Menu
Angela Bittencourt
Blog da Angela
Angela Bittencourt
é jornalista e editora da Empiricus
2019-03-28T11:47:28+00:00
Blog da Angela

Guedes poderia ter feito diferente?

E se Guedes tivesse falado na terça? Pode ser que o clima entre o Congresso e o governo estivesse em paz e amor e assim o Brasil estaria mais perto da reforma (e os preços dos ativos financeiros não estariam tão estressados). Nunca vamos saber…

28 de março de 2019
11:44 - atualizado às 11:47
Paulo Guedes
Paulo Guedes - Imagem: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

Tem dias em que o estômago dói. Às vezes, porque cometemos excessos, outros porque decidimos levar a sério a dieta na quarta-feira porque a segunda já foi e feijoada é um prato (saborosíssimo) mas pesado. Você comete esses pecados? Não? Nem teve aborrecimento ou raiva maldigerida? Claro que já, tenha a profissão que tiver. Lembra que eu sou jornalista? Nesta minha profissão não se almoça todos os dias. Dois meses atrás, não deu outra. Corre para cá, corre para lá, e muito antes da hora já havia disputa por cadeira em frente à TV. E almoço? Nada!

Transmissão direta internacional... até quem votou contra embalou a contagem regressiva, tentando esconder uma ponta de orgulho. Plaquinhas de um azul profundo enfileiradas no fundo branco inspiravam a torcida (disfarçada ou não) pelo sucesso. Bolsonaro, Moro, Guedes, Araújo não davam margem à dúvida. O Brasil mudou.

Os ponteiros engoliram a precisão suíça e a hora marcada: 13, de Brasília.

E cadê o Brasil? O Brasil faltou!

A entrevista da comitiva liderada pelo presidente Jair Bolsonaro, que representava o Brasil no Fórum Econômico Mundial, em Davos, Suíça, foi cancelada. Sem aviso prévio. Inicialmente, o ministro da Economia, Paulo Guedes, falaria sozinho com a imprensa, e os jornalistas estrangeiros estavam muito interessados. Mas, em poucas horas, a entrevista de Guedes ganhou ares de convescote e miou. Era quarta-feira. Dois dias depois, na sexta, o feriado pelo aniversário de São Paulo paralisou a B3 e calou o mercado.

A lacuna aberta pelo Brasil na agenda do Fórum Mundial faria um estrago, pensei, mal começou o plantão. Comércio fechado, apelei à farmácia. A barra de cereal enganou o estômago. Voltei para a Redação. Lá, colegas atônitos apontavam a TV. Pensei que era reprise. Mas, não! O rompimento da barragem da Vale, em Brumadinho (MG), seria fatal para centenas de pessoas. Na conversa com um gestor percebi que, na cabeça do investidor estrangeiro, a lama daquela tragédia poderia enterrar a frágil credibilidade de leis e acordos vigentes no Brasil.

Eu, como o Felipe Miranda, acredito que uma imagem vale por mil palavras. Na última terça, a ausência do ministro Paulo Guedes na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), da Câmara, onde falaria sobre a reforma da Previdência, trouxe à lembrança a frustrada entrevista de Davos, a tragédia de Brumadinho e os compromissos assumidos por corporações e autoridades (públicas e privadas) para que um país siga em marcha.

E  se?

E se Guedes tivesse falado na terça? Pode ser que o clima entre o Congresso e o governo estivesse em paz e amor e assim o Brasil estaria mais perto da reforma (e os preços dos ativos financeiros não estariam tão estressados). Nunca vamos saber...

Mas ficou evidente, 24 horas depois do bolo de Guedes na CCJ, que não haverá “DR” que alivie a tensão existente entre Congresso e governo, ao menos neste momento.

Explicada a ausência da terça, o ministro da Economia estará na CCJ da Câmara na próxima quarta-feira (3/4). Não pense você que o ministro deixará no seu gabinete a lembrança das ásperas declarações trocadas com os senadores, ontem, durante a audiência da Comissão de Assuntos Econômicos (CAE).

Essa audiência, assim como a da CCJ, estava marcada desde a semana passada. E nela foi remoída uma crise, que se mostrou embrionária no fim de semana com alfinetadas disparadas entre o presidente Bolsonaro e o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), sobre a “velha” e a “nova” política e práticas que o presidente condena e pontua, como troca de cargos por apoio parlamentar em questões caras ao país.

O tombo do Ibovespa de 4 por cento, a esticada do dólar acima de 3,96 reais e colando em 4 reais em compras e vendas que serão liquidadas daqui a um mês, além da arrancada das taxas de juros, atordoaram o início da noite de muita gente. Eu inclusive! E olha que eu nem tenho dívida em dólar e nem vou viajar para lugar nenhum...

Essa virada dos ativos financeiros, que pode ser agravada hoje, foi produzida por ruídos políticos elevados em muitos decibéis e desânimo com a perspectiva da reforma da Previdência, sem mudança de fundamentos.

Na volta para casa, lembrei da sabedoria da minha avó Ophelia que, em seus quase 100 anos, dizia que não havia certeza maior do que o tempo para apaziguar corações ou apagar rusgas. Ela dizia: “Nada como um dia depois do outro, com uma noite no meio”.

A reação violenta dos mercados financeiros ontem foi precedida de uma terça-feira de acontecimentos incomuns que ajudaram (em muito) a tornar a quarta-feira um inferno. Na terça, o presidente da República abriu sua agenda mais tarde, às 11h30, depois de acompanhar (cedinho) a primeira-dama na pré-estreia de um filme religioso num shopping em Brasília. Na terça à noite, numa votação relâmpago, em primeiro e segundo turno, a Câmara engessou 97 por cento do Orçamento.

