Mercosul e União Europeia: acordo para ‘liberar geral’ o comércio pesa na bolsa?
A receita vai crescer, mas as cotas continuam nos produtos considerados “sensíveis”, que envolvem um prazo maior para implantação das normas, de até 15 anos. Na lista está justamente o agronegócio.

A primeira vez que eu visitei a Itália foi em 2008. Minha tia, casada com um italiano, fez questão de me ciceronear por Florença, terra natal do marido. Em uma das lojas do centro da cidade, me apaixonei por uma bela bota de camurça. Na época, custava algo em torno de 80 euros – muito caro para o meu bolso. Tentei barganhar (a indefectível mania dos brasileiros) e o sisudo vendedor não gostou da minha estratégia. Disse que aquele era um legítimo produto italiano e, como tal, tinha o seu preço. Não era como o tênis que eu usava, feito na China – ironicamente, era um Fila, a tradicional marca italiana que, ao contrário do que o “maleducato” vendedor achava, havia sido produzido no Brasil.
Eu acabei levando a bota e fiquei pensando naquele italiano. Em 2008, toda a Europa sentia o peso do gigante asiático. A economia chinesa crescia 9% ao ano, enquanto os países ricos patinavam na recessão. Depois de ingressar em 2001 na Organização Mundial do Comércio (OMC), após 15 anos de negociações, os chineses mostraram ao mundo que era possível fazer tudo rápido, em larga escala e a preços competitivos, ainda que a qualidade fosse questionável.
Após o anúncio do acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul no fim de junho, depois de 20 anos de conversas, fico imaginando o que o vendedor italiano diria. A Europa é naturalmente protecionista e muito zelosa da sua agricultura – setor em que o Brasil se destaca no comércio internacional, assim como a pecuária. Parte dos europeus teme, realmente, que o acordo possa gerar um “efeito China” sobre seus negócios – latinos vendendo produtos competitivos no continente, mas com lastro socioambiental duvidoso. Mas será que o Brasil já tem motivos para comemorar a futura expansão do agronegócio em terras europeias? E a nossa indústria de bens de consumo estaria pronta para atingir o padrão europeu de qualidade?
Depois de ouvir analistas e especialistas em comércio exterior, a resposta é não – pelo menos, por enquanto. É claro que a redução de tarifas nos médio e longo prazos é positiva para a entrada de produtos brasileiros no Velho Mundo. A receita vai crescer, mas as cotas continuam nos produtos considerados “sensíveis”, que envolvem um prazo maior para implantação das normas, de até 15 anos. E boa parte desses produtos são justamente os do agronegócio, como carnes, açúcar e etanol.
“Tudo ainda é muito incipiente”, lembra Antônio Barreto, analista do Itaú BBA. “Como não sabemos os detalhes, nem como se dará a implantação das normas durante os próximos 10 anos [período de transição previsto para a maioria dos produtos], o acordo não é suficiente para mudar a nossa recomendação sobre as ações das empresas exportadoras”, diz. De acordo com o analista, a recente alta envolvendo as ações dos frigoríficos estão relacionadas diretamente às notícias sobre a febre suína na China.
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Cotas continuam
No agronegócio, as regras do acordo com a União Europeia envolvendo o setor de carnes são as mais relevantes para a indústria: haverá uma cota de 99 mil toneladas de carne bovina para todo o bloco do Mercosul; 180 mil toneladas para carne de frango e 25 mil toneladas para carne suína. Hoje, 1% do total exportado pelos produtores de carne do Mercosul vão para a União Europeia; a partir do acordo, esse montante deve subir para 4%, diz Barreto. “É bom, mas não transformacional”, diz. “Ninguém vai ficar rico do dia para noite”, afirma.
Os outros dois produtos mais relevantes para o agronegócio no acordo – açúcar e álcool – também deixam a desejar em volume, diz Ribeiro. A cota para o açúcar continua a mesma de 180 mil toneladas, o que representa 1% da produção brasileira. “A diferença é que se consegue um preço médio melhor”, afirma. Já em relação ao etanol, o Brasil vai poder exportar ao bloco europeu o equivalente a 2% sua produção. “O mercado doméstico é muito mais importante para a indústria de etanol”, diz.
