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Da Grande Barreira de Corais da Austrália às geleiras da Antártica, muitos destinos turísticos estão sucumbindo por causa das mudanças climáticas – se devemos ou não visitá-los é um debate cada vez mais quente
Como o próprio nome entrega, “turismo de última chance” significa correr para visitar destinos ameaçados pelas mudanças climáticas antes que eles desapareçam de vez. É uma premissa paradoxal: quanto mais se visita esses lugares, mais eles podem se degradar. Por outro lado, deixar de visitá-los garante que esses lugares estarão salvos?
O debate sobre esse tipo de turismo se intensificou nos últimos anos ao mesmo tempo em que a procura por viagens a lugares ameaçados aumentou. Seja para andar de gôndola em Veneza, que sofre com enchentes e o aumento do nível do mar, ou para ver pinguins-imperadores na Antártica, onde as geleiras derretem como nunca antes, as viagens movidas pela catástrofe climática viraram uma tendência global.
Na década de 1990, por exemplo, menos de 8.000 pessoas por ano visitavam a Antártica. Já durante a temporada 2023-24, mais de 124.000 turistas estiveram na região, de acordo com a Associação Internacional de Operadores Turísticos da Antártica.

Entre setembro de 2024 e março de 2025, o continente atingiu um dos menores níveis de gelo já registrados na medição histórica. A culpa, claro, é sobretudo do aquecimento global, não dos turistas. Ainda assim, a Antártica serve de paradigma para o que vem acontecendo com outros inúmeros destinos mundo afora.
Um dos lugares mais lembrados quando o assunto é turismo de última chance é a Grande Barreira de Corais da Austrália, considerada o maior organismo vivo do mundo, com 2.4 mil quilômetros de extensão que podem ser vistos até mesmo da Estação Espacial Internacional.

Com mais de 600 tipos de corais, o destino fabuloso recebe cerca de 2 milhões de turistas anualmente, segundo dados do governo australiano. Para os visitantes, é possível fazer desde passeios de barcos com fundo transparente para observar a extensa vida marinha, até mergulho com cilindro ou snorkel. O único problema é que o aquecimento dos oceanos está matando os corais.
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Um relatório do Instituto Australiano de Ciências Marinhas divulgado recentemente mostra que no ano passado a região sofreu o maior evento de branqueamento já registrado na história, devido a “níveis sem precedentes de estresse térmico”. No branqueamento, o coral expulsa as microalgas que lhe dão cor e energia por causa do calor excessivo. Fica branco, enfraquecido – e, se a temperatura não cair, pode morrer.

Veneza não seria o que é hoje se não fosse os seus famosos canais repletos de gôndolas. No futuro, porém, pode ser impossível continuar aproveitando a cidade que vêm se mantendo de pé desde o Império Romano.
O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) estima que, globalmente, o nível dos oceanos aumentou em média 20 centímetros no último século. Por ser uma cidade construída sobre sedimentos como argila e areia, Veneza é muito mais vulnerável a essas variações. Seu solo se compacta com o passar do tempo e a cidade literalmente afunda alguns milímetros todos os anos.

Um grande risco apontado por organizações do clima como o IPCC é que até o fim deste século Veneza seja uma cidade cronicamente inundada. A Piazza San Marco, principal da cidade, por exemplo, já foi submersa cerca de 250 vezes por ano nesta década.
Para não ver a cidade sucumbir, a Itália inaugurou há 5 anos o sistema de comportas MOSE, que isola temporariamente a conexão de sua lagoa com o Mar Adriático, e assim evita algumas enchentes moderadas. Ainda assim, nenhuma solução definitiva existe até o momento.

A demanda turística por destinos que estão derretendo, afundando e deteriorando devido às mudanças climáticas é uma realidade dos tempos de hoje. Mesmo que explorar esses locais não necessariamente leve à preservação deles, existe um outro lado da discussão: o que aponta que o apego dos turistas a esses lugares ameaçados pode, sim, ajudar o planeta de alguma forma.
Apesar de as emissões de CO² necessárias para voar até esses locais já serem comprovadamente maléficas, um outro lado da discussão acerca do turismo de última chance propõe que, quando praticado de forma responsável, essa modalidade de viagem pode inspirar os viajantes a proteger os lugares que eles foram visitar.
Outro argumento é que ver a deterioração do planeta de perto pode estimular turistas a serem mais atentos à pauta ambiental quando eles voltarem para casa.

Nos cruzeiros realizados a lugares remotos da Antártica, por exemplo, a Associação Internacional das Operadoras de Turismo Antártico possui materiais obrigatórios que explicam o impacto das expedições e as medidas mais adequadas a serem seguidas pelos visitantes, que precisam seguir uma série de recomendações, tanto de segurança quanto de preservação, como não se aproximarem de animais nas caminhadas em terra firme.
O objetivo é que quem decide visitar destinos de última chance seja tocado pela emergência climática ao vê-la com os próprios olhos, se sentindo, assim, motivado a agir.
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