Quadro atribuído a Renoir encontrado em mansão de Vorcaro pode valer milhões; entenda o que define o preço de uma obra
Suposta pintura do artista francês datada de 1879 foi apreendida pela Polícia Federal; antes de chegar a uma cifra, porém, é preciso comprovar a autoria e investigar a história da obra

Uma pintura atribuída a Pierre-Auguste Renoir, um dos nomes mais importantes do impressionismo, pode estar entre os itens mais valiosos encontrados pela Polícia Federal na casa de Daniel Vorcaro, no Jardim América, em São Paulo.
A obra de 1879 aparece em registros da operação que vasculhou imóveis ligados ao ex-banqueiro e apreendeu, entre outros itens, dinheiro em espécie, joias e relógios de luxo. Segundo informações registradas no inquérito, os agentes precisaram aguardar horas pela chegada de uma equipe especializada para fazer a embalagem e a retirada da obra.
Se a autoria for confirmada, o quadro pode entrar em um mercado no qual pinturas de Renoir já alcançaram dezenas de milhões de euros em leilões. Mas existe um longo caminho entre uma tela “à maneira de Renoir” e um Renoir de fato.
“No caso de um artista como Renoir, é imprescindível primeiro verificar, por meio de uma perícia de autenticidade, a correspondência da obra com a produção comprovada do artista. É a partir da categoria definida pela pesquisa, se é um Renoir, um "atribuído a" ou uma obra de "escola", que se desenvolve a análise comercial", explica Gustavo Perino, perito de arte e fundador da GIVOA Art Consulting, em entrevista ao Seu Dinheiro.
Ele explica que, antes de perguntar quanto vale o suposto Renoir encontrado na mansão de Vorcaro, é preciso responder se o quadro é realmente de Renoir. Uma pintura parecida com a produção do artista pode valer alguns milhares de euros, já uma obra comprovadamente feita por Renoir, dependendo de sua importância, conservação, procedência e características, pode alcançar milhões.
Abaixo, o especialista explica os principais fatores que definem o preço de uma obra.
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O primeiro fator: quem fez a obra?

De acordo com Perino, no mercado de arte, a autenticidade vem antes de qualquer outro critério. Afinal, não basta uma pintura parecer com a produção de um artista famoso, é necessário evidências de que ela realmente saiu de suas mãos ou de seu ateliê, de acordo com a categoria atribuída à obra.
“A assinatura não é suficiente, e é um dos elementos mais falsificados”, afirma o especialista. Uma assinatura verdadeira pode ter sido colocada posteriormente em uma obra falsa. Da mesma forma, uma pintura autêntica pode ter recebido uma assinatura depois de sua produção.
A perícia combina diferentes tipos de evidência, como a história da obra, sua procedência, os materiais utilizados, a técnica, o estilo e a maneira como a pintura foi executada. Também podem comparar a peça com outras obras cuja autoria já foi comprovada e analisar cientificamente pigmentos, suportes e outros materiais.
“A autenticidade se constrói pela convergência de evidências independentes, e é essa convergência que transforma uma opinião em prova”, diz o especialista.
A autoria pode multiplicar o preço
As casas de leilão utilizam diferentes expressões para indicar o grau de certeza sobre a autoria. Quando uma obra aparece simplesmente como Pierre-Auguste Renoir, sua autoria é considerada segura. Já a expressão “atribuído a Renoir” indica que existem elementos que apontam para o artista, mas a autoria ainda não foi confirmada.
Há ainda categorias como “oficina de Renoir” ou “ateliê de Renoir”, quando a obra está relacionada ao espaço de trabalho do artista, mas não necessariamente foi executada por ele. Em uma escala ainda mais distante aparecem expressões como “círculo de”, “seguidor de”, “à maneira de” e “escola de”.
Segundo dados da Artprice, Renoir acumula mais de 13 mil resultados de leilões registrados. Uma pintura autêntica e de qualidade do artista alcançou 20,6 milhões de euros em 2026, enquanto o recorde citado pelo especialista chega a 69,5 milhões de euros, em uma venda realizada em 1990.
Na outra ponta, uma obra classificada como “escola de” não supera os 2 mil euros nos dados apresentados pelo especialista. “Estamos falando de uma diferença de dez mil vezes entre peças que, à primeira vista, podem parecer muito próximas”, afirma.

