O que vencedores do Nobel já fizeram com o prêmio: de medalhas dissolvidas a leilões milionários
Além do prêmio de R$ 6 milhões em dinheiro, medalhas do Nobel já foram vendidas por milhões de dólares, dissolvidas para escapar de nazistas e até entregues a Donald Trump

A temporada do Nobel 2026 começou nesta semana e termina na segunda-feira (12). Enquanto cientistas, escritores, economistas e defensores da paz aguardam o reconhecimento internacional, uma pergunta também chama a atenção: o que ganham e o que fazem com o prêmio?
Neste ano, a Fundação Nobel elevou o valor do prêmio para 12 milhões de coroas suecas por categoria, ante 11 milhões em 2025. O aumento de 1 milhão de coroas ocorre no ano em que a premiação completa 125 anos. O valor equivale a cerca de R$ 6 milhões, na cotação atual.
O prêmio pode mudar a vida financeira de quem o recebe, mas nem sempre fica nas mãos de uma única pessoa. Quando há mais de um autor do estudo, a quantia pode ser dividida entre até três laureados. Além do dinheiro, cada ganhador recebe uma medalha de ouro e um diploma.
Ao longo dos anos, porém, muitos ganhadores deram destinos inusitados às medalhas: algumas foram a leilão por milhões de dólares, outras acabaram dissolvidas para escapar dos nazistas, enquanto uma chegou a ser doada ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

Quanto o Nobel pagava no passado?
O valor do prêmio mudou bastante desde a primeira cerimônia, em 1901. Naquele ano, cada categoria recebeu uma doação de 150.782 coroas suecas. Comparar essa quantia diretamente com os 12 milhões de 2026, porém, exige cautela já que a inflação e as mudanças no poder de compra alteram o significado de cada valor ao longo do tempo.
A própria Fundação Nobel acompanha a evolução da premiação e seu valor monetário ajustado. O montante passou por diferentes aumentos e reduções, conforme a situação financeira da instituição.
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Em 2012, por exemplo, a fundação reduziu o prêmio de 10 milhões para 8 milhões de coroas suecas, como parte de um esforço para fortalecer suas finanças. Em 2017, aliás, o valor subiu para 9 milhões; em 2020, chegou a 10 milhões; e, em 2023, passou a 11 milhões de coroas.
Linha do tempo: quanto valia o prêmio Nobel ao longo dos anos
- 1901: 150.782,23 coroas suecas (SEK), no primeiro ano da premiação.
- 1980: 880 mil coroas suecas.
- 2000: 9 milhões de coroas suecas.
- 2001 a 2011: 10 milhões de coroas suecas.
- 2012 a 2016: 8 milhões de coroas suecas, após um corte de 20% para fortalecer as finanças da Fundação Nobel.
- 2017 a 2019: 9 milhões de coroas suecas.
- 2020 a 2022: 10 milhões de coroas suecas.
- 2023 a 2025: 11 milhões de coroas suecas.
- 2026: 12 milhões de coroas suecas, o maior valor nominal da história da premiação até então.
Vencedores do Nobel que derreteram, leiloaram ou doaram suas medalhas
1. Max von Laue - Nobel de Física de 1914
O físico alemão Max von Laue deixou sua medalha no Instituto Niels Bohr, em Copenhague, para protegê-la do regime nazista. Em 1940, quando a Alemanha ocupou a Dinamarca, o químico George de Hevesy dissolveu a peça em água-régia, uma mistura de ácidos capaz de dissolver ouro. A estratégia impediu que os nazistas reconhecessem e confiscassem a medalha. Depois da guerra, o ouro foi recuperado e a Fundação Nobel providenciou uma nova peça para o cientista.

