Mercado Livre (MELI34) vai vender Ozempic: redes de farmácias tremem na bolsa, mas um detalhe muda tudo
Citi e JPMorgan avaliam que a regulação brasileira ainda impede um modelo como esse e classificam a reação da bolsa como exagerada

Se é verdade que gato escaldado tem medo de água fria, os investidores parecem estar bem espertos com uma notícia sobre mais um avanço do Mercado Livre (MELI34) no mercado de farmácias. Desta vez o movimento sequer aconteceu no Brasil, mas foi o suficiente para as ações de redes de drogarias sentirem o impacto.
Segundo analistas do JP Morgan, as ações da RD Saúde (RADL3) e da Pague Menos (PGMN3) estão sofrendo no pregão desta terça-feira (30) graças a notícia de que a Novo Nordisk, fabricante do Ozempic, inaugurou uma loja oficial dentro do Mercado Livre para vender esse e outros medicamentos da classe dos GLP-1.
A iniciativa, porém, foi lançada no México.
As ações RADL3 caíram 2,04%, em R$ 16,81, já PGMN3 perdeu 2,17%, a R$ 3,61.
A iniciativa transforma o Mercado Livre em um canal oficial de distribuição digital da farmacêutica dinamarquesa no país, utilizando toda a infraestrutura da plataforma — Mercado Pago, Mercado Envios e sua rede logística — para entregar medicamentos prescritos em todo o território mexicano.
Por enquanto, essa estrutura só poderia funcionar lá fora. Para o JP Morgan e o Citi, embora a parceria sinalize uma transformação importante na distribuição de medicamentos e reforce um risco estrutural para o setor farmacêutico, as barreiras regulatórias brasileiras ainda tornam improvável que um movimento semelhante aconteça no curto prazo.
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O que muda com a parceria entre Mercado Livre e Novo Nordisk
Segundo a imprensa mexicana, a loja oficial da Novo Nordisk passa a funcionar dentro do ecossistema do Mercado Livre, oferecendo medicamentos para diabetes e obesidade mediante apresentação de receita médica.
Além da venda, a companhia destaca atributos como autenticidade dos produtos, rastreabilidade, segurança das transações e combate à falsificação, um problema recorrente em medicamentos de alto valor agregado.
Para o Citi, trata-se de um movimento estratégico tanto para a farmacêutica quanto para o Mercado Livre. Do lado da Novo Nordisk, a empresa amplia seus canais de distribuição em um dos mercados mais promissores para medicamentos contra obesidade.
Já no caso do Mercado Livre, a iniciativa reforça a ambição de entrar em um segmento de margens potencialmente mais elevadas e alta recorrência de consumo.
Ainda que o projeto esteja em estágio inicial, o banco vê potencial para aumento do tíquete médio das compras, maior recorrência de vendas, melhor aproveitamento da infraestrutura logística e ganhos de margem conforme a operação amadureça.
No Brasil, o Mercado Livre não consegue fazer isso
Enquanto o México permite a venda de medicamentos por meio de marketplaces no modelo 3P, em que vendedores terceiros utilizam a plataforma para comercializar seus produtos, o Brasil continua operando sob regras muito mais restritivas.
Aqui, só é possível vender medicamentos no modelo 1P. Ou seja, o produto precisa estar vinculada a uma farmácia ou drogaria licenciada, com estoque próprio, autorização sanitária e farmacêutico responsável durante todo o horário de funcionamento.
Isso significa que o Mercado Livre até pode testar a venda de medicamentos no país, mas não abrir sua plataforma para que diferentes farmácias vendam produtos de prescrição como ocorre em outras categorias do marketplace. Para replicar no Brasil um modelo semelhante ao do México, seria necessária uma mudança relevante na regulação.
Segundo o Citi, não houve movimentações relevantes nos últimos meses que permitam replicar esse modelo. As restrições ficam ainda maiores quando se trata dos medicamentos da classe dos GLP-1, que impulsionaram toda essa discussão.
Desde junho de 2025, a Anvisa passou a exigir retenção obrigatória da receita para medicamentos como Ozempic, Wegovy e Mounjaro. Além disso, há exigências de emissão em duas vias e registro obrigatório da movimentação dos produtos em sistemas nacionais de monitoramento.
Mas os bancos entendem o 'pânico'
Nos últimos meses, o Mercado Livre adquiriu uma farmácia física em São Paulo e lançou o Meli Farma, sinalizando interesse em expandir sua atuação no varejo farmacêutico. No entanto, segundo os dois bancos, a operação brasileira ainda está longe daquela anunciada no México.
O Citi destaca que a iniciativa permanece restrita a um projeto-piloto em alguns bairros da capital paulista.
Já o JP Morgan observa que o Meli Farma está concentrado principalmente em medicamentos isentos de prescrição (OTC) e categorias de menor complexidade, sem atuação relevante em medicamentos sujeitos à retenção de receita.
O banco acrescenta que comparações de preços mostram que o Mercado Livre ainda não é particularmente competitivo fora de algumas categorias específicas de produtos de higiene e cuidados pessoais.
Existe risco para as farmácias? Sim, mas no longo prazo
Apesar de minimizarem os impactos imediatos, Citi e JP Morgan reconhecem que a parceria deixa um alerta importante para o setor. Na visão do primeiro, o maior risco não está exatamente no Mercado Livre, mas no comportamento futuro das próprias indústrias farmacêuticas.
Caso fabricantes passem a desenvolver canais próprios de distribuição digital, parte das vendas poderá deixar de passar pelas grandes redes de farmácias. Isso poderia pressionar margens e reduzir a rentabilidade do setor ao longo do tempo.
Essa preocupação ajuda a explicar por que o Citi mantém projeções de lucro para a RD Saúde abaixo do consenso do mercado.
"O acordo reforça um risco estrutural de fabricantes explorarem canais alternativos de distribuição", afirmam os analistas.
JPMorgan vê exagero na reação da bolsa
Embora reconheça esse risco estrutural, o JP Morgan considera que o mercado antecipou um cenário que ainda está distante da realidade brasileira. Para o banco, a queda das ações representa uma reação exagerada ("overreaction") dos investidores, motivada por uma extrapolação do caso mexicano.
A instituição afirma que aproveitaria a fraqueza recente para comprar ações da RD Saúde, que negocia atualmente a cerca de 14 vezes o lucro estimado para 2027. Já a Pague Menos negocia perto de 7 vezes o lucro projetado, um desconto significativo em relação aos pares.
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