Oktoberfest no ano do Mounjaro: como as festas estão se adaptando a um público que come e bebe menos?
Com a popularização das “canetas emagrecedoras”, festas de Blumenau, São Paulo e Munique observam o consumo de perto; médicos explicam por que o remédio mexe também com a vontade de beber

O Mounjaro chegou às farmácias brasileiras em maio de 2025 e, em seu primeiro ano no país, somou R$ 13,54 bilhões em vendas. É o que mostram os dados da fabricante Eli Lilly, que também estima que o medicamento já tenha chegado a quase 3 milhões de brasileiros. Ozempic e Wegovy completam o time das chamadas canetas emagrecedoras, que vêm mudando a forma como se come e, segundo médicos, também como se bebe.
Essa mudança chega em plena temporada de Oktoberfests. Em Munique, por exemplo, a festa vai até 4 de outubro, enquanto a edição de São Paulo começou em 19 de setembro. Já Blumenau abre a 41ª edição no dia 7, com 19 dias de programação no Parque Vila Germânica.
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Todas têm o chope e a comida típica no centro da experiência, o que torna a pergunta inevitável para quem organiza esses eventos: como receber um público em que parte das pessoas come menos, bebe menos ou simplesmente não consegue mais comer e beber como antes?
Até aqui, cada festa responde de um jeito. Blumenau, aliás, ampliou as opções sem álcool, mas manteve o tamanho das porções. São Paulo, por sua vez, diz não ter percebido mudança significativa no consumo. Do outro lado, quem está em tratamento chega aos pavilhões com um corpo que responde de outra maneira à cerveja e à comida pesada.

“O segundo ou terceiro copo simplesmente perde a graça”
Por trás da perda de apetite estão os hormônios que o intestino produz depois das refeições e que avisam ao cérebro que já comemos o suficiente, explica o endocrinologista Ramon Marcelino, do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP.
A semaglutida, princípio ativo do Ozempic e do Wegovy, imita um deles, o GLP-1. Já a tirzepatida, do Mounjaro, imita dois: o GLP-1 e o GIP. Isso ajuda a explicar a maior perda de peso associada ao medicamento.
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“O hormônio natural dura poucos minutos no corpo. O medicamento é uma versão modificada que permanece ativa por dias, então o recado de ‘estou satisfeito’ fica ligado por muito mais tempo.”
Com esse recado ligado, o cérebro “abaixa o volume” dos sinais de fome e “aumenta o volume” dos de saciedade, nas palavras do médico. Assim, a comida muito palatável perde parte do encanto.
No estômago, o esvaziamento fica mais lento, o que prolonga a sensação de saciedade e ajuda a explicar a náusea e o empachamento comuns no início do tratamento. O efeito sobre o álcool foi notado primeiro nos consultórios, com pacientes que chegavam dizendo: “Doutor, perdi a vontade de beber”. Mas, hoje, isso já não é apenas uma impressão, segundo Marcelino.
O que dizem os estudos
Estudos em animais, levantamentos populacionais e, mais recentemente, ensaios clínicos com a semaglutida registraram queda na vontade de beber e na quantidade consumida, inclusive entre pessoas com consumo problemático de álcool. Os medicamentos, porém, não são aprovados para tratar o alcoolismo, e a pesquisa sobre esse possível efeito ainda está em andamento.
A explicação estaria no mesmo circuito que faz alguém desejar um doce sem estar com fome. “A vontade de comer um doce e a vontade de tomar uma cerveja passam pelo mesmo centro de recompensa do cérebro”, diz o endocrinologista.
Os receptores em que as canetas agem ficam nessa região, movida pela dopamina, e o prazer que a bebida proporciona pode diminuir. “O álcool continua tendo o mesmo gosto, mas o cérebro passa a dar menos valor a ele. A cerveja deixa de ser tão irresistível, e o segundo ou terceiro copo simplesmente perde a graça.”

