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Donald Trump adicionou riscos à tese de investimento nos EUA, porém, o Bank Of America considera que as grandes empresas americanas são fortes para resistir e crescer, enquanto os títulos públicos devem ficar cada vez mais voláteis
O ano começou com a tese do excepcionalismo americano na máxima, com gestores de fundos globais apostando centenas de milhares de dólares nas ações e nos títulos dos EUA. Até que o tarifaço de Donald Trump fez a tese fraquejar e um volume grande desse dinheiro escoar para fora do país.
Eis que o Bank of America aparece nesta segunda-feira (28) com uma nova versão do excepcionalismo americano: as ações valem a pena, os Treasurys estão mais arriscados.
A inversão de fundamentos — em que os títulos públicos são considerados mais arriscados e as ações, em alguma medida, mais certas — causa estranheza. Afinal, os títulos de dívida do governo americano não eram os ativos mais seguros do mundo?
Em relatório, os analistas do BofA argumentam que as empresas de grande capitalização dos Estados Unidos, listadas principalmente no S&P 500, têm fôlego para passar por esse período turbulento devido aos baixos níveis de endividamento e ganhos em produtividade.
“A produtividade está entrando em ação, um impulsionador de crescimento de maior qualidade. E o mais importante, a alavancagem é baixa”, diz o relatório do banco americano.
Já os Treasurys, por outro lado, estão diretamente associadas aos níveis máximos da dívida do país e à incerteza política que representa Trump, segundo os analistas.
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O S&P 500 de hoje não é o mesmo índice de anos atrás: “é comparar maçãs com laranjas”, diz o BofA.
De acordo com os analistas do banco, o lucro por ação do índice é menos volátil hoje do que era anos atrás. Isso porque, o modelo de negócios das empresas mudou.
O relatório diz que, antes, os negócios eram focados em muitos ativos e mão de obra, o que gerava baixa margem de lucro. Agora, os negócios funcionam com poucos ativos e pouca mão de obra.
Isso significa que as empresas evoluíram de um crescimento de baixa qualidade, segundo o BofA, para um crescimento mais sólido, baseado em produtividade e tecnologia.
E o mais importante, com uma alavancagem — indicador de endividamento que relaciona a dívida líquida da empresa com o lucro operacional — baixa, dizem os analistas.
“O risco de alavancagem tem sido um dos maiores impulsionadores do prêmio de risco das ações desde a crise financeira global [de 2008], explicando mais de 60% das flutuações no custo do capital próprio”, diz o relatório.
Sem esse risco, a volatilidade das ações — e do lucro das empresas — diminui.
Atualmente, a alavancagem do S&P 500 está 1,7 vez abaixo da média histórica, enquanto a dívida pública dos Estados Unidos está próxima das máximas.
Outro argumento dos analistas do BofA é a evolução do índice em relação aos setores de maior exposição.
Em 1980, a manufatura representava mais de 50% das ações que faziam parte do S&P 500.
Duas décadas depois, essa exposição ficou mais equilibrada, com inovação, consumo, manufatura e REITs/finanças representando quase 25% cada.
Mas, hoje, a inovação quase chega a 50% do índice, com as outras três categorias equilibradas entre elas.
O BofA considera inovação as empresas de tecnologia e serviços de comunicação (Meta e Google, por exemplo, são consideradas empresas de comunicação).
Os analistas do BofA ainda apresentam uma seleção de setores que estariam mais preparados para resistir à estagflação — cenário econômico em que a atividade do país cai, mas a inflação continua alta — projetada para o país em 2025.
“Com nossos economistas revisando as previsões de crescimento dos EUA para baixo e as previsões de inflação para cima, a pressão sobre o consumidor pode se traduzir em menos gastos discricionários”, dizem os analistas.
Os gastos discricionários são gastos não essenciais, que podem ser ajustados ou cortados sem afetar significativamente a vida diária, como lazer, viagens ou compras não urgentes.
Neste cenário, o modelo do banco aponta uma predileção por empresas de saúde, serviços públicos, energia, bancos e seguradoras, além de serviços de assinatura menos descartáveis, como telefonia e mídia.
Os “ativos mais seguros do mundo” passam por um momento turbulento com Trump à frente da Casa Branca.
Não que tenham se tornado ativos arriscados como são ações, porém, estão mais arriscados do que eram no começo do ano, por exemplo, na análise do BofA.
O motivo é a volatilidade.
“Embora uma comparação simples entre o rendