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De pinguins no Canal Beagle a trekkings na Laguna Esmeralda, confira dicas para se aventurar por Ushuaia durante a alta temporada
Conhecida como a "cidade do fim do mundo", Ushuaia, na Patagônia Argentina, revela sua face mais vibrante e acessível durante o verão, quando as temperaturas sobem e os dias podem se estender por 17 horas. Longe da paisagem coberta de neve que atrai muitos brasileiros no inverno, a alta temporada, que vai de novembro a março, transforma a Terra do Fogo em um paraíso para os amantes da natureza.
O aumento da procura, porém, pede atenção ao planejamento: da compra da passagem à reserva dos passeios, da escolha do hotel à estratégia de câmbio. Guiados por Pedro Colônia, diretor comercial da Patagonia Trips, da RZ Turismo, compartilhamos dicas preciosas para quem pretende se aventurar em Ushuaia durante o verão.

A escolha pelo verão não é por acaso. “Ushuaia é visitada o ano todo, mas cada temporada tem sua peculiaridade. A alta temporada é no verão, por conta das temperaturas e do clima mais ameno. Por ser no extremo sul do continente americano, dependendo da época é muito frio, o que impede a operação de alguns passeios”, conta Pedro Colônia.
Nesta época, o objetivo é outro: sai de cena quem procura pela neve e chegam turistas atraídos justamente pelas temperaturas menos agressivas e em busca de conhecer a cidade por outra perspectiva que não seja a do gelo. Atividades como visitas a centros de esqui e snowboarding dão lugar, principalmente, às trilhas. “Há muitos europeus que vão com o objetivo de fazer trekking e caminhadas”, explica Colônia.

De fato, o clima subpolar oceânico se torna mais convidativo, com temperaturas médias que, no auge da estação, em dezembro e janeiro, variam entre 5°C e 13°C, podendo chegar a 18°C durante o dia. Contudo, a característica mais marcante da estação é a luz solar quase perpétua.
“Uma peculiaridade do verão é que amanhece muito cedo e anoitece muito tarde, o que proporciona um maior aproveitamento do tempo”, explica Colônia. No pico do verão, a cidade recebe mais de 17 horas de luz natural por dia. “Amanhece por volta das 5:30 e anoitece às 22h, aproximadamente. As pessoas jantam ainda com o dia claro”, complementa o especialista.
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A jornada a partir do Brasil exige uma atenção especial à logística aérea. “Não há voos diretos do Brasil durante a alta temporada”, esclarece Pedro Colônia. “Todos os voos têm no mínimo uma conexão, geralmente em Buenos Aires”. E é nesta conexão que vale atenção dobrada.
A capital argentina possui dois aeroportos, e a necessidade de troca entre eles é frequente: voos internacionais chegam ao Aeroporto Internacional Ministro Pistarini (EZE), enquanto a maioria das pontes aéreas para Ushuaia parte do Aeroparque (AEP). O traslado entre eles pode levar até duas horas, exigindo um intervalo mínimo de cinco a seis horas entre os voos para evitar imprevistos.
O custo da passagem aérea é outro fator importante. “Quem está planejando ir na alta temporada precisa se organizar”, aconselha Colônia. “Comprando com antecedência, US$ 500 é um preço médio”. Uma análise de mercado confirma a estimativa, situando a média entre US$ 450 e US$ 650. E vale ressaltar: nas semanas de Natal e Ano Novo, os tíquetes podem facilmente ultrapassar os US$ 1.000 (cerca de R$ 5.350 na data da publicação).

A escolha da hospedagem é um passo fundamental para definir o tom da viagem. Como orienta Pedro Colônia, “precisamos entender o perfil do turista”. Para quem busca a conveniência de explorar o centro a pé, com acesso fácil a restaurantes, lojas e ao porto, há excelentes opções.
O Alto Andino Hotel e o Hotel Albatros destacam-se pelo custo benefício, com diárias a partir de US$ 150. Para uma pegada diferente, o Cilene del Fuego Suites & Spa é uma boa pedida, com quartos no estilo apartamento, jacuzzi, sauna e serviços de spa em diárias que começam em US$ 190.
Por outro lado, “quem busca sossego, uma vista bonita e um hotel de quatro ou cinco estrelas, opta pela região mais afastada”, diz o especialista.
Nesse quesito, o Arakur Ushuaia Resort & Spa é destaque, integrado a uma reserva natural com piscinas de borda infinita e diárias a partir de US$ 620. O Los Cauquenes Resort + Spa (a partir de US$ 500) oferece a experiência exclusiva de uma praia privativa às margens do Canal Beagle, e o Las Hayas Ushuaia Resort (a partir de US$ 340) atrai pela boa estrutura de lazer.
O centro de Ushuaia é charmoso, mas a verdadeira alma do destino está em sua natureza exuberante. Como bem define Pedro Colônia, “o centro da cidade não é grande, em poucas horas você o conhece. Então, as excursões acabam sendo o principal atrativo”.

Um dos passeios mais emblemáticos é a Navegação pelo Canal Beagle. “É obrigatório em qualquer época do ano”, afirma Colônia. A excursão pode ser encontrada com uma faixa de preço a partir dos US$ 60 e leva os visitantes à Ilha dos Pássaros, à Ilha dos Lobos Marinhos e ao icônico Farol Les Eclaireurs. No verão, essa navegação ganha um complemento especial: a visita à pinguinera.

“Um ponto importante do verão em Ushuaia é que é a temporada de pinguins”, destaca o especialista. A experiência mais cobiçada é a caminhada na Ilha Martillo, que permite andar por uma hora entre colônias de pinguins-de-magalhães e gentoo. O passeio é operado com exclusividade pela agência Piratour, e a demanda é altíssima.
“Para descer na ilha no verão, é preciso fazer a reserva com no mínimo quatro meses de antecedência”, alerta Colônia. O investimento, entre US$ 150 e US$ 200, garante uma das memórias mais incríveis da viagem.

O Parque Nacional Tierra del Fuego é o cenário terrestre mais importante da região, protegendo 63 mil hectares de florestas, lagos e costa marinha – cerca de seis vezes o tamanho da Disney World, na Flórida, aliás. O ingresso custa 30 mil pesos argentinos para estrangeiros, o equivalente a US$ 21 ou R$ 112 na cotação atual.
Dentro do parque, uma atração cultural imperdível é o Trem do Fim do Mundo. “É muito interessante porque, com um fone de ouvido, você escuta toda a história de Ushuaia, podendo selecionar o idioma português”, descreve Colônia. Operado diariamente, o trajeto de cerca de uma hora tem saídas às 9h30, 12h15 e 15h, com preços a partir de US$ 46 no site oficial.
Para os amantes de caminhadas, o trekking à Laguna Esmeralda é a pedida certa. “Tem um pouco menos de 10 km, quase sem subidas ou desníveis”, diz Colônia, classificando-a como de nível fácil a moderado. O percurso leva a um lago de degelo de cor impressionante; há opções com guias turísticos com valores que variam de acordo com a experiência.

Para além dos clássicos, duas experiências complementam o roteiro. O Passeio 4x4 aos Lagos Fagnano e Escondido é uma aventura de dia inteiro que cruza a Cordilheira dos Andes pela impressionante rota do Paso Garibaldi. Com trechos off-road e paradas em meio à natureza, o tour custa cerca de US$ 148 por adulto, geralmente com o tradicional churrasco argentino incluído.
Já para um mergulho na história local, a visita ao Museu Marítimo e do Presídio (Museo Marítimo y ex Presidio de Ushuaia) é indispensável. Instalado no imponente edifício da antiga prisão que deu origem à cidade, o complexo abriga diversas alas. O ingresso custa US$ 36 no site oficial e o horário de visitação acontece diariamente das 10h às 20h.
Muito antes da chegada dos europeus, as terras geladas do Canal de Beagle eram o lar de povos nômades, principalmente os Yámanas e os Selk'nam. Vivendo como caçadores, eles desenvolveram uma cultura única e uma profunda adaptação ao clima rigoroso, navegando em canoas de casca de árvore e resistindo ao frio com técnicas ancestrais. Esses habitantes originários foram os verdadeiros pioneiros do “fim do mundo”.
A transformação da região começou na segunda metade do século 19, com a chegada de missionários anglicanos. Em 1869, a missão liderada por Thomas Bridges estabeleceu o primeiro assentamento não-indígena permanente, marcando o início da colonização europeia. Anos depois, em 1884, a Argentina estabeleceu uma subprefeitura no local, oficializando a fundação de Ushuaia como uma cidade e consolidando sua soberania sobre o território.
O capítulo mais marcante da história moderna da cidade foi a sua função como colônia penal. No início do século 20, o governo argentino construiu o famoso Presídio de Ushuaia, uma prisão de segurança máxima para onde eram enviados os criminosos mais perigosos do país. Foram os próprios prisioneiros que, com trabalho forçado, construíram grande parte da infraestrutura da cidade, incluindo a ferrovia que hoje opera como o turístico Trem do Fim do Mundo.
Após o fechamento do presídio em 1947, Ushuaia se reinventou, primeiro como uma importante base naval e, finalmente, como a vibrante capital turística que é atualmente porta de entrada para a Antártida e um símbolo da natureza patagônica.
Após um dia de exploração na natureza, todos os caminhos levam à Avenida San Martín. Com quase dois quilômetros de extensão, ela é o coração social de Ushuaia, onde turistas e moradores se encontram. A rua concentra a maior parte do comércio, com uma arquitetura que mescla construções coloridas e típicas com hotéis modernos. É ali que estão as principais lojas, farmácias, agências de turismo e casas de câmbio.
É também o lugar para encontrar souvenires, como as da loja La Ultima Bita, com temática inspirada no presídio e um bar temático, o Taberna Del Viejo Lobo. Por lá, também estão lojas como a Montagne e a Scandinavia, especializadas em roupas tanto para neve, no caso do inverno, e acessórios para trilhas, essenciais para os passeios na alta temporada. Parada obrigatória é o famoso Hard Rock Cafe, que além do restaurante conta com dois bares e quatro pistas de boliche.
No entanto, o foco das compras em Ushuaia é bem específico. Como alerta Pedro Colônia, “Ushuaia é uma zona franca de impostos, o que faz com que muitas pessoas a procurem para compras, mas hoje não é mais vantajoso”.
Ele explica que a vantagem se restringe a alguns itens. “O que pode valer a pena são bebidas alcoólicas e alguns chocolates, em lojas grandes como a Duty Free Shop Atlántico Sur. Mas não se pode esperar encontrar eletrônicos ou roupas de marca com bons preços”, finaliza o especialista.
Explorar Ushuaia também é uma jornada de sabores. A culinária local reflete perfeitamente sua geografia, trazendo para o prato o melhor do mar e da terra. Segundo Pedro Colônia, a experiência gastronômica é marcante.
“Os pratos típicos são as carnes, tanto de gado quanto de cordeiro, que é o cordeiro patagônico. Além disso, há os frutos do mar, como a centolla (o king crab ou caranguejo gigante) e a merluza negra, um peixe famoso e mais difícil de encontrar”, detalha.
O cordeiro, assado lentamente por horas, e a centolla, servida fresca de diversas maneiras, são considerados imperdíveis. Além dos pratos principais, a Argentina convida a pausas para um café com medialunas e para provar os clássicos alfajores e doces de leite, que completam a imersão nos sabores locais.

Planejar uma viagem a Ushuaia durante o verão garante uma imersão em uma natureza intensa, com dias que parecem não ter fim. É essencial, porém, alinhar as expectativas. “É um destino para quem gosta minimamente de natureza. Uma viagem para contemplar paisagens, fazer caminhadas e passeios de barco”, ressalta Pedro Colônia.
Com o planejamento certo, a experiência se transforma em algo inesquecível. Como ressalta o especialista, “é uma região um pouco mais inóspita, que exige cuidados”, mas que recompensa o viajante preparado com memórias de um dos lugares mais espetaculares e singulares do planeta.
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