Uma falsa sensação de sobriedade
Menos vontade de beber não significa que a bebida esteja proibida. Marcelino lembra que não existe contraindicação formal a um consumo moderado, mas a combinação traz riscos que costumam passar despercebidos.
Com o estômago esvaziando mais devagar, o álcool pode ser absorvido de forma diferente, e a percepção dos seus efeitos pode demorar a aparecer. “Isso cria uma falsa sensação de sobriedade. O risco é beber mais para ‘sentir alguma coisa’ ou achar que está bem para dirigir quando não está.”
Além disso, o álcool irrita o estômago e pode piorar náusea, vômito e refluxo, principalmente nas primeiras semanas e quando a dose do medicamento está sendo aumentada.
A nutróloga Giovanna Spagnuolo Brunello, pós-graduada em Nutrologia pelo Hospital Israelita Albert Einstein, prefere que os pacientes evitem a bebida durante o tratamento. “Como essas medicações reduzem o apetite, muitas vezes a pessoa acaba ingerindo menos alimentos ao longo do dia ou no próprio evento.”
Como curtir a festa sem passar mal
Para quem decide beber eventualmente, a orientação é comer antes, intercalar as bebidas com bastante água — já que o álcool também desidrata — e observar a própria tolerância, “que pode ser diferente daquela que a pessoa tinha antes de iniciar o tratamento”.
A comida das festas traz outro desafio. Com a saciedade chegando mais rápido, a pessoa não consegue comer os mesmos volumes de antes, além de poder tolerar menos os pratos gordurosos.
Tentar manter os hábitos antigos, com chope e comida pesada, aumenta as chances de empachamento, refluxo, náusea, vômito e diarreia, segundo Giovanna. “O importante é entender que o organismo está respondendo de uma forma diferente, e é fundamental respeitar esses sinais.”
A endocrinologista Cristina Khawalli, do Delboni e Lavoisier, acrescenta que a cerveja tem calorias e que uma ingestão calórica relevante vinda da bebida pode comprometer parte do resultado do tratamento, mesmo com o apetite sob controle.
Em pacientes com diabetes que usam outros medicamentos para controlar a glicose, beber sem comer aumenta o risco de hipoglicemia.
Para quem vai às festas, Marcelino sugere comer antes de beber, ir devagar, intercalar as bebidas com água e não confiar na sensação de “estou bem” na hora de dirigir. Ele também lembra que o uso das canetas deve sempre ter acompanhamento médico.
“O desafio é ampliar as possibilidades sem perder a identidade da festa”
Em Blumenau, as bebidas foram a primeira parte da festa a acompanhar a mudança. Segundo a organização, cerveja sem álcool e sem glúten estão garantidas, enquanto pontos de água filtrada gratuita ficam espalhados pelo parque para que os visitantes possam intercalar o consumo com o chope.
“Já existe uma procura maior por alternativas sem álcool, produtos sem glúten e opções que dialoguem com pessoas que buscam um consumo mais equilibrado, inclusive com produtos com menos calorias.”
No cardápio, que conta com mais de 150 pratos, de acordo com a organização, a mudança ainda não chegou. Giovanna acredita que a popularização das canetas deve levar mais gente a procurar outro formato de refeição em festas e restaurantes.
“Alguém que antes pediria uma porção grande para comer sozinho pode passar a preferir uma porção menor, menos gordurosa e até dividir um prato”, diz a nutróloga, que também prevê maior procura por bebidas sem açúcar.
O consumo de álcool realmente diminuiu?
Em Blumenau, porém, o formato fica como está nesta edição. “Para a 41ª edição, não foi estabelecida uma redução geral no tamanho das porções”, informa a organização. A ideia é observar o perfil do público e a procura pelos produtos durante a festa para decidir possíveis mudanças no ano que vem.
Na São Paulo Oktoberfest, a organização afirma que não percebeu, até o momento, diminuição significativa no consumo de comida e bebida. “Mesmo com a discussão sobre o uso das chamadas canetas para emagrecimento, como o Mounjaro, os visitantes continuam aproveitando a gastronomia e as bebidas do evento.”
A própria organização ressalta que se trata de uma percepção, sem associar o consumo de cada pessoa ao uso de medicamentos. A festa também oferece cerveja sem álcool.
Já em Munique, a organização confirmou, até agora, uma queda ligeira no consumo de cerveja em relação ao ano passado, enquanto as vendas de comida permanecem em patamar parecido com o de 2025.
A organização de Blumenau reconhece que as festas precisam observar essas mudanças, sem abrir mão do que as define. “Ao mesmo tempo, a gastronomia, a cerveja e as tradições continuam sendo elementos importantes da experiência da Oktoberfest.”
Para Giovanna, tradição e novas opções podem conviver. “A experiência não precisa estar necessariamente associada ao excesso. Oferecer porções menores, alternativas mais leves e boas opções de bebidas não alcoólicas permite que essas pessoas continuem participando plenamente do evento, apenas consumindo de uma maneira diferente.”
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