O segundo fator: de onde veio a obra?
Depois da autoria, entra em cena a procedência, o histórico de propriedade e circulação da obra. Saber quem comprou uma pintura, onde ela esteve, em quais coleções passou, se foi exibida em museus ou exposições e se aparece em catálogos especializados ajuda a reconstruir sua trajetória.
Esse histórico também pode aumentar a confiança do mercado. Um estudo das universidades de Tilburg e Erasmus, publicado em 2024 na revista Management Science, apontou que uma procedência documentada em catálogos de leilão pode aumentar o preço de martelo em até 54%, segundo os dados apresentados por Perino.
Para uma obra atribuída a um artista como Renoir, a procedência também pode ajudar a sustentar ou enfraquecer a hipótese de autenticidade. Afinal, uma pintura que aparece documentada em uma coleção importante décadas atrás tem uma história muito diferente daquela que surge no mercado sem qualquer registro anterior.
O terceiro fator: o que existe na tela?
Mesmo depois de comprovada a autoria, duas obras do mesmo artista podem ter preços muito diferentes. Isso acontece porque o mercado também considera técnica, dimensões, tema, período de produção, raridade e importância da obra dentro da trajetória do artista.
Segundo o especialista, uma pintura a óleo sobre tela, por exemplo, pode ter uma valorização diferente de um trabalho sobre papel. O tamanho também pode influenciar, mas não existe uma regra simples segundo a qual uma obra maior sempre vale mais.
O tema representado e sua importância dentro da produção do artista também entram na análise. No caso do suposto Renoir encontrado na casa de Vorcaro, o ano atribuído à obra chama atenção: 1879. Segundo Perino, o período corresponde ao auge da fase impressionista de Renoir, considerada a mais valorizada de sua produção.
Isso, porém, não significa que qualquer pintura atribuída ao artista e datada de 1879 automaticamente valha milhões. O que importa é a combinação entre o período, a qualidade da obra, o tema, a técnica, a procedência e os demais atributos.
Além disso, a raridade também pode pesar. Uma obra que represente uma fase pouco documentada ou que seja particularmente relevante dentro da produção de determinado artista pode despertar maior interesse entre colecionadores.
O quarto fator: quanto da obra original permanece?
O estado de conservação é outro componente importante. Uma pintura com mais de cem anos não precisa parecer nova. Craquelês, alterações nos vernizes, pátina e o envelhecimento natural dos materiais fazem parte da história de uma obra antiga.

“O que o estado de conservação define é o grau de originalidade que a obra preserva, e a originalidade é parte da autenticidade”, explica Perino. Isso não significa que uma obra restaurada perca necessariamente valor. Restaurações feitas de maneira cuidadosa podem preservar a pintura sem comprometer sua integridade.
Perino explica que o problema, muitas vezes, está nas intervenções excessivas, como repinturas extensas, limpezas agressivas ou procedimentos que removam camadas originais podem prejudicar o valor.
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O quinto fator: o mercado quer aquela obra?
O valor de uma obra não depende apenas de suas características físicas ou de sua importância histórica. O interesse dos colecionadores também muda ao longo do tempo. “Não posso ignorar as modas e tendências”, afirma Perino.
Ele cita o exemplo da colecionadora Ella Fontanals-Cisneros, entrevistada pela jornalista Claribel Terré Morell. Segundo ela, às vezes uma obra é adquirida não necessariamente por agradar esteticamente, mas porque é uma peça importante para completar a narrativa de uma coleção.
Isso ajuda a explicar por que o mercado de arte não funciona como uma tabela de preços fixa. O interesse por determinado artista, período, tema ou técnica pode aumentar ou diminuir.
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