Ainda no caso das carnes, não está claro até o momento como será a divisão da cota entre os países latinos que integram o Mercosul – Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai. “O lado positivo é que a ‘cota Hilton’, imposta pela Europa sobre cortes bovinos de alta qualidade, deixa de existir”, afirma Barreto. Assim, as 99 mil toneladas que chegarão ao continente europeu serão de maior valor agregado.
Para Luciana Carvalho, analista do Banco do Brasil, as medidas anunciadas no acordo devem beneficiar o agronegócio de forma gradativa. “Com tamanhas indefinições no momento, só esse fato não muda nossa recomendação”, diz a analista, em relação às ações das empresas do setor.
As próprias empresas ainda estão reticentes em relação ao acordo com os europeus. O Seu Dinheiro entrou em contato com 12 companhias listadas na bolsa para saber das suas expectativas e preparativos. São empresas que atuam em setores apontados por especialistas com potencial para se beneficiarem das novas regras entre os blocos. Apenas três responderam: Marfrig, BRF e SLC. Também foram contatadas JBS, Cosan/Raízen, São Martinho, Embraer, Suzano, Vale, Natura, Arezzo e Camil. A maioria não quis se pronunciar.
Na visão de Miguel Gularte, presidente da Marfrig na América do Sul, “as expectativas são muito boas”, embora o rateio interno de cada país nas cotas não tenha sido definido. “Com certeza, vamos ter aumento nas exportações, já que a Marfrig possui plantas habilitadas no Brasil, Uruguai e Argentina para exportar para Europa. E ainda somos detentores da maior cota Hilton na América do Sul”, afirmou. “Vamos trabalhar nosso pricing e as estratégias, como sempre fazemos, e nos adiantar às oportunidades”.
Para a BRF, o acordo “é positivo e irá fortalecer o país com impactos benéficos para o setor agropecuário”, respondeu a companhia, em comunicado. “O trabalho realizado pelo Itamaraty, com participação direta da Ministra da Agricultura, Tereza Cristina, é positivo para o cenário econômico deste e dos próximos anos, mesmo não sendo possível avaliar o impacto para a empresa neste momento”.
Já a SLC Agrícola respondeu que não tem “quase nenhum negócio com a Europa”, uma vez que tem como foco a Ásia, e que não traçou “nenhum plano específico” após as recentes mudanças no comércio mundial.
Para o economista Carlos Braga, professor da Fundação Dom Cabral, a distribuição da eficiência é desigual na indústria brasileira. “A Natura, por exemplo, não tem nada a temer”, diz. “Para as companhias que estão mais próximas à fronteira tecnológica, será mais fácil se adaptar ao novo ambiente competitivo ao longo dos próximos 10 a 15 anos”, afirma.
Na opinião do economista Mauro Rochlin, professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV), é importante saber se e como o acordo vai pôr fim às barreiras fitossanitárias impostas ao Brasil. “É algo que afeta a confiabilidade da indústria e nos últimos anos serviu como barreira burocrática, dificultando a entrada dos produtos brasileiros na Europa”, diz.
Por outro lado, o economista diz temer os efeitos do acordo sobre a indústria nacional, em especial o setor automobilístico – o Mercosul vai eliminar a tarifa de importação de automóveis ao longo de 15 anos. “A indústria brasileira, de maneira geral, tem baixa competitividade e estará exposta a uma concorrência muito maior”, diz. “Eu não sei se esse prazo é suficiente para compensar as décadas perdidas”.
Em suma, os europeus estão longe de “liberar geral” para os latinos. E há um longo tempo de maturação do acordo pela frente – começando pelo período para aprovação das medidas pelo parlamento de todos os países envolvidos. Mas nada impede que, numa futura visita à Europa, eu encontre um belo par de sapatos brasileiros nas vitrines italianas. Para mim, soaria como “una piccola vendetta”.
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