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Camille Lima

Camille Lima

Repórter de bancos e empresas no Seu Dinheiro. Jornalista formada pela Universidade Municipal de São Caetano do Sul (USCS), em 2025 foi eleita como uma das 50 jornalistas mais admiradas da imprensa de Economia, Negócios e Finanças do Brasil. Já passou pela redação do TradeMap.

MERCADO DE CAPITAIS

CVM sob um novo-velho comando: quem é Otto Lobo, indicado do governo Lula para a presidência da xerife do mercado de capitais

Atual presidente interino associado a decisão polêmica sobre a Ambipar é indicado para liderar a autarquia em meio ao aniversário de 50 anos da instituição

Camille Lima
Camille Lima
7 de janeiro de 2026
19:13 - atualizado às 19:14
Imagem criada por inteligência artificial para ilustrar a CVM.
Imagem criada por inteligência artificial para ilustrar a CVM. - Imagem: Dall-E/ChatGPT

No aniversário em que completa 50 anos, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) ganha um novo (mas nem tão novo) comando. O governo de Luiz Inácio Lula da Silva indicou Otto Lobo, que atuou como presidente interino da autarquia até o fim de 2025, para assumir oficialmente a presidência da entidade que funciona como xerife do mercado de capitais brasileiro

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A indicação de Lobo, responsável pela decisão polêmica sobre a Ambipar (AMBP3) em 2025, foi publicada em edição extraordinária do Diário Oficial nesta quarta-feira (7).  

A indicação ao cargo definitivo veio apenas sete dias após o encerramento formal de seu mandato como diretor, em 31 de dezembro. Desde o início do ano, o diretor João Accioly havia passado a ocupar a cadeira de presidente de forma interina. 

Antes disso, Lobo já vinha exercendo a presidência de forma interina desde a renúncia de João Pedro Barroso do Nascimento, em julho do ano passado, dois anos antes do fim de seu mandato. 

Por ser o diretor mais antigo em exercício, Lobo assumiu a cadeira de presidente por inércia institucional. Agora, o governo opta por transformar o interino em titular — decisão que precisará passar pelo crivo do Senado. 

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O novo presidente da CVM ainda será sabatinado pela Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) antes de ter a posse confirmada. 

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“Encaminhamento ao Senado Federal, para apreciação, do nome do senhor Otto Eduardo Fonseca de Albuquerque Lobo, para exercer o cargo de presidente da Comissão de Valores Mobiliários – CVM, na vaga decorrente da renúncia de João Pedro Barroso do Nascimento”, afirma despacho da Presidência da República no diário. 

Diretoria ainda incompleta na CVM 

Otto Lobo não foi o único nome enviado pelo governo ao Senado. A União também indicou o advogado Igor Muniz, atual presidente da Comissão de Direito Societário da OAB/RJ, para uma das diretorias da CVM. 

Ainda assim, a CVM continuará operando com uma diretoria incompleta. Dos cinco assentos previstos no colegiado, apenas dois contam hoje com mandatos vigentes: João Carlos Accioly e Marina Copola. 

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Na visão de especialistas em mercados de capitais, embora incompleta, a recomposição parcial evita um risco mais grave na CVM: o de falta de quórum para deliberações.  

Ao mesmo tempo, mantém a autarquia em um arranjo institucional considerado frágil por agentes do mercado. 

É preciso destacar que outros nomes também circulavam como candidatos favoritos para as diretorias, mas foram barrados antes das indicações oficiais. Entre eles, André Pitta, sócio do Trindade Advogados, e Ferdinando Lunardi, do E. Munhoz Advogados. 

Otto Lobo: quem é o novo presidente da CVM 

Otto Lobo é bacharel em Direito pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ), mestre em Direito pela Universidade de Miami e doutor em Direito Empresarial pela Universidade de São Paulo (USP). 

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É sócio-fundador do escritório Lobo & Martin Advogados e construiu carreira como advogado, consultor, árbitro e parecerista em temas ligados a direito societário, mercado de capitais, governança corporativa e insolvência. 

Entre 2015 e 2018, atuou como conselheiro titular do Conselho de Recursos do Sistema Financeiro Nacional.  

Na área acadêmica, foi professor de Direito Societário e Mercado de Capitais na FGV Direito Rio e na Escola da Magistratura do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (EMERJ). Desde 2020, é professor de Direito Societário da PUC-Rio. 

É fato que o currículo técnico de Lobo é robusto. O problema, para parte do mercado, não está na formação — mas no histórico recente de decisões. 

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O polêmico voto da CVM na Ambipar (AMBP3) 

Otto Lobo se tornou protagonista em uma das decisões mais controversas da CVM em 2025: o caso envolvendo a Ambipar (AMBP3). 

Depois de uma escalada vertiginosa das ações em 2024, superior a 1.000%, a área técnica da CVM levantou a hipótese de que a cotação poderia ter sido inflada artificialmente . 

A leitura preliminar sugeriu que o controlador da Ambipar deveria ser obrigado a realizar uma oferta pública de aquisição (OPA), em razão das compras feitas em conjunto com fundos ligados ao Banco Master e a Nelson Tanure.  

O entendimento, no entanto, não prevaleceu. Com a saída de João Pedro Nascimento da presidência, Lobo assumiu o comando interino da CVM e levou o caso à deliberação do colegiado.  

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Em julho, Lobo apresentou voto contrário à obrigatoriedade da OPA. Como presidente interino, ele acabou exercendo o chamado “voto de qualidade”, o que garantiu o polêmico desfecho favorável ao controlador da Ambipar. 

A decisão gerou forte reação no mercado e críticas nos bastidores. A área técnica da CVM insistiu por meses na reavaliação do caso, argumentando que o tema exigia análise mais aprofundada diante do impacto potencial sobre acionistas minoritários. 

Mas, no fim de 2025, o assunto foi encerrado de forma definitiva. Por unanimidade, a diretoria da CVM rejeitou o pedido de reconsideração da área técnica que buscava reabrir a discussão.   

Com isso, foi mantida a decisão de que o fundador da Ambipar não precisa realizar a oferta aos minoritários

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Governança em xeque? O que diz o mercado sobre o novo presidente da CVM 

A indicação de Lobo à chefia da CVM gerou desconforto no mercado.  

A pressa em publicar as nomeações em uma edição extraordinária do Diário Oficial, após meses de vacância, também causou apreensão entre especialistas. 

Para um deles, focado em governança e ouvido pela reportagem, a escolha é “deprimente” para um mercado de capitais que ainda tenta amadurecer institucionalmente. 

O Instituto Empresa, entidade que representa interesses de acionistas minoritários, divulgou nota criticando critérios que considera “mais alinhados à lógica política do que à avaliação técnica e de mercado”. 

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“A nomeação de dirigentes por afinidade política, ainda que legal, pode minar a percepção de autonomia regulatória e fragilizar a credibilidade do Brasil diante de investidores domésticos e internacionais”, disse Eduardo Silva, presidente do Instituto Empresa. 

Uma fonte de mercado disse ao Seu Dinheiro que a nomeação para a CVM deixou de ser um rito meramente técnico para se tornar o palco de uma "guerra fria" entre gigantes do governo nos últimos meses.  

De um lado, o Ministério da Fazenda, liderado por Fernando Haddad; de outro, a Casa Civil de Rui Costa. Segundo o executivo, essa tensão resultou em vetos sistemáticos a nomes técnicos sugeridos pela Fazenda. Mas essa paralisia acaba de ser quebrada por uma intervenção política direta. 

Segundo informações do Valor Econômico, as indicações à CVM ocorrem em meio à tentativa do presidente Lula de superar resistências no Senado a outras nomeações sensíveis, como a de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal (STF). 

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Nos bastidores, há ainda o temor de que a CVM se torne uma "porta giratória" para advogados interessados em valorizar seus pareceres futuros na iniciativa privada. 

Para Renato Chaves, especialista em governança, o governo perdeu a oportunidade de diversificar o perfil da liderança da autarquia. “Infelizmente, optou-se por manter a lógica de só ter advogados”, disse ao Seu Dinheiro

“E pior: reconduzindo um diretor, agora presidente, que sistematicamente ignorou os termos de acusação formulados pela área técnica, votando pela absolvição até de réu confesso, como no caso da Gol”, afirmou, citando a decisão da CVM em processo sancionador envolvendo Henrique Constantino, ex-conselheiro da companhia aérea, por “suposto desvio de poder”. 

Há, contudo, quem veja a decisão com menos ceticismo, embora sejam minoria no mercado.  

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Para André Camargo, advogado e professor especializado em direito societário, governança corporativa e mercado de capitais, as indicações reduzem o risco de “acefalia” institucional na CVM. 

“A autarquia possui uma missão de tutela do mercado de capitais. Havia uma grande expectativa sobre a composição da diretoria, já que corríamos o risco de ficar com apenas um ou dois diretores, o que impediria o quórum mínimo para deliberações. Esse cenário agora torna-se menos arriscado”, disse. 

Camargo reconhece que o componente político está presente, mas avalia que o rigor técnico foi mantido. Para ele, são nomes tecnicamente muito bons. O desafio agora é estrutural: a CVM precisa de mais pessoal, mais recursos e mais investimento. 

"Tivemos anos marcados por muitos escândalos de governança, como os casos da Americanas e do Banco Master. Esses episódios deixam claro que crises de governança ocorrem independentemente de o mercado estar em alta ou em baixa. O mercado de capitais brasileiro precisa de boas notícias”, afirmou o advogado. 

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“Para 2026, a notícia é positiva pois, embora o aspecto político esteja presente, o espectro técnico foi mantido nessas nomeações. São profissionais que devolverão credibilidade à diretoria da CVM", acrescentou. 

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