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Nova tradução de Macbeth, de William Shakespeare, chega pela Companhia das Letras e reacende o debate sobre ambição e poder. Em entrevista ao Seu Dinheiro, o tradutor Lawrence Flores Pereira explica os desafios de trazer a tragédia para o português de hoje
A história é simples: um certo general, animado por três bruxas e pela esposa (mais ambiciosa que prudente), que o convence a encurtar o caminho até o topo. Tomado pela paranoia de perder o que conquistou à força, liquida amigos e inocentes, enquanto a esposa sucumbe à culpa. Confiando na previsão de que nenhum “nascido de mulher” o vencerá e que só cairá quando o bosque marchar, ignora o óbvio. Em seu caminho, o herdeiro legítimo avança oculto por ramos. O vingador, porém, nasceu por cesariana, e assim o tirano é trucidado como lhe foi prometido.
Esta é a Tragédia de Macbeth, uma das peças mais terríveis de William Shakespeare. No meio do teatro, falar seu nome em voz alta é considerado mau agouro, os atores preferem chamá-la de “a peça escocesa” para evitar uma suposta maldição que a acompanha. Mas, para além da mística, Macbeth se mantém viva há quase 400 anos graças a uma visão profundamente realista e perspicaz da ambição humana.
A tragédia cresceu demais para os palcos e foi para o cinema, sendo transposta ao Japão feudal por Akira Kurosawa em Throne of Blood (1957), e, mais de quatro décadas depois, reinventada por Joel Coen em The Tragedy of Macbeth (2021), com Denzel Washington no papel-título. Cada adaptação reafirma o poder da história ao explorar a ambição, o delírio e a culpa.
Reafirmando o poder do texto, Lawrence Flores Pereira, professor da Universidade Federal de Santa Maria, acaba de assinar uma nova tradução de Macbeth (Companhia das Letras, R$ 54,90) ao lado de Sofia Nestrovski. Para entender o fascínio em torno da peça escocesa e sua insistência em permanecer relevante, o Seu Dinheiro conversou com Flores.

Lawrence Flores Pereira: Essas grandes tragédias crescem com a história, com as inúmeras recepções, e vão se tornando um modelo, mas o meu maior interesse é que a peça tenha uma organicidade na nossa língua, o que significa domesticar encontrar o que está latente no ouvido do nosso público, e que caiba na boca do autor. Eu faço toda tradução em voz alta, gritando às vezes [risos].
A peça foi lida por um grupo de atores, numa versão anterior, e depois ainda mexi muito. Ainda tinha partes muito duras. É um trabalho carregado de alegrias e frustrações porque inicialmente se quer uma fidelidade muito grande ao sentido específico. “Fair is foul, and foul is fair”, por exemplo, mas não tem como. Então traduzi como “O reto é torto e o torto é reto”. Éum pouco como o pianista que ocasionalmente altera uma nota, mas está dentro do espírito do original.
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Lawrence Flores Pereira: A crônica histórica era importantíssima pois eles estavam basicamente revivendo a história através de um meio diferente, era algo inovador, como ver os romanos no cinema naqueles grandes épicos dos anos 1950. Quase ninguém tinha acesso à história e as peças eram um meio riquíssimo para criar um elo comunitário em torno da história da Inglaterra, era um elemento construtor da identidade nacional.
Mas a peça é classificada como uma tragédia e nós podemos complexificar isso: em que sentido é uma tragédia? Uma tragédia aristotélica? Certamente não. Tragédia para Shakespeare é simplesmente algo que acaba mal. Essa é a noção central, ainda que Shakespeare ocasionalmente honre o modelo grego, mas entender a fineza do pensamento aristotélico ainda era muito difícil para uma civilização que operava com a polarização maniqueísta de bem e mal.
Lawrence Flores Pereira: Uma das coisas que acho mais interessante em Macbeth é que não há nada de novo no fato de que ele seja um regicida ou ainda usurpador, isso acontece em vários textos de Shakespeare, como Claudius em Hamlet e Ricardo III, que é o mal em estado puro. O Ricardo III não é atravessado por nenhum tipo de dúvida.
Então, quando Shakespeare coloca o Macbeth, nós temos uma figura que sente dúvida. Olhando o percurso dele vemos o escalonamento da paranoia, “eu preciso manter esse status quo”.
Todo criminoso sente isso, pois uma vez que você comete um assassinato, terá de fazer outro, seja para apagar o rastro ou eliminar quem não está satisfeito, essa é a tirania, sem a unção divina a legitimidade é conquistada pela violência e pela crueldade.
Lawrence Flores Pereira: Ele mexe com sentimentos muito profundos em nós, e Shakespeare usa esse personagem para amplificar esses sentimentos. Ele é muito mais parecido conosco. Do Ricardo III nós rimos e compartilhamos das suas maldades. Aqui não, nós nos tornamos coprotagonistas da sorte de Macbeth, quase cúmplices, e chegamos até a admirá-lo.
Macbeth mexe com nosso senso de vacuidade, essa sensação de vazio na vida. Essa é uma das grandes atrações de Macbeth. Todo ser humano flerta tanto com a frustração quanto com a possibilidade de dar um salto no futuro, como ele diz.

Lawrence Flores Pereira: Exatamente, é a ambição desvairada. E nesse sentido eu acho uma peça menos complexa que outras. Shakespeare não é um teórico político, ele é um realista político, como Maquiavel. Mas Shakespeare vai além disso, ele consegue inserir esse realismo em termos estruturais da peça.
Todos nós conhecemos a ambição, alguns menos, outros mais. Shakespeare revela o resultado extremo de como essa ambição pode se desenvolver, fazendo isso ele traz – como em nenhuma outra peça – um criminoso que vem de frente e se confessa. Podemos acessar e encontrar alguma compaixão por Macbeth.
Lawrence Flores Pereira: É esse delírio que se desenvolve com inúmeras consequências e que ao mesmo tempo traça um plano paralelo no mundo sobrenatural, com esses jogos de palavras – e nesse sentido ela é a peça mais poética de Shakespeare. Isso cria confusão e ele quer sempre resolver essa confusão, porque Macbeth replica uma característica humana que é a vontade de apagar a possibilidade de que qualquer coisa errada dê certo [risos], entende? É essa obsessão de limpar o terreno.
Então eu acredito que algo nesse percurso trabalha com o que existe no nosso inconsciente, porque trabalha com os registros mais secretos das pessoas. E o final é a pacificação, que é um elemento das chamadas tragédias de vingança. É preciso oferecer justiça – pois Shakespeare também estava educando seu público –, e isso tem apelo até hoje, basta a gente pensar no Rambo dos anos 1980.
Lawrence Flores Pereira: Ele é um livro central na discussão de todos esses assuntos que conversamos aqui: tirania, governo, aspiração. E é um livro curto, muito sintético. E ainda está muito vivo. Hoje as coisas não são mais tão marcadas por indivíduos, elas acontecem numa rede global mais complexa, mas Macbeth é um exemplo fundamental, e ao ler passamos a fazer parte de uma discussão de séculos.
Acho que ler Shakespeare é como tocar piano, você precisa de muito treinamento, mas curiosamente essa peça funciona muito bem, até com os garotos do colegial. Montamos uma peça numa escola aqui em Santa Maria e foi impressionante.
Macbeth ainda é importante porque dá elasticidade de pensamento, acredito que essa é a função da literatura, enriquecer nossa capacidade de interpretação dos fatos.
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