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Impulsionado por uma nova geração de consumidores e pela busca por sustentabilidade e autenticidade, o mercado de vinhos de mínima intervenção se expande; especialistas explicam o que define cada categoria e por que este movimento veio para ficar
A jornada de Eduardo Zenker, agricultor e vinhateiro da Arte da Vinha, começou com uma decepção. Após anos tentando se adequar aos insumos enológicos disponíveis, ele percebeu que o resultado nunca alcançava a qualidade que desejava. “Sentia uma imensa frustração, pois o vinho que eu produzia não me representava”, admite. A virada de chave veio com uma reflexão: era preciso abandonar as intervenções para criar um vinho autêntico, que expressasse a alma de sua terra.
A busca de Zenker por algo mais genuíno espelha um movimento global que vai além das prateleiras de vinhos. Consumidores, cada vez mais atentos à origem de seus alimentos e ao impacto de suas escolhas, começam a questionar não apenas o que está em suas taças, mas como chegou até ali. Essa nova maneira de pensar levou à descoberta de um universo complexo e fascinante: o dos vinhos orgânicos, biodinâmicos e naturais.
Para Tatiana Buniac, criadora do e-commerce Vibrana, dedicado a rótulos nacionais de baixa intervenção, a transição foi pessoal. Após anos viajando e degustando vinhos convencionais, ela começou a sofrer com fortes enxaquecas. “Percebi que o que me fazia mal era a química adicionada, e não o vinho em si”. A descoberta a levou a estudar e se aprofundar nos vinhos naturais, um caminho que uniu a preocupação com a saúde ao encantamento pela produção local.
Apesar do interesse crescente, os termos ainda geram confusão. O que, de fato, diferencia um vinho orgânico de um natural? A biodinâmica é ciência ou filosofia? Para esclarecer essas e outras questões, produtores, sommeliers e curadores explicam os principais pontos sobre essas categorias, desde as práticas no vinhedo até as mudanças no paladar e o perfil do novo consumidor que impulsiona essa transformação.
A distinção fundamental entre vinhos orgânicos, biodinâmicos e naturais está na filosofia de produção, que começa já no manejo do vinhedo. Embora os conceitos se sobreponham, cada um possui particularidades que definem o produto final.
O conceito mais conhecido é o do vinho orgânico. Sua base está na agricultura limpa, focada em uvas cultivadas sem o uso de agrotóxicos ou fertilizantes sintéticos. Gabriela Teixeira, professora da Associação Brasileira de Sommeliers do Rio de Janeiro (ABS-Rio), resume a prática: “Vinhos orgânicos não usam agrotóxicos nos vinhedos e usam uma quantidade menor de sulfito na hora do engarrafamento”.
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Edgar Giordani, proprietário da vinícola biodinâmica Vinum Terra, complementa que eles “provêm de uvas com certificação orgânica”. Embora a legislação permita a adição mínima de sulfitos, um tipo de conservante, ele observa que "alguns produtores optam por não usar".
Um degrau acima em complexidade e filosofia está o vinho biodinâmico. “Os vinhos biodinâmicos vão além do orgânico”, explica Giordani. A biodinâmica trata a propriedade agrícola como um organismo vivo e interligado, buscando, portanto, um ecossistema autossuficiente e equilibrado. “Há um trabalho muito profundo para vivificar e mineralizar o solo, buscando o equilíbrio total da videira. Levamos em conta, por exemplo, a astronomia e as influências cósmicas e lunares sobre as plantas”, detalha.
Se o foco do orgânico e do biodinâmico está primeiramente no vinhedo, o vinho natural é definido principalmente pelo que acontece (ou não acontece) depois. A palavra-chave é mínima intervenção.
“Além de não usarem agrotóxicos nos vinhedos, fermentam com leveduras espontâneas e não fazem uso de nenhum aditivo enológico”, esclarece Teixeira. “Na vinícola, a intervenção é zero ou mínima, especialmente no uso de sulfitos”, complementa Giordani.
Tatiana Buniac reforça essa distinção crucial: “É importante entender a diferença: natural se refere ao processo de vinificação, sem aditivos. Orgânico refere-se à agricultura, ou seja, a uva é cultivada sem agrotóxicos”.
Assim, na prática, isso significa que a fermentação ocorre com “leveduras espontâneas (presentes na própria uva e no ambiente) e não recorrem a nenhum aditivo enológico”, como explica Gabriela Teixeira. A adição de sulfitos é baixa ou inexistente.
Diante dessa indefinição, surge uma quarta categoria mencionada por Gabriela: os vinhos de baixa intervenção, que, sem seguir uma regra específica, “buscam ser o mais limpos possível em sua produção”.

