A angústia do crescimento e a dúvida do capitão
Atividade econômica inspira cuidados e Bolsonaro precisa mostrar convencimento e postura diante da reforma da Previdência

Na longínqua semana passada recebemos o decepcionante Produto Interno Bruto (PIB) de 2018 e falamos que ele pouco importava para o desempenho dos nossos investimentos, que o foco estava e deveria continuar na reforma da Previdência. Tudo continua verdade, mas algumas conversas que tive desde então sugerem que “o buraco é mais embaixo”.
Para a reforma ser a “salvação da lavoura” em termos de atividade econômica ela teria de ter um tempo de tramitação muito mais rápido do que os mais otimistas preveem. No quadro que se desenha, de trâmites legislativos até o terceiro trimestre, já teremos passado por um “choque de realidade”, com os dados de atividade, notadamente (des) emprego, decepcionando até meados do ano, ou mesmo antes disso.
Apesar da firme retomada de diversos indicadores de confiança de empresários e consumidores parece que há alguma coisa segurando, travando a transformação da intenção em atividade de fato. Além disso, o crescimento fraco do fim do ano passado já deu início a uma onda de revisões para os prognósticos do ano. A mediana do Focus para o PIB de 2019 caiu de 2,48% para 2,3% e novas revisões deverão acontecer.
No lado da política monetária, o Banco Central (BC) afirma que o estímulo está adequado e que a retomada depende da queda da incerteza. Incerteza é algo não facilmente quantificável, mas é sabido pela literatura econômica que ela tem impacto adverso sobre a atividade.
Não que uma queda adicional de 0,25 ponto ou meio ponto percentual do juro básico seja a solução, mas é uma discussão que já está posta e deve se intensificar conforme a atividade continuar decepcionando.
No lado fiscal não há espaço para políticas de estímulo. Consumimos todo o espaço fiscal que existia com políticas mal desenhadas que agora apresentam suas faturas.
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A equipe do ministro Paulo Guedes sabe que tem “areia” nas engrenagens da economia e emitiu um primeiro sinal. No “Estadão” de 2 de março, lemos notícia de que o governo tenta destravar crédito para empresas. A ideia busca facilitar a apresentação de garantias.
Incrível como parecemos presos em um “feitiço do tempo”, pois esse tipo de notícia vem sendo reeditada desde os tempos de Guido Mantega e nada do crédito e seus canais darem sua contribuição.
Parece que estamos soterrados por todas as questões estruturais que foram sendo deixadas de lado. A emergência fiscal transparece na reforma da Previdência, mas também há a questão tributária, educação, baixa produtividade... (vá completando a lista).
São todos problemas complexos com soluções também complexas que vão testando a paciência de todos, e esses itens, tempo e paciência, estão em falta em qualquer esfera da sociedade.
O presidente está convencido?
Dentro desse ambiente, no qual o tema "Previdência" se coloca como pedra angular do governo, a postura do presidente Jair Bolsonaro ainda levanta questionamento. Também na semana passada, o presidente falou das “gorduras” do projeto entregue por ele ao Congresso, com repercussão negativa nos mercados e reação da turma do “veja bem”.
Em conversa com um amigo com larga experiência no mercado financeiro, ele resumiu a questão da seguinte forma: “Está nítido que o capitão não está convencido da importância da reforma”.
A conversa me remeteu a um alerta semelhante, feito no fim do ano passado, por dois dos maiores especialistas em Previdência do Brasil, Fabio Giambiagi e Paulo Tafner. Em evento do BTG Pactual, os dois disseram que mais importante que o modelo de reforma que se pretendia era a postura do presidente, que teria de se convencer e abraçar a reforma antes de qualquer coisa.
Por ora, podemos dar um desconto e falar que a postura do presidente está dúbia. Afinal, o texto enviado foi mais duro que o acenado previamente, ele foi pessoalmente ao Congresso levar a proposta e gravou um pronunciamento à nação.
Por outro lado, tivemos essa “canelada” sobre as “gorduras” da proposta e um total silêncio sobre o tema por parte dele desde então, mesmo com as conversas de que ele usaria sua força nas redes sociais para mobilizar os apoiadores em torno do tema.
Por ora, o presidente conseguiu mobilizar as redes em torno da sua pauta de costumes, com um tuíte de gosto para lá de duvidoso envolvendo cena do Carnaval de rua.
Creio que ainda dá para mudar o foco e passar a gastar tempo e mobilização com os assuntos que realmente importam.
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