Bolsonaro rebate Maia e cita “velha política”
O presidente também alegou não saber por que Maia anda tão "agressivo" com ele

O presidente Jair Bolsonaro e o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), protagonizaram ontem um tiroteio verbal, ampliando o atrito que tem como pano de fundo a relação entre Executivo e Congresso e a articulação para a reforma da Previdência. Enquanto Maia manteve as críticas à condução do governo da proposta no Parlamento, Bolsonaro disse em Santiago, no Chile, que as divergências acontecem no País porque alguns "não querem largar a velha política".
Bolsonaro também alegou não saber por que Maia anda tão "agressivo" com ele. Mas afirmou que o perdoa pelas críticas por causa da "situação pessoal" vivida pelo deputado - numa referência velada à prisão preventiva do ex-ministro Moreira Franco, padrasto da mulher de Maia. "Eu lamento. Até perdoo o Rodrigo Maia pela situação pessoal que ele está vivendo. O Brasil está acima dos meus interesses e do dele. O Brasil está em primeiro lugar."
Bolsonaro repetiu que a "bola" pela votação da reforma está agora com Maia e com o Congresso, e não mais com o Planalto. "Não serei levado para um campo de batalha diferente do meu. Eu respondo pelos meus atos no Executivo, Legislativo são eles, Judiciário é o Dias Toffoli", disse Bolsonaro ao deixar o Palácio de La Moneda, sede do governo do Chile, ao lado do presidente Sebastián Piñera. "O que é articulação? O que falta eu fazer? Eu pergunto para vocês. O que foi feito no passado? Veja onde estão dois ex-presidentes. Eu não seguirei o mesmo destino de ex-presidentes, pode ter certeza."
Em resposta ao presidente, Maia usou um dos motes do governo para sustentar que essa ofensiva não leva a nada. "Construir um novo Brasil passa pela aprovação da reforma da Previdência e não continuar nesse embate improdutivo", afirmou Maia ao Estado. "Estou olhando para o futuro, olhando para a vida real das pessoas." Os discursos de Bolsonaro sempre batem na tecla da necessidade de construção de "um novo Brasil".
Em entrevista ao Estado, publicada ontem, Maia disse que o governo não tem projeto para o País além da reforma da Previdência e cobrou empenho do Palácio do Planalto para a votação das mudanças na aposentadoria.
"O governo é um deserto de ideias", declarou o presidente da Câmara. Em telefonema ao ministro da Economia, Paulo Guedes, Maia chegou a ameaçar, na Quinta-feira (21), deixar a articulação política para a reforma por causa dos ataques recebidos nas redes sociais pelo vereador Carlos Bolsonaro (PSC-RJ), filho do presidente. Depois, calibrou o discurso, mas avisou que o governo não tem base aliada no Congresso e, se não se organizar, perderá a votação da reforma.
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Conversa
Após as novas declarações, interlocutores de Maia e de Bolsonaro tentam jogar água na fervura política e marcar uma conversa entre os dois. O deputado, porém, está irredutível e diz que não precisa falar com o presidente. Maia não gostou de ver Bolsonaro repetir, em Santiago, que "alguns" não estão acostumados com a nova forma de fazer política.
"Os atritos que acontecem no momento mesmo estando calado fora do Brasil acontecem na política lá dentro porque alguns, não são todos, não querem largar a velha política", disse Bolsonaro durante café da manhã oferecido pela Sociedade de Fomento Fabril do Chile em Santiago. Ele não citou nomes e disse ter recebido o governo em uma crise "ética, moral e econômica". Também classificou o Brasil como um país "campeão da corrupção".
"O que é a nova política?", reagiu o presidente da Câmara, em Brasília. "Eu compreendo que a política é quando o Legislativo e o Executivo governam juntos. Espero que a gente não volte para um passado recente no qual escolhas equivocadas, com má fé, levaram o Brasil à sua maior crise ética dos últimos anos. É isso que é a velha política: é usar o Estado em benefício de poucos. A nova política é a gente transformar o Estado em um instrumento para melhorar a vida das pessoas", insistiu ele.
Maia participou pela manhã, em Brasília, da convenção nacional do PPS - quando foi aprovada a mudança de nome do partido para Cidadania. Depois, ele almoçou com o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), na capital paulista. "A reforma passa por um ambiente melhor nos Estados e municípios", disse o presidente da Câmara. "Apoiamos a relevância de Maia como líder na Câmara pela reforma", devolveu Doria.
Ideologia
No Chile, Bolsonaro disse ainda que escolheu seus ministros com competência e patriotismo e que o Brasil e a América do Sul começam a viver "um descolamento da questão ideológica", que, segundo ele, sempre falaram "muito alto junto à mídia, universidades e escolas". As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
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