Art.PE encerra em dúvidas o calendário de feiras brasileiras em 2026
Edição promissora de Feira de Arte Contemporânea de Pernambuco chegou cercada de expectativas, mas terminou com alguns questionamentos. O que aconteceu?

Muitas vezes, a arte parece desconectada do agora e seu calendário segue independente do estado do mundo. No começo do ano, a Art Basel Qatar manteve as datas de sua edição inaugural, mesmo com órgãos internacionais alertando para perigo regional iminente. Agora, a edição mais recente da Art.PE, uma das principais feiras do Brasil, acabou acontecendo em outro momento, longe das condições de um Qatar, mas certamente com impacto sobre o evento.
Foi, talvez, uma combinação. De um lado houve o peso de um período eleitoral sensível. De outro, uma combinação de feriados que deixou tudo com cara de férias. O resultado foi um esvaziamento de público local que, em outras edições, marcou presença não só fisicamente, como também financeiramente.
E era uma edição promissora. Realizada entre 14 e 18 de outubro, ela teve o dobro de tamanho da anterior. São Paulo, Rio de Janeiro, Argentina... todos foram impactados pelo sucesso de 2025. Relatos davam conta de uma programação VIP consistente, uma experiência de montagem e uma venda organizada, além de um clima que só Recife proporciona. Quem foi, passou a palavra. Não tinha como não ser bom.
O que ninguém antecipou foi o impacto de um momento que não existia ano passado: uma incerteza que não excita, mas desestimula. Quem contava com a emoção pra vender bem, não encontrou.
O mercado e o timing
O mercado depende muito de emoção, principalmente em um lugar onde o colecionismo ainda está sendo criado. E isso se torna ainda mais fundamental quando galerias de fora de Pernambuco trazem arte, artistas e propostas que não são validadas ali.
Não que a feira não tenha sido animada. Houve gente, houve movimento. Mas dentro das conversas e pesquisas, uma sensação recorrente era de que, enquanto a edição funcionou como pretexto para reativar contatos e vender catálogo, o mesmo não ocorreu para alcançar novos clientes.
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Esse resultado faz pensar em timing e quanto ele afeta o mercado. Pernambuco é um lugar conhecido por valorizar a cultura local. Um mercado que tende a buscar os próprios artistas. Por isso mesmo, muitas galerias de outras localidades se demonstraram reticentes em participar da feira, justamente por não terem artistas pernambucanos representados.
Só que o mercado nem sempre entende timing.

E aí, algo que apareceu durante a Fargo, Feira de Arte de Goiânia, se repetiu em Recife: certa aposta, por parte de alguns representantes, em um estereótipo que idealiza o tipo de arte que o colecionador local gosta. Ao mirar numa pretensa proposta de venda, o que se viu foi uma opção pela obviedade.
Outra solução foram as parcerias com galerias locais ou diálogos com artistas independentes. Pertinente, claro, mas insuficiente, justamente pelo momento e formato.
Quem levou em consideração o momento, junto com a localidade, teve mais sucesso. Obras mais acessíveis de preço, que traziam uma forte identidade brasileira e gritavam política tiveram aderência. Caso, por exemplo, da obra “6x1”, de Paulo Du’Sanctus, uma série de pequenos formatos de pintura sobre papel moeda, vendida nos primeiros dias da feira. Outros projetos, artistas e obras com temas também essencialmente políticos, se tornaram, ultimamente, a cara do que estava apresentado ali.
O erro de cálculo
Uma feira que visa criar um mercado tem o privilégio de poder educar o consumo na mesma medida que o fomenta: oferecer informação de arte enquanto vende arte. Os custos são mais baixos, o que, em teoria, tornaria mais fácil o surgimento de propostas mais ousadas, diálogos mais arriscados e testar novas representações sem tanto risco de acabar no vermelho.
Mas a feira não só dobrou de tamanho: ela dobrou de valor e dobrou de participações. Ao mesmo tempo, seu alcance parece ter caído pela metade. E ainda que galerias como Arrecife, Pórtico, Clarabóia, Cana e Propágulo tenham apresentado uma curadoria impecável, outras grandes promessas trouxeram obras apenas e as colocaram na parede.
Acontece que a maioria dos artistas é novidade para muitos colecionadores. Soma-se a isso todos os problemas que uma grande feira tem: atrasos de montagem, revisão de datas de desmontagem... nenhum problema ou novidade, não fosse a expectativa de uma feira menor, mais fácil.
O que nem sempre fica claro para o visitante é o tempo, dinheiro e energia colocados na montagem de um estande. Muitas galerias se organizam semanas antes do evento, mandam obras dias antes da feira, chegam dias antes e trabalham muitas horas antes da abertura. Isso, se tudo ocorrer sem contratempos, o que nunca acontece.
Ou seja, quem te recebe já está cansado e vivendo aqui há muito tempo. Principalmente em outubro, quando esse processo já aconteceu no mínimo umas três vezes. O que faz os imprevistos de montagem e percalços causarem um desgaste ainda maior.
A Art.PE é a última do calendário anual de feiras brasileiras. E, em um momento de cansaço e timidez, o mercado precisa responder com sedução. Apesar do cansaço, não é o momento de cortar custos e animação, mas de dobrar. Esse cálculo faltou em muitos espaços, das cores nas paredes ao diálogo das obras.
Questões não respondidas
Algo que tem ficado claro a cada ano é que, embora o mercado seja um só, cada ponta tem uma forma de fazer negócio. Em São Paulo, age-se com um pretenso "profissionalismo" quase processual, bem no estilo “time is money”. No Rio, a formalidade está junto com a festa, o chinelo na praia e a cerveja.
Em Recife, ser fora do eixo é parte desvantagem, parte diferencial. De um lado há certa informalidade que não deixa de ser profissional; um papo, um convite hospitaleiro que é um preâmbulo para um negócio. Quem entendeu isso, trouxe uma proposta e um sorriso no atendimento que fez o que precisava ser feito: vender arte.

O visitante com certeza se divertiu. Muitos artistas viram ali sua estreia e apresentação ao e circuito contemporâneo. Muitos olheiros, muitos jornalistas e criadores de conteúdo registraram o movimento com bastante animação. Leituras de portfólio, palestras e jantares e festas também deram sabor especial aos cinco dias de evento.
O que ainda vai ser calculado é quanto desse investimento se pagou e quanto de lucro ele lucrou. Parte do que mantém a estrutura de um evento como esse, afinal, é a quantidade de negócios que ele gera. E isso não ficou claro até sábado. De forma sintomática, o ponto final do circuito das feiras brasileiras – e um timing para lá de errado para deixar reports de investimento sem resposta.
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