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Quando a regra do jogo muda, você deve estar preparado para mudar junto e garantir o menor impacto possível na sua vida financeira
Quando o presidente Michel Temer enviou ao Congresso sua PEC da Reforma da Previdência, um dos artigos extinguia a pensão por morte que o cônjuge que sobrevive ao outro recebe.
Melhor explicando: o que permanece vivo tem de optar entre ficar com sua aposentadoria ou abdicar dela em favor daquela do que morreu.
Como esse item está mantido na proposta de Paulo Guedes e Rogério Marinho, e deve ser aprovado pelos parlamentares, isso altera meus planos das últimas décadas.
Segundo o IBGE, ao atingir 80 de idade, o que, no meu caso, ocorrerá daqui a 12 meses e meio, minha expectativa de vida será de mais 8,6 anos. Portanto, deverei morrer em 2028. Tá de bom tamanho, mas será ruim para minha mulher.
Como é nove anos mais moça do que eu, e as mulheres têm uma expectativa de vida de mais 15 ao completarem 70, o que acontecerá com ela daqui a um mês e meio, estatisticamente deverá falecer em 2034. Ou seja, seis anos após minha morte.
Nesses seis anos, aprovada a reforma nos termos atuais, só contaria com os cinco mil reais que recebe de aposentadoria.
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A boa notícia é que já fiz um pecúlio nesse valor. Então aquilo que a Previdência não irá dar, por ser reservado aos privilegiados dos três poderes do serviço público, eu já guardei. E não gasto de modo algum.
Mas, convenhamos, os nove mil (cinco mais quatro) que ela irá receber mensalmente após minha morte não são grande coisa. Pagam o condomínio, o IPTU, o plano de saúde, as contas de gás, energia elétrica, telefone, supermercado, remédios e acabou.
Qualquer tipo de lazer e a viagem que faz todos os anos para visitar nossa filha que mora na Inglaterra já eram.
Só que Ivan Sant’Anna, após décadas de porra-louquices rasgadas, tornou-se um cara precavido. Apliquei em porto seguro o equivalente a 2.500 dólares mensais para aqueles seis anos nos quais ela irá me sobreviver.
Como estatística é uma coisa e realidade, outra, adicionei mais quatro anos no cálculo. Sem contar que esses números estão sempre engordando. Raríssimo é o mês no qual não aumento minhas reservas, mesmo que isso implique, como está acontecendo agora, em abdicar de visitar meus filhos e netos que moram na Europa.
A gente também pode ser acometido pelo azar. Azar esse que se materializará se minha mulher resolver viver 100 anos. Aqui, com perdão pela chulice, fodeu.
Mas, se existe azar, também pode haver sorte. Quem sabe eu morro num desastre de avião. Como escrevo sobre o assunto (quatro livros sobre acidentes aéreos), sei que dá para minha mulher, com bons advogados, tomar até um milhão de dólares das empresas que fabricaram a aeronave e seus componentes.
A maravilha das maravilhas seria ambos morrermos juntos na queda de um avião, simplesmente liquidando todos os problemas acima e ainda dando uma boa graninha para nossos herdeiros. Mas aí seria sorte demais.
Primeiro, aviões quase não caem mais. Já lá se foram os bons tempos. Agora, a chance de morrer assim é de uma em 11 milhões. Mais fácil ganhar na megassena, na qual, por sinal, não jogo.
Segundo, quase sempre viajo de avião sozinho.
Agora, o mais importante:
Para que esses meus cálculos malucos (dá-lhe, Lula) tenham chance de acontecer, abdiquei totalmente de me aposentar.
Melhor dizendo, me aposentei, mas continuo trabalhando num ritmo de sete dias por semana, 30 por mês, 365 por ano. Natal, Carnaval, Réveillon, tudo isso para mim é dia útil.
Recentemente passei os feriadões de Páscoa na fazenda de um amigo. Mas de lá continuei a escrever minhas newsletters.
Como o diabo do Office do meu Windows resolveu expirar justamente naqueles dias, digitei os textos no tecladinho de meu iPhone, que por sinal tem vontade própria: muda bear market para Beatriz market.
Este ano, ao fazer minha declaração de Imposto de Renda, descobri que continuo recolhendo para a Previdência, sob a rubrica “Contribuição Previdenciária Oficial”.
Recolho há exatos 61 anos. Só me faltava essa: parte da aposentadoria de quatro mil que recebo todos os meses sai do meu próprio bolso. Ladrões!
Acredito, acredito, não, tenho certeza, que a maioria dos meus leitores do Seu Dinheiro têm a ideia de se aposentar um dia.
Para curtir a vida, viajar na baixa estação, ir ao cinema às quatro da tarde, jogar bocha na pracinha ou simplesmente levar e buscar os netos na escola.
Todos esses desejos são legítimos. Nem todo mundo nasceu workaholic. Mas prestem atenção:
Essa PEC que está no Congresso Nacional é necessária, mas veio para te ferrar, a não ser que você seja um daqueles privilegiados inalcançáveis.
Com os juros baixos que estão sendo praticados no momento, a melhor maneira de garantir dinheiro para a velhice é aplicar em títulos de renda variável, independentemente se o atual bull market (que anda exalando um cheirinho de gordura de urso) vai prosseguir ou não. Seu negócio é a longo prazo.
Quando eu tinha a idade que tu tens (supondo que você seja um jovem de menos de 50 anos), achava que um dia o governo me pagaria 20 salários mínimos por mês, que é para quanto eu recolhia. Dá R$ 19.960,00. Juntando com a aposentadoria de minha mulher, que também pagava o valor máximo, são R$ 39.920,00.
Um dia essa norma simplesmente caducou.
Ainda bem que eu gosto de escrever. E que minha profissão de escriba é longeva.
Só espero que as projeções estatísticas demográficas cumpram sua parte no trato. Que eu morra em 2028 e minha mulher, em 2034.
Antes, é desperdício de vida. Depois disso, entraremos na turbulenta zona de risco, da qual até agora conseguimos escapar.
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