábricas no Brasil, sendo uma em Porto Alegre e duas em São Leopoldo. Após as mudanças, duas delas foram desativadas, ficando apenas a maior, em São Leopoldo.
A unificação da fábrica reduziu custos, mas não acabou com os problemas da Taurus, conta Salesio. A companhia teve de transformar seus métodos de produção, abandonando muitos sistemas considerados “artesanais” na produção de armas. Ficou mais eficiente e melhorou a qualidade das armas.
A reestruturação também envolveu mudanças nos processos financeiros, comerciais e de marketing da Taurus. A diretoria reduziu em 18% o número de funcionários, em grande parte devido ao emprego de tecnologias dentro da linha de produção, contam os analistas que acompanham a fabricante.
A lição de casa - ou "tema", como dizem os gaúchos - continuou na esfera comercial e na linha de produção. O prazo entre o pedido do cliente e a entrega caiu de uma média de 30 dias para apenas 3. Um ganho de eficiência que faz diferença para o acionista.

Vale lembrar ainda que, no passado, a Taurus sofreu com uma série de problemas de qualidade de suas armas, fator que manchou a imagem da companhia no Brasil e no exterior. Foi pensando nisso que a diretoria da empresa decidiu investir em um marketing pesado, sobretudo nos EUA, para vender a “nova Taurus”.
O principal caminho foi a participação em feiras de exposição de armas nas terras americanas para colocar os produtos em contato direto com o consumidor final. Isso foi importante porque nos EUA a maioria das armas são comercializadas no varejo e em contratos com a fabricante.
Para atrair novos clientes, a Taurus também reduziu o preço das suas armas, que chegam a custar 40% menos do que as concorrentes na mesma linha. O resultado disso: enquanto as vendas de armas nos Estados Unidos como um todo subiram 6% entre 2014 e 2017, a Taurus vendeu 71% mais no período.

Os frutos dessas iniciativas também podem ser vistos nos últimos balanços divulgados pela empresa. O resultado do 3º trimestre de 2018, por exemplo, mostra que a geração de caixa da Taurus, medida pelo Ebitda, passou de R$ 27,4 milhões negativos nos nove primeiros meses de 2017 para saldo positivo de R$ 97,1 milhões no mesmo período.
Como dizem alguns operadores do mercado, caixa maior não é garantia de dívida paga. A reestruturação em diversos setores da Taurus não foi suficiente para reverter o quadro de endividamento, que ao longo de 2018 continuou sua trajetória de alta.
No 3º trimestre de 2018, a dívida líquida da companhia cresceu 10,1% em relação ao 2º trimestre e acumulava alta de 22,8% na comparação com o encerramento do ano anterior. Traduzidos em números, são R$ 887,5 milhões que a empresa tinha a pagar. E parte significativa dela estava com vencimentos de curto prazo.
Dentro desse xadrez financeiro, a Taurus promoveu um processo de reestruturação de dívida ao longo do ano passado, que incluiu a extensão dos prazos de vencimento das dívidas com os credores. Nesse caso, o total estendido somava US$ 161,8 milhões, com novo prazo de pagamento de cinco anos.
Os resultados foram notáveis no balanço. Para se ter uma ideia, em junho de 2018 a Taurus sustentava uma dívida de curto prazo de R$ 675,4 milhões e uma dívida de longo prazo de R$ 139,6 milhões. Já em setembro, a dívida de curto prazo caiu para R$ 166,5 milhões e a de longo prazo subiu para R$ 735,4 milhões o que, na prática, significa fôlego extra para conseguir liquidar o saldo devedor.
De acordo com o presidente, essas mudanças possibilitaram uma redução de 50% da taxa de juros dos empréstimos, reduzindo em mais de R$ 120 milhões os encargos sobre o endividamento durante o período de cinco anos.
Enquanto a dívida rola, o plano da Taurus foi utilizar o “método Marie Kondo” de arrumação de casas. Em seu livro, a escritora japonesa diz que as pessoas devem se desfazer de tudo aquilo que não lhes traz mais alegria. Traduzindo para o mundo dos negócios, a Taurus busca agora se desfazer de tudo aquilo que não lhe traz lucro.
Na conversa que tive com o Salesio, ele me contou que pretende vender alguns ativos da Taurus em breve. O primeiro deles é o terreno da antiga fábrica de Porto Alegre, e o segundo é a própria fábrica de capacetes e motocicletas que o grupo mantém em Curitiba (PR). Ele espera arrecadar R$ 150 milhões com os dois negócios.

Em outubro de 2018, às vésperas das eleições e no auge da euforia com as ações da empresa, a Taurus causou polêmica no mercado ao anunciar um aumento de capital por subscrição de ações. Para os analistas que acompanham os papéis da companhia na bolsa, essa foi a principal “tacada” da empresa no sentido de melhorar sua saúde financeira.
A capitalização tem potencial de render até R$ 400 milhões aos cofres da empresa por meio de uma emissão de bônus de subscrição de ações preferenciais. De acordo com Salesio, até a marca de R$ 300 milhões, tudo o que for conquistado no plano irá diretamente para o pagamento de dívida.
Os bônus foram emitidos em quatro séries - custando de R$ 0,10 a R$ 0,20 centavos cada - e deram direito aos acionistas de comprarem ações da fabricante de armas por um valor entre R$ 4 e R$ 7 cada até outubro de 2020.
No fechamento desta segunda-feira, 11, as ações da Taurus eram negociadas a R$ 4,23. Para os acionistas, portanto, exercer os bônus agora acaba não sendo a melhor alternativa, já que renderiam muito pouco. Vale lembrar que os papéis já chegaram a bater em R$ 16 nas máximas.
Agora, por tudo que pude ver na fábrica da Taurus, devo dizer que, em termos de negócios, a empresa está conseguindo se reerguer. Se você pensa em comprar ações da Taurus, mais do que prestar atenção no burburinho político, vale acompanhar o andamento do plano de recuperação da empresa. O balanço do quarto trimestre sai no fim deste mês. Fica a dica!
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