Enquanto a produção global de vinhos atingiu seu nível mais baixo em mais de 60 anos em 2023, com uma queda de 10% devido a eventos climáticos extremos, segundo a Organização Internacional da Vinha e do Vinho (OIV), um segmento específico rema contra a maré. O mercado de vinhos orgânicos, biodinâmicos e naturais está em plena ascensão.
De acordo com o relatório Organic Wine Market Forecast to 2028, o nicho foi avaliado em US$ 12,47 bilhões em 2022 e projeta um salto para US$ 24,55 bilhões até 2028, crescendo a uma taxa de 12% ao ano. O fenômeno reflete uma mudança clara no comportamento do consumidor, que cada vez mais adota a filosofia do "beber menos, mas melhor".
No Brasil, os dados confirmam essa adesão crescente. A importadora Grand Cru, por exemplo, registrou um disparo de 60% nas vendas da vinícola chilena orgânica e biodinâmica Matetic nos primeiros dez meses de 2024. No mesmo período, o volume total de importação de vinhos orgânicos cresceu 11,4%. Esse avanço ocorre em um mercado brasileiro robusto, que movimentou R$ 3,9 bilhões apenas no primeiro trimestre de 2025, segundo a consultoria Ideal.
O que impulsiona essa mudança é o perfil de quem consome. Uma pesquisa da Universidade Federal do Paraná sobre o consumidor de vinhos orgânicos revela um retrato mais jovem, predominantemente feminino (57%), com forte presença nas classes B e C. Este público, aliás, é movido por preocupações com a saúde e o meio ambiente, valorizando produtos livres de pesticidas e a conexão direta com o produtor.
Em um mercado com definições por vezes fluidas, a certificação funciona como uma ferramenta essencial para o consumidor. “A grande diferença prática está na garantia”, afirma Marilei Giordani, também da Vinum Terra. Ela explica que um vinho orgânico certificado exige que tanto o cultivo da uva quanto o processo na vinícola sejam auditados. “Essa certificação é a sua garantia e estará visível no rótulo”.
Para a biodinâmica, o selo a ser procurado é o Demeter. “Existe a certificação internacional Demeter, que é estampada no rótulo com seu característico logo laranja”, conta Edgar Giordani. Obter o selo é um processo rigoroso que exige primeiro a certificação orgânica, garantindo ao consumidor um produto sem intervenção química.
O universo dos vinhos naturais, por outro lado, ainda carece de uma regulamentação unificada no Brasil. “Esta definição de vinho natural ainda é um impasse, pois o Brasil não tem uma legislação específica”, aponta Roger Köetz, produtor de vinhos artesanais e fundador da Bodega Köetz.
Na ausência de um selo, a confiança no produtor e a curadoria de profissionais qualificados se tornam cruciais. Como explica Gabriela Teixeira, que também é sommelier do wine bar carioca Belisco, é preciso “um conhecimento mais profundo dos produtores e uma proximidade maior com os mesmos”.
A promessa desses vinhos é uma expressão mais pura e autêntica do terroir – a combinação de solo, clima e local de onde vêm. A mínima intervenção permite que as características da uva se manifestem com mais intensidade.
“Ao considerar que em uma fermentação espontânea se faz uso da levedura presente no local, parece óbvio concluir que esse produto apresentará mais personalidade do terroir”, argumenta Gabriela Teixeira.
Roger Köetz compartilha dessa visão, afirmando que seu propósito é “entregar a verdadeira expressão da uva”. Para ele, “o vinho de vinificação natural consegue imprimir o terroir na sua essência: é só a fruta e o solo”.
Edgar Giordani descreve o perfil sensorial dos vinhos biodinâmicos como “totalmente diferentes, porque eles expressam a potência máxima do solo”. Ele os define como “vinhos de sede”, alegres, vivos, intensos e gastronômicos, com “mais expressão de fruta e de flor, e uma personalidade muito persistente na boca”.
Apesar disso, existe um preconceito de que vinhos naturais podem ter aromas e sabores incomuns. Roger Köetz rebate essa ideia: “Se o vinho apresentar esta característica, ele tem algum defeito. O vinho bem elaborado e correto não tem isso, pelo contrário, é rico em aromas deliciosos”.
Produzir vinhos com mínima intervenção no Brasil exige resiliência. O primeiro grande desafio, segundo Gabriela Teixeira, é a própria natureza. “Ao escolher não usar agrotóxicos, o produtor fica à mercê das intempéries do clima, da fauna, da flora”. Além disso, ela aponta que “os órgãos legisladores fazem o processo difícil e caro”.
O contexto brasileiro, aliás, impõe obstáculos particulares. Eduardo Zenker aprendeu da forma mais dura que não pode simplesmente replicar modelos europeus. “Aprendi isso por experiência própria, quando tentei manter meu vinhedo orgânico e acabei perdendo-o para doenças”. Para ele, o desafio é “buscar alternativas viáveis para a produção de uvas viníferas orgânicas certificadas no nosso clima”, como seu projeto piloto de cultivo sob cobertura plástica.
No campo, Edgar Giordani relata que “o principal desafio é a crescente resistência dos patógenos”, que se tornaram mais fortes. A situação é agravada pelo entorno, como complementa Marilei Giordani: “A pulverização massiva de agrotóxicos na maioria dos vinhedos fortalece os patógenos, e nós, que não usamos esses produtos, temos que nos desdobrar para proteger nossas videiras”.
Somam-se a isso os entraves econômicos. Tatiana Buniac detalha a disparidade de custos com a Europa: “Na Europa, o governo subsidia tudo. Aqui, uma rolha pode custar cinco reais. A garrafa é cara, tudo é caro”. Essa realidade impacta diretamente o preço final, tornando inclusive a viabilidade financeira um grande obstáculo.
Apesar das dificuldades, o mercado cresce impulsionado por um novo perfil de consumidor. Tatiana Buniac descreve esse público como “principalmente mais jovem, na faixa de 25 a 40 anos”, formado por “pessoas preocupadas com a saúde, sustentabilidade e valorização da produção local”. É uma audiência que busca conexão e propósito no que consome.
Essa busca por significado transforma o papel do produtor, que se torna também um educador. “A principal oportunidade é a de educar o consumidor”, afirma Eduardo Zenker. Ele acredita que o produtor apaixonado tem a responsabilidade de compartilhar sua filosofia de trabalho, tornando a experiência de provar um vinho natural inesquecível.
A trajetória de Roger Köetz exemplifica esse perfil. Sua paixão o levou a estudar e a arriscar uma vinificação artesanal na garagem de casa em 2017, motivado pela saúde e pela busca de sabores autênticos. Da mesma forma, Tatiana Buniac, como curadora, assume o papel de ponte, contando as histórias por trás de cada garrafa. “Para mim não é só vender vinho, precisa ter uma história e um propósito por trás”, diz a empresária, ressaltando a importância de apoiar os produtores nacionais.
Para todos os entrevistados, o movimento está longe de ser uma moda. “Não acredito que seja uma mudança passageira, acredito ser uma nova forma de enxergar a nossa vida no planeta como um todo”, reflete Gabriela Teixeira.
Roger Köetz observa que o mercado “começou como um nicho e agora está virando uma tendência”, enquanto Edgar Giordani é ainda mais categórico: “É um movimento sólido de transformação na consciência das pessoas. Os consumidores estão buscando vinhos autênticos, com identidade, expressão e personalidade”.
A prova mais concreta de que essa transformação atende a uma demanda real vem da experiência direta com os clientes. Marilei Giordani conta um caso recorrente em seu restaurante: “Frequentemente, clientes dizem que não tomam vinho por terem sensibilidade ao sulfito. Explicamos que os nossos não têm adição, a pessoa harmoniza o jantar inteiro com eles e se sente perfeitamente bem”. No dia seguinte, a confirmação: "Estou ótima, não tive nenhuma reação".
Para ela, essa é a maior evidência de que o setor está atendendo a uma necessidade real. É um movimento que prova que o vinho pode ser mais do que uma bebida: pode ser um reflexo de escolhas mais conscientes, saudáveis e profundamente conectadas com sua origem.

Um laranja argentino vibrante, turvo e sem sulfitos, com aromas de camomila, chá e frutas brancas. Fresco, equilibrado e de final longo, é um exemplar autêntico do movimento natural em Mendoza. Indicação de Diogo Robert, sommelier do restaurante Donna. Preço: R$ 134,90

Primeiro espumante ancestral da Vinum Terra, o Atrevido 2025 nasce da ousadia de transformar a uva Isabel em um Pét-Nat leve, frutado e cheio de frescor. Produzido de forma biodinâmica e sem qualquer aditivo enológico, o rótulo fermenta naturalmente pelo método ancestral. Indicação de Edgar Giordani. Preço: R$ 190

Da Bodega Köetz, no Rio Grande do Sul, este Sangiovese natural exibe frutas vermelhas, especiarias e raspas de laranja. Vibrante, com acidez na medida e taninos finos, é leve, elegante e direto. Indicação de Roger Köetz. Preço: R$ 179

Outro bom exemplar da Bodega Köetz, este Vermentino com uvas de Encruzilhada do Sul (RS) é seco e refrescante. Aromas cítricos, notas tropicais e leve salinidade marcam o rótulo, um branco de pegada leve e fácil de beber. Indicação de Roger Köetz. Preço: R$ 179

Produzido pela Arte da Vinha, na Serra Gaúcha, este branco de mínima intervenção nasce em solos vulcânicos. Traz aromas de frutas amarelas, ervas e um leve toque salino, refletindo frescor e identidade do terroir. Indicação de Eduardo Zenker. Preço: R$ 245

Assinado pela vinícola orgânica Familia Cecchin, em Mendoza, na Argentina, o Picum Rosé é um blend artesanal de Malbec, Cabernet e Syrah. Frutado, fresco e equilibrado, vai bem com pratos leves e orientais. Indicação de Gabriela Teixeira. Preço: R$ 159,90

Do Valle de Colchagua, no Chile, nasce este rosé da Maturana Wines. De produção limitada, combina Syrah prensado direto com um toque de Semillon da zona costeira de Paredones. Leve, frutado e com acidez, é puro frescor engarrafado. Indicação de Gabriela Teixeira. Preço: R$ 270

Um Pinot Noir em sua forma mais delicada e natural, com mínima adição de sulfito apenas no engarrafamento. Leve, elegante e cheio de charme, evoluiu com o tempo mantendo frescor e complexidade. Um vinho para todas as horas, que pede decantação para revelar todo o seu potencial aromático. Indicação de Tatiana Buniac. Preço: R$ 199
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