Robôs humanoides, data centers gigantes e biotecnologia: as oito teses que definirão a economia e os investimentos em 2026
Relatório da Global X compilou as tendências globais que devem concentrar capital para desenvolvimento nos próximos anos
O desenvolvimento da inteligência artificial é a maior aposta tecnológica dos próximos anos, isso é certo. Entretanto, para que esse avanço seja possível, é necessário que outras tecnologias e infraestruturas satélites também se desenvolvam. É disso que trata o relatório Charting Disruption, da Global X.
A gestora de fundos de índices listados em bolsa (ETFs), que tem US$ 162 bilhões sob gestão, mapeou oito tendências globais que devem canalizar investimentos nos próximos anos. O relatório afirma que a inovação não acontece de forma isolada, mas em camadas que se alimentam mutuamente.
A inteligência artificial, por exemplo, está intrinsecamente relacionada com o avanço da robótica, e ambas dependem de outras tecnologias, como os semicondutores e a nuvem. Esses, por sua vez, exigem energia abundante e infraestrutura (data centers), além de matérias-primas específicas (minerais críticos).
“A IA ancora uma rede de tecnologias, infraestrutura e recursos que amplificam o impacto uns dos outros, criando novos e poderosos motores de crescimento e oportunidade de investimento”, diz o relatório da Global X.
- LEIA TAMBÉM: Na corrida da IA, Kinea diz que só uma big tech é realmente magnífica e não é a Nvidia — ganho no ano beira 50%
Os analistas trabalham com seis principais setores para desenvolver suas teses:
- Inteligência artificial e robótica;
- Infraestrutura urbana e sustentável;
- Eletrificação e energia;
- Minerais críticos;
- Biotecnologia; e
- Cibersegurança e defesa.
De diferentes formas, todos os assuntos estão interligados e dependem uns dos outros para que avancem de forma consistente e integrada. Esta, segundo o relatório, é uma característica importante para entender o futuro dessas tendências globais.
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Um cérebro precisa de um corpo...
O próximo passo da inteligência artificial (IA) é alcançar o raciocínio de nível humano (AGI), deixando para trás a fase de reconhecimento de padrões para aprender e resolver problemas. Todas as grandes empresas de tecnologia estão investindo muito dinheiro para chegar primeiro neste próximo nível.
E se a IA é o cérebro, cabe à robótica desenvolver o corpo — uma fase conectada com a AGI, que diminui a lacuna entre a inteligência artificial e o trabalho físico.
Robôs humanoides estão cada vez mais perto da viabilidade comercial. O relatório da Global X diz que um humanoide padrão custará cerca de US$ 50 mil. Para além da IA, estamos falando de um produto que precisa de sensores de contato, baterias, semicondutores especializados em visão e processamento, hardwares específicos, além da matéria-prima para criar esse corpo.
Na logística, esse processo está um passo à frente: a Amazon já utiliza uma frota de mais de 1 milhão de robôs para separação e entregas de forma autônoma. Na China, os robôs humanoides já atuam em fábricas, hotéis e hospitais — tudo isso sem ter alcançado a AGI.
Também é na China que os robotáxis prosperam. Empresas como Baidu (via Apollo Go), Pony.ai e WeRide operam frotas sem motorista em cidades como Pequim, Wuhan e Shenzhen.
Os investimentos previstos para continuar desenvolvendo o setor são exorbitantes:
- Semicondutores especializados devem movimentar US$ 520 bilhões até 2030.
- Instalações de data centers devem atrair US$ 6,7 trilhões em recursos globais.
Só neste ano, as big techs (Amazon, Microsoft, Google, Meta e Oracle) colocaram US$ 400 bilhões no desenvolvimento de infraestrutura de IA e robôs, que se soma aos US$ 250 bilhões de 2024.
Infraestrutura para a IA — e para a população
Embora todo o esforço seja para desenvolver uma inteligência artificial com raciocínio humano (AGI), essa IA não existe apenas no mundo digital. Ela exige uma base física colossal, digna de filmes de ficção científica com data centers gigantescos que ocupam centenas de milhares de metros quadrados.
Até 2030, data centers devem consumir mais de 3% de toda a energia mundial. E os desafios para a criação dessa infraestrutura não são triviais.
Existe o desafio da água: o resfriamento desses data centers e a demanda industrial de fabricação desses servidores pressionam as reservas hídricas. Segundo a Global X, nos EUA, quase 66% dos data centers em desenvolvimento estão em áreas de alto estresse hídrico.
O mundo precisa investir US$ 6,7 trilhões em infraestrutura de água até 2030 para não travar o desenvolvimento do setor. E esse valor sobe para US$ 22,6 trilhões até 2050.
Há também o desafio da energia: países desenvolvidos possuem as redes de transmissão de energia mais antigas do mundo. Nos EUA, grande parte da infraestrutura tem mais de 20 anos. Redes elétricas e represas do país são um risco para a população e para a adoção de novas tecnologias.
