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Dos empréstimos para emergências aos financiamentos e operações com garantia, especialistas explicam quando cada modalidade é indicada e os erros que podem transformar o crédito em uma bola de neve

Na hora de contratar crédito, pegar o dinheiro mais rápido nem sempre significa fazer a melhor escolha. Dependendo da modalidade, uma dívida de curto prazo pode custar muito mais do que o necessário e comprometer o orçamento por bastante tempo.
A diferença entre crédito pessoal, consignado, financiamento e operações com garantia vai muito além do nome: muda a taxa de juros, o prazo, o risco e o uso mais adequado de cada linha.
Em alguns casos, o crédito pode ajudar a reorganizar as finanças ou viabilizar uma compra planejada. Em outros, pode agravar um desequilíbrio e empurrar o consumidor para uma dívida mais cara.
Para ajudar você a navegar no mar de ofertas e produtos, o Seu Dinheiro conta a seguir como funciona cada modalidade de crédito, quando ela pode fazer sentido e quais erros evitar antes de assinar um contrato.
Contribuíram para esta reportagem Clay Gonçalves e Stefano Tremea planejadores financeiros certificados (CFP) pela Associação Brasileira de Planejamento Financeiro (Planejar).
A principal diferença entre as modalidades de crédito está no risco assumido pelas instituições financeiras. Quanto maior a garantia oferecida pelo cliente, menor tende a ser o custo da operação, o que também afeta os juros cobrados.
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Embora sejam frequentemente colocados no mesmo grupo, empréstimos, financiamentos e linhas de crédito possuem características bastante diferentes.
O crédito pessoal é uma modalidade sem destinação específica. O consumidor recebe o dinheiro e pode utilizá-lo livremente, pagando as parcelas diretamente à instituição financeira.
Já o crédito consignado tem uma característica que reduz significativamente o risco para o banco: as parcelas são descontadas diretamente da folha de pagamento ou do benefício previdenciário do INSS.
"Isso reduz bastante o risco para quem empresta o dinheiro e, por consequência, a instituição financeira cobra menos juros", diz Stefano Tremea, planejador financeiro CFP pela Planejar.
Nos financiamentos, por sua vez, o crédito é concedido para a compra de um bem específico, como um imóvel ou veículo. Nesses casos, o próprio bem funciona como garantia da operação em caso de não pagamento.
Também existem modalidades com garantia de imóvel, veículo ou investimentos. Como há um patrimônio vinculado ao contrato, os juros costumam ser menores do que nas linhas tradicionais.
O rotativo do cartão de crédito e o cheque especial lideram a lista das modalidades mais caras do mercado.
Isso acontece porque são linhas de contratação simples, geralmente pré-aprovadas e sem qualquer garantia associada.
Depois aparecem os empréstimos pessoais sem garantia. Na outra ponta estão os financiamentos, os empréstimos com garantia e o crédito consignado, que tendem a oferecer juros menores.
| Modalidade | Juros médios (% a.m.) | Juros médios (% a.a.) |
|---|---|---|
| Cartão de crédito rotativo | 15,03% | 498,53% |
| Cartão de crédito parcelado | 8,59% | 190,31% |
| Crédito pessoal não consignado | 7,07% | 169,71% |
| Cheque especial | 7,07% | 135,83% |
| Aquisição de outros bens | 3,65% | 59,07% |
| Crédito consignado privado | 3,46% | 51,26% |
| Crédito consignado público | 2,22% | 31,33% |
| Financiamento de veículos | 1,94% | 26,21% |
| Crédito consignado INSS | 1,81% | 24,08% |
Além da modalidade escolhida, as condições oferecidas pelas instituições financeiras dependem das características de cada consumidor.
Histórico de pagamentos, score de crédito, estabilidade da renda e relacionamento com o mercado financeiro costumam fazer parte da análise.
"O perfil do cliente influencia diretamente a taxa de juros porque, no fim das contas, é risco. Quem tem renda mais estável, bom histórico de pagamento e menor nível de endividamento tende a conseguir condições melhores", afirma Gonçalves.
Por isso, antes mesmo de buscar crédito, vale verificar o score de crédito — disponível gratuitamente em plataformas como Serasa, SPC Brasil e Boa Vista —, conferir se existe alguma restrição registrada no CPF e manter os dados cadastrais atualizados junto às instituições financeiras com as quais você mantém relacionamento.
Não existe uma modalidade ideal que funcione em todos os casos.
A escolha depende da finalidade do recurso, do perfil financeiro e da urgência da necessidade.
Para quitar dívidas caras
Quem está preso ao rotativo do cartão de crédito ou ao cheque especial pode encontrar no crédito consignado uma alternativa para reduzir o custo da dívida.
"Às vezes faz sentido tomar uma dívida para pagar outra. Se eu tenho uma dívida no cartão de crédito, posso contratar uma linha mais barata para quitá-la. Troco uma dívida caríssima por uma dívida menos onerosa", exemplifica Stefano Tremea.
Para aposentados e pensionistas, o consignado do INSS costuma oferecer algumas das menores taxas do mercado.
