Longe da Argentina; e mais ainda da Turquia
Solidez das contas externas sugere um preço diferente para o dólar no Brasil
O Banco Central (BC) apresentou os dados de agosto sobre a nossa relação comercial, financeira e de serviços com o resto do mundo. Ficamos “devendo” US$ 717 milhões no mês passado. Mas isso não representa problema. No mês, o investimento externo feito no país ficou em US$ 10,61 bilhões, maior valor mensal desde janeiro de 2017 e mais que o dobro em comparação com o visto um ano antes.
Esse quadro de investimentos financiando o déficit se repete nas principais métricas acompanhadas para dizer se o país pode vir a ter um problema no seu balanço de pagamentos. Quadro que sempre vem acompanhado de alta do dólar e posterior ajuste para cima nas taxas de juros. Algo que vimos acontecer faz poucos dias com Argentina e Turquia.
Por aqui, no entanto, o quadro externo não inspira maiores cuidados. De fato, se fosse apenas esse o fator utilizado para dar preço ao dólar, certamente a cotação não estaria nessa linha dos R$ 4,0, mas abaixo.
Em período eleitoral, no entanto, o que manda são as expectativas com relação ao pleito e as incertezas que envolvem o escolhido pelas urnas. O tal fundamento conta, mas deixa de ser determinante nesses momentos. A boa notícia é que o setor externo é uma preocupação a menos para quem quer que venha ocupar o Palácio do Planalto.
Em 12 meses, o déficit em transações correntes equivale a 0,8% do Produto Interno Bruto (PIB) elevação em comparação com o fim do ano passado, quando era de 0,48%, mas algo já esperado em decorrência de uma breve reação da atividade.
Já o Investimento Direto no País (IDP) soma US$ 69,632 bilhões, também em 12 meses, o que equivale a 3,61% do PIB, melhor leitura do ano e que sugere uma recuperação depois de meses no qual o IDP ficou no menor patamar desde fins de 2013, na linha dos 3% do PIB.
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Regra de bolso para as contas externas é olhar quanto do déficit é financiado pelo IDP. Quanto maior essa relação, melhor para o país, que fica menos dependente de capitais mais ariscos, como aportes em títulos e na Bolsa de Valores, para financiar sua relação com o exterior. Aqui a conta está perto de 4 vezes.
Por isso mesmo que o BC vem falando à exaustão que não existe relação mecânica entre os choques recentes (que impactam o preço do dólar) e a política monetária. Não há sombra de crise nas contas externas que justificaria uma elevação de juro por esse motivo, como chegou a ser aventado por parte do mercado em meados do ano. Exato oposto do ocorrido com Argentina e Turquia. O juro aqui sobe se a inflação e as expectativas ficarem fora das metas.
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