O debate sobre água, energia e eletrificação para o desenvolvimento de novas tecnologias também passa pela infraestrutura urbana e sustentável, alinhada à mitigação dos desastres climáticos e crescimento da população.
O relatório traz uma estimativa de que 70% da população mundial viverá em áreas urbanas até 2050. Isso significa novos sistemas de transporte, habitação e energia, para além do debate sobre IA ou robótica.
A necessidade global de infraestrutura nova e atualizada exigirá investimentos na ordem de US$ 106 trilhões até 2040 para comportar todas essas mudanças em andamento.
Biotecnologia para curar (quase) tudo
A população global está ficando mais velha no mundo todo. Em paralelo, existe uma lacuna global de 11 milhões de profissionais de saúde para atender esse público que tende a aumentar cada vez mais.
Para muitos, a solução está na tecnologia: desenvolvimento de medicamentos mais rápido, robôs para operações de precisão e avanço da medicina genômica para tratamentos antes de o problema se materializar.
Todas essas possibilidades estão em andamento, e a expectativa é de mais avanço conforme a IA e os robôs também evoluam. O gasto global com Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) farmacêutico deve atingir US$ 360 bilhões até 2030.
Mas quando se fala do mercado de tecnologia em saúde, os investimentos são da ordem de US$ 1,2 trilhão até 2032.
Revolução dos GLP-1: muito mais que o "efeito Ozempic"
Uma área específica da biotecnologia ganhou destaque para além do que se espera da IA e dos robôs. Os medicamentos da classe GLP-1, famosos pelo tratamento de obesidade por meio da perda de peso, estão apresentando cada vez mais resultado.
O relatório da Global X afirma que pesquisas clínicas indicam que eles podem tratar outras doenças crônicas, incluindo insuficiência cardíaca, doença renal crônica, doença hepática e até Alzheimer.
Até 2032, espera-se que 31 novos medicamentos dessa categoria ganhem aprovação de órgãos reguladores, somando-se aos 12 já existentes.
Recentemente, o órgão regulador dos EUA aprovou a pílula Wegovy, da Novo Nordisk — trata-se da primeira pílula para perda de peso oficialmente aprovada por reguladores sanitários.
Segurança física e digital
Tensões geopolíticas levaram o mundo a registrar 61 conflitos ativos em 2024, o maior volume desde a Segunda Guerra Mundial. Como resposta, os gastos militares globais atingiram US$ 2,7 trilhões em 2024. Até 2030, os gastos devem superar mais US$ 3,6 trilhões.
Nada de tanques blindados, a estratégia agora foca em drones. De acordo com o relatório, um drone de visão em primeira pessoa custa cerca de US$ 400 e leva poucos dias para ser construído, enquanto um tanque custa US$ 10 milhões e requer até 24 meses de fabricação.
Na prática, os drones são 25 mil vezes mais baratos e possuem uma capacidade de produção 50 mil vezes superior.
A inteligência artificial agora gerencia desde a logística até a tomada de decisão em conflitos, em tempo real. O exército dos EUA, por exemplo, fechou um contrato de US$ 10 bilhões com a Palantir para o design de sistemas de IA prontos para combate.
Defesa online
O protagonismo digital também exige segurança. A cibersegurança é agora um pilar que sustenta redes globais que vai desde informações de segurança nacional de países até os dados de empresas e pessoas físicas.
O orçamento federal dos EUA, em 2024, destinou US$ 13 bilhões especificamente para a cibersegurança civil, por exemplo.
A projeção é que o mercado global de cibersegurança salte de US$ 215 bilhões em 2025 para US$ 432 bilhões até 2030, refletindo um esforço massivo para proteger tanto ativos militares quanto a infraestrutura que sustenta a vida cotidiana.
O maior gargalo: minerais críticos
Toda essa modernização depende de recursos finitos, que estão cada vez mais escassos.
Tecnologias limpas e eletrificadas, por exemplo, exigem uma intensidade de energia solar e eólica de seis a 13 vezes maior do que a da energia gerada por gás natural. Um veículo elétrico usa seis vezes mais minerais que um carro a combustão.
A conta não fecha, e o relatório alerta para uma crise de abastecimento nos próximos dez anos. Não porque o mundo não tenha esses minerais disponíveis, mas porque as mineradoras não têm projetos novos para esses minerais.
As lacunas entre a oferta esperada e a demanda necessária até 2035 são de:
- Lítio: déficit de 38%
- Cobre: déficit de 30%
- Níquel: déficit de 15%
- Cobalto: déficit de 14%
Para evitar a escassez total e garantir a transição tecnológica, a Global X traz uma estimativa de US$ 900 bilhões em investimentos até 2030. Apenas para o cobre, serão necessários US$ 490 bilhões até 2040.
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