Já trabalhadores com saldo disponível no FGTS podem avaliar a antecipação do saque-aniversário como alternativa.
Para emergências
Quando o consumidor precisa de dinheiro com rapidez e não tem patrimônio disponível para oferecer como garantia, o crédito pessoal costuma ser a opção mais acessível.
A contratação tende a ser menos burocrática e a liberação dos recursos costuma ocorrer em prazo mais curto do que em financiamentos ou operações com garantia.
Para compras planejadas de alto valor
Os financiamentos são as modalidades mais indicadas para a aquisição de bens específicos, como imóveis e veículos.
Como o próprio bem funciona como garantia da operação, os juros tendem a ser menores do que em outras linhas de crédito.
Para quem não tem urgência e prefere evitar o pagamento de juros, o consórcio pode ser uma alternativa, embora a contemplação para a compra do bem dependa de sorteio ou lance. Mesmo sem juros, o valor do consórcio pode variar com atualização do bem e outras taxas.
Para quem tem imóvel quitado ou boa parte dele já paga
O crédito com garantia de imóvel, também conhecido como home equity, costuma oferecer algumas das taxas mais competitivas do mercado para quem precisa de valores mais elevados.
Em contrapartida, o imóvel fica vinculado à operação. Em caso de inadimplência, existe o risco de perda do bem, o que exige planejamento cuidadoso antes da contratação.
Antes de assinar qualquer contrato, vale responder a três perguntas fundamentais.
1. Qual é o objetivo do crédito?
Ter clareza sobre a finalidade do recurso ajuda a identificar a modalidade mais adequada e evita decisões impulsivas.
Quitar uma dívida, comprar um imóvel ou cobrir uma emergência exigem soluções diferentes.
2. Qual é o Custo Efetivo Total (CET)?
O CET representa o custo real da operação, incluindo juros, tarifas, seguros e demais encargos.
"É muito importante analisar todos os custos de juros e, principalmente, o custo efetivo total, porque é ali que está a taxa composta de tudo o que será pago ao longo do financiamento ou do crédito contratado", diz Gonçalves.
Por isso, comparar apenas a taxa de juros anunciada nem sempre é suficiente.
3. A parcela cabe no orçamento?
Especialistas recomendam que o comprometimento com dívidas não ultrapasse 30% da renda mensal.
"Em geral, adota-se um limite de até 30% da renda líquida comprometida com dívidas. Acima disso, qualquer contratempo pode dificultar o pagamento das parcelas", afirma a planejadora financeira.
Embora os procedimentos variem conforme a modalidade e a instituição financeira, o processo costuma seguir algumas etapas básicas.
Passo 1: Organize sua situação financeira
Antes mesmo de procurar um banco, vale conferir:
Passo 2: Defina quanto precisa e para quê
Especialistas recomendam ter clareza sobre:
Essas informações ajudam a identificar qual modalidade faz mais sentido para cada situação.
Passo 3: Compare ofertas
Antes de fechar negócio, pesquise propostas em diferentes instituições financeiras.
Vale consultar bancos, cooperativas, financeiras e fintechs para comparar taxas, custos e condições.
Passo 4: Separe a documentação
Em geral, as instituições solicitam:
Nos financiamentos imobiliários, a análise costuma ser mais detalhada e envolve documentação adicional do comprador, do vendedor e do imóvel.
Passo 5: Passe pela análise de crédito
Nesta etapa, a instituição avalia fatores como:
Com o Cadastro Positivo e o Open Finance, parte dessas informações já pode ser acessada de forma automática pelas instituições financeiras.
Passo 6: Analise o contrato com atenção
Antes de assinar, verifique:
Também vale atenção para cláusulas relacionadas à execução das garantias em caso de inadimplência.
Passo 7: Assine o contrato e receba os recursos
Após a aprovação da análise, o contrato é formalizado e os recursos são disponibilizados ao consumidor
O score é uma pontuação utilizada para medir a probabilidade de um consumidor honrar seus compromissos financeiros.
A classificação normalmente segue quatro faixas:
Quanto maior a pontuação, maiores tendem a ser as chances de aprovação e melhores as condições oferecidas pelas instituições financeiras.
Para manter um score elevado, especialistas recomendam pagar contas em dia, renegociar dívidas vencidas, manter os dados cadastrais atualizados, evitar pedidos frequentes de crédito e aderir ao Cadastro Positivo.
A Selic, como é conhecida a taxa básica de juros estabelecida Banco Central, influencia diretamente o custo do crédito na economia.
Quando a Selic sobe, o custo de captação dos bancos aumenta e tende a ser repassado para empréstimos e financiamentos. Quando cai, o movimento ocorre na direção oposta.
"Com a queda da Selic, o custo de captação dos bancos também diminui. A tendência é que isso favoreça as linhas de crédito, embora esse processo não aconteça de forma imediata", afirma Stefano Tremea.
Ainda assim, algumas modalidades costumam sofrer menos em períodos de juros elevados, como o enfrentado pelo país atualmente.
"No cenário de juros altos, o consignado acaba sendo uma das linhas menos prejudicadas porque existe uma garantia adicional para a instituição financeira", ressalta o especialista.
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