Para atrapalhar o sono do presidente e de todo o governo, essa decisão, que ainda deve ser aprovada pelo Senado — e contraria tudo o que defende o ministro Paulo Guedes — obriga o governo a realizar todos os investimentos previstos no Orçamento e ainda dobra o montante de recursos destinados ao cumprimento de emendas obrigatórias pelos deputados. 

Guedes fala

Nesse clima de poucos amigos (ou nenhum), Paulo Guedes falou aos senadores ontem. Ouviu o que não quis e disse o que devia e o que não poderia.

Na audiência com senadores teve bate-boca, acusações, frases de efeito. Paulo Guedes avisou que o principal opositor do governo no Congresso é ele mesmo. A tentativa de conter exageros verbais do ministro minou o ambiente de vez na comissão do Senado.

Com paciência zero para (novamente) ter que convencer parlamentares da importância da reforma das aposentadorias, o ministro lembrou que pode ir embora se os seus serviços não interessarem a ninguém.

O trabalho de Paulo Guedes interessa, sim, aos brasileiros e ao presidente da República. Ainda que não exatamente nessa ordem, o ministro da Economia é o grande fiador do governo. E o ponto nevrálgico de tanta discussão entre governo e Congresso está em vaidades feridas e não no diagnóstico do que o Brasil precisa para sair do pântano em que sua economia foi parar.

Prefiro pensar que minha avó ensinou a coisa certa: que depois da quarta-feira vem a quinta, mas antes do Sol reinar tem uma noite inteira para “apaziguar corações ou apagar rusgas”.

Espero que todos tenham dormido em paz. O presidente, o ministro, deputados e senadores.

BC

Nesta manhã, o Relatório Trimestral de Inflação, a primeira edição do governo Bolsonaro e o segundo documento do Banco Central assinado pelo presidente da instituição, Roberto Campos Neto, é avaliado por operadores e analistas. Dele não sairá, porém, poção mágica que venha a atenuar a crise instalada em Brasília. O dia promete e no foco estará, antes de mais nada, o Ibovespa, que chegou ao céu outro dia, ultrapassando os 100 mil pontos, e agora desce ao inferno. Hoje, 90 mil pontos é a linha d’água.

Quer nossas melhores dicas de investimentos de graça em seu e-mail? Cadastre-se agora em nossa newsletter
Quer nossas melhores dicas de investimentos de graça em seu e-mail? Cadastre-se agora em nossa newsletter
Comentários
Leia também
CUIDADO COM OS ATRAVESSADORES

Onde está o seu iate?

Está na hora de tirar os intermediários do processo de investimento para deixar o dinheiro com os investidores

Exile on Wall Street

CRISTO 2.0 — Desta vez é diferente

Ainda que tivéssemos sofrido as mazelas da crise de 2008, a verdade é que a recuperação no Brasil veio em formato de V, muito em função do fato de termos as condições para adotar medidas contracíclicas

Leve correção

Ibovespa abre em leve queda, aguardando novidades no front político

Após quatro altas consecutivas, o Ibovespa cede a um ligeiro movimento de realização de lucros e opera em queda; o dólar à vista sobe e aprece na casa de R$ 3,83

Tudo que vai mexer com seu dinheiro hoje

Chá inglês para a rainha e o primeiro-ministro

Veja os destaques do Seu Dinheiro nesta manhã

no patamar baixo

Confiança do consumidor sobe 1,9 ponto em junho em comparação a maio

Apesar da alta, o índice se mantém em patamar baixo em termos históricos, ponderou a FGV, que diz que a melhora foi determinada pela calibragem das expectativas

fala senador

‘Se for verdade, ultrapassou o limite ético’, diz Alcolumbre sobre Moro

O senador observou, contudo, que não é possível dizer que o conteúdo das mensagens reveladas pelo site seja verdadeiro

IPCA-15

Prévia da inflação tem alta de 0,06% em junho e atinge índice mais baixo para o mês desde 2006

Em 2019, o índice já acumula uma alta de 2,33%. Nos últimos 12 meses, encerrado em junho, a taxa chega a 3,84%. Passagens aéreas foram os itens individuais com maior impacto no índice do mês

O pior já passou

BC reitera importância das reformas e não da Selic para retomada da economia

Ata do Copom diz que juro atual estimula atividade e que redução de incerteza vai impulsionar investimento privado. Selic deve ficar em 6,5% por mais tempo

Guerra comercial

China diz esperar que reunião entre Trump e Xi solucione ‘questões pendentes’

Como parte dos preparativos para o encontro que deve ocorrer durante a reunião do G20, o Representante Comercial dos EUA, Robert Lightizer, falou ontem com o principal negociador de Pequim, o vice-primeiro-ministro Liu He

olho nas eleições

Bolsonaro provoca Doria e fala em 2022

Ao comentar as negociações para a transferência das provas da Fórmula 1 para o Rio de Janeiro, Bolsonaro afirmou que o governador de São Paulo, João Doria, deveria “pensar no País”

no tribunal

CVM retoma nesta terça-feira, 25, julgamento de processos contra Eike Batista

O empresário já recebeu veredito de dois processos; no primeiro, foi condenado a pagar uma multa de R$ 536 milhões por insider trading; no segundo, foi absolvido

Carregar mais notícias
Carregar mais notícias
Fechar
Menu
Advertisements