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Hotéis históricos, restaurantes premiados e obras monumentais no meio do nada: o que fazer e ver na cidade que virou ícone do deserto

Apesar de hoje ser reconhecida como um dos centros mais singulares da arte minimalista, Marfa, no Texas, ainda preserva, com um charme quase intocado, suas origens simples e rurais. É justamente essa mistura improvável – entre o mundo da arte contemporânea e o cotidiano do deserto texano – que faz da cidade um destino tão fascinante.
O caminho até lá não é dos mais fáceis. A cidade mais próxima, El Paso, fica a cerca de três horas de carro, cruzando as vastas planícies e o silêncio do monumental Big Bend. No meu caso, foram oito horas de viagem desde Austin, sem contar as paradas. Mas é nesse isolamento que está o segredo de Marfa – o mesmo que, em 1971, seduziu o artista minimalista Donald Judd, decidido a deixar para trás o caos de Nova York em busca de um refúgio para criar.
A decisão de Judd mudaria o destino da cidade para sempre. Suas obras espalhadas pela cidade transformaram Marfa em um improvável santuário para amantes da arte contemporânea, além de uma lista de curiosos que inclui Beyoncé, Solange Knowles, Matthew McConaughey, Mark Ruffalo e Kim Namjoon, do BTS.
A seguir, descubra a história e o que ver e fazer em Marfa, este intrigante oásis cultural em meio ao deserto Texas.

Marfa nasceu em 1883 de um propósito simples: abastecer de água as locomotivas da Galveston, Harrisburg and San Antonio Railway. Conta a lenda que o nome foi sugerido pela esposa de um executivo da ferrovia, inspirado em uma personagem de Os Irmãos Karamazov, de Dostoiévski.
Nas décadas seguintes, o vilarejo cresceu com o gado e o som dos trilhos, até ganhar protagonismo durante a Segunda Guerra Mundial, quando o Marfa Army Airfield trouxe milhares de militares ao meio do nada. Após o fim do conflito, porém, a base fechou, o movimento cessou e Marfa voltou ao seu ritmo preguiçoso, sustentada pela pecuária e pelo título de sede do Condado de Presídio. Até os anos 1970, nada indicava que aquele ponto esquecido no mapa se tornaria um ícone cultural.
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A metamorfose de Marfa começou em 1971, com a chegada do artista Donald Judd. Um dos principais expoentes do minimalismo, Judd estava em busca de um lugar para escapar do ambiente comercial e restrito da cena artística de Nova York. Ele queria um local onde pudesse instalar suas obras de forma permanente, em espaços que fossem tão considerados quanto as próprias peças, integrando arte, arquitetura e paisagem.
Em Marfa, ele encontrou o espaço, a luz e o isolamento que desejava. Inicialmente, adquiriu hangares e edifícios no centro da cidade, que compõem hoje a Judd Foundation. Em 1979, ele comprou o terreno do antigo Fort D.A. Russell, um complexo militar desativado. Ali, fundou a Chinati Foundation, um museu de arte contemporânea com a missão de preservar e apresentar instalações de grande escala de um número limitado de artistas.

A visão de Judd era criar um contraponto aos museus tradicionais, onde as obras pudessem ser vistas em um contexto ideal e permanente. Sua presença e o desenvolvimento da Chinati, aliás, atraíram gradualmente outros artistas, galeristas e criativos, que estabeleceram estúdios e espaços expositivos, consolidando a reputação de Marfa como um centro cultural único.
Entre todas as atrações de Marfa, a Chinati Foundation é parada obrigatória. Criado por Donald Judd, o museu consolidou a cidade como referência mundial da arte minimalista. Instalado em antigos prédios militares, o espaço abriga 100 esculturas sem título de Judd, feitas em alumínio industrial, que exploram luz, forma e repetição
Outra experiência marcante por ali, inclusive, são as instalações de luz neon de Dan Flavin, que transformam o ambiente em pura cor e energia.

Para quem visita pela primeira vez, os tours guiados são ideais para entender o legado de Judd – e, principalmente, para apreciar o ritmo contemplativo que o lugar inspira.
Mais do que um museu, a Judd Foundation é um mergulho na mente e no cotidiano de Donald Judd. Sua antiga casa e estúdio, preservados como ele os deixou nos anos 1990, revelam o artista em sua dimensão mais humana.

Por lá estão suas coleções de livros, móveis criados por ele mesmo e os objetos do dia a dia que inspiraram sua criação. Caminhar pelos cômodos, aliás, é como entrar em uma pausa no tempo – um convite para entender o pensamento por trás de uma das figuras mais influentes da arte moderna.
O Ballroom Marfa é um dos pilares da cena artística da cidade – um espaço dinâmico que nunca mostra a mesma exposição duas vezes. O museu inclusive é conhecido por encomendar obras criadas especialmente para o local, como stone circle (2018), de Haroon Mirza, uma instalação inspirada nos monumentos megalíticos da antiguidade.