2. Knut Hamsun - Nobel de Literatura de 1920
O escritor norueguês Knut Hamsun enviou sua medalha a Joseph Goebbels, ministro da Propaganda de Adolf Hitler, em 1943. Admirador do regime nazista, Hamsun presenteou Goebbels após um encontro na Alemanha. O gesto tornou-se um dos episódios mais controversos envolvendo uma medalha do Nobel, sobretudo pela associação entre um laureado literário e uma das principais figuras da propaganda nazista. O paradeiro atual da peça não é conhecido com certeza.
3. Niels Bohr - Nobel de Física de 1922
Em 1940, o físico dinamarquês Niels Bohr vendeu sua própria medalha e a de August Krogh, laureado com o Nobel de Medicina de 1920, em um leilão beneficente para arrecadar recursos destinados à Finlândia durante a Guerra de Inverno contra a União Soviética. As peças acabaram no Museu de História Dinamarquesa de Frederiksborg. É um caso particularmente interessante porque envolve a venda de medalhas para financiar uma causa durante um conflito, ao contrário das peças dissolvidas para evitar o confisco nazista.
4. James Franck - Nobel de Física de 1925
Assim como Von Laue, o físico alemão James Franck enviou sua medalha ao Instituto Niels Bohr para mantê-la longe das autoridades nazistas. De Hevesy dissolveu as duas peças durante a ocupação da Dinamarca. O ouro permaneceu guardado no laboratório até o fim da guerra, quando os pesquisadores conseguiram recuperá-lo. Em 1952, porém, Franck recebeu uma nova medalha. O episódio não envolveu a venda do ouro para financiar uma fuga, mas uma tentativa de impedir o confisco das peças.
5. Francis Crick - Nobel de Medicina de 1962
Francis Crick, um dos cientistas reconhecidos pela descoberta da estrutura do DNA, teve sua medalha leiloada em 2013, após sua morte. A peça foi vendida por aproximadamente US$ 2,27 milhões, em um lote que também incluía o diploma do Nobel e outros documentos pessoais. Parte da receita foi destinada ao Francis Crick Institute, centro de pesquisa biomédica em Londres que homenageia o cientista.
6. James Watson - Nobel de Medicina de 1962
O biólogo americano James Watson, um dos cientistas que identificaram a estrutura de dupla hélice do DNA, vendeu sua medalha em um leilão em 2014 por US$ 4,76 milhões. A venda chamou a atenção porque Watson ainda estava vivo, ao contrário de muitos laureados cujas medalhas chegam ao mercado após a morte. O comprador foi o bilionário russo Alisher Usmanov, que posteriormente devolveu a peça ao cientista. Watson havia anunciado que usaria parte do dinheiro para financiar pesquisas científicas.
7. Aage Bohr - Nobel de Física de 1975
Aage Bohr, físico dinamarquês e filho do também laureado Niels Bohr, teve sua medalha vendida em um leilão em 2019, pela Heritage Auctions, por cerca de US$ 90 mil. A peça, inclusive, já havia sido oferecida em um leilão anterior, em 2011. Diferentemente das vendas que alcançaram milhões de dólares.
8. Leon Lederman - Nobel de Física de 1988
O físico americano Leon Lederman vendeu sua medalha em 2015 por US$ 765.002. Diagnosticado com demência, ele enfrentava despesas relacionadas aos cuidados médicos e à doença. A venda ajudou a custear esses gastos altíssimos com o tratamento.

9. Dmitry Muratov - Nobel da Paz de 2021
O jornalista russo Dmitry Muratov leiloou sua medalha em junho de 2022 por US$ 103,5 milhões. Ele destinou toda a arrecadação ao UNICEF para apoiar crianças refugiadas afetadas pela guerra na Ucrânia. O valor surpreendeu o mercado e estabeleceu um recorde para a venda de uma medalha do Nobel.

10. Maria Corina Machado - Nobel da Paz de 2025
Em janeiro de 2026, a líder opositora venezuelana Maria Corina Machado entregou sua medalha ao presidente americano Donald Trump, em um gesto político que provocou controvérsia. O Comitê Norueguês do Nobel, porém, esclareceu que a medalha física pode mudar de mãos, mas o título de laureado não pode ser transferido.
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