Foi também um dos responsáveis por viabilizar projetos emblemáticos como Prada Marfa e Giant, dois marcos visuais no deserto texano.
Talvez a obra mais fotografada do deserto texano, Prada Marfa se tornou um ícone pop – especialmente depois de Beyoncé posar diante dela. Criada pela dupla Elmgreen & Dragset, com apoio da Ballroom Marfa e do Art Production Fund, a instalação simula uma loja da Prada no meio do nada.

O detalhe, contudo, é que as portas nunca se abrem, e os produtos expostos, bolsas e sapatos da coleção de 2005, estão presos no tempo – uma crítica ao consumismo e comentário poético sobre desejo e isolamento.
A ligação de Marfa com o cinema começou em 1956, quando Elizabeth Taylor, Rock Hudson e James Dean filmaram ali o clássico Giant. Décadas depois, o artista John Cerney transformou essa memória em arte, instalando enormes painéis pintados dos três astros às margens da Highway 90, próximos ao local original das filmagens.

Atualmente, as figuras em tamanho monumental contrastam com a paisagem árida do deserto e lembram aos viajantes que, em Marfa, a fronteira entre arte, mito e história é sempre tênue.
Além da arte, Marfa também é famosa por um enigma: as chamadas Marfa Lights, esferas luminosas que aparecem dançando no horizonte à noite, sem explicação convincente até hoje. Alguns atribuem o fenômeno a gases do deserto, outros a refrações de faróis distantes – mas há quem jure que são manifestações extraterrestres.

Atualmente, há até a Marfa Lights Viewing Area, onde curiosos se reúnem todas as noites na esperança de ver as luzes surgirem.
Projetado pelo arquiteto Henry Trost nos anos 1930, o Hotel Paisano é um clássico de Marfa que carrega um pouco da aura de Old Hollywood – foi ali, inclusive, que Elizabeth Taylor, James Dean e o elenco de Giant se hospedaram durante as filmagens de 1955.

Entre os pátios ensolarados, estão piscina, loja com garimpos locais e a Greasewood Gallery, que reúne obras de artistas da região.
Moderno, minimalista e com o mood industrial que reflete a estética de Marfa, o Hotel Saint George é a alternativa elegante aos velhos motéis do deserto. Inaugurado em 2016 no mesmo terreno de um histórico hotel de 1886, aliás, o edifício abriga ainda uma livraria e uma galeria. Além disso, há o restaurante LaVenture, ponto de encontro de moradores e viajantes.

Foi o Cochineal que colocou Marfa no radar da gastronomia internacional. O restaurante ganhou fama quando sua chef e cofundadora, Alexandra Gates, foi indicada ao cobiçado James Beard Award, o “Oscar” da gastronomia americana.
No cardápio, a inspiração vem das raízes do oeste do Texas, mas também das tradições europeias, resultando em um menu sazonal e cheio de personalidade.
Se existe um endereço que traduz o espírito autêntico de Marfa, é o Marfa Burrito. Simples e até rústica, a casa é comandada por Ramona Tejada, figura lendária na cidade, que já recebeu inclusive Matthew McConaughey e Mark Ruffalo.

O menu é, de fato, dedicado à iguaria que dá o nome, e as opções são simples: ovo, chorizo, batata, carne, queijo e feijão.
No coração de Marfa, a Itália floresce no Bordo, semifinalista do James Beard Award em 2025. A delicatessen leva ao deserto um pouco da cozinha mediterrânea com menu que muda sazonalmente.
Sanduíches, massas, saladas e gelatos produzidos na própria casa dividem espaço com a carta de vinhos, atualmente com 14 rótulos.
O Marfa Spirit Co. é o ponto de encontro noturno da cidade. Instalado em um galpão, o espaço reúne destilaria, bar e restaurante.

A proposta é celebrar os sabores do deserto de Chihuahua com destilados próprios, como o sotol e o licor de toranja, usados em drinks autorais.
Procurando por um brunch caprichado? É só dar um pulo no The Sentinel, localizado a poucos passos da rua principal. Entre iced lattes e panquecas com maple syryp, dá para explorar a curadoria de produtos artesanais, que vão de joias a mantas coloridas. Inclusive, há um motivo legal por trás do charme do local, misto de café e loja: parte das vendas financia dois jornais independentes da região, o Big Bend Sentinel e o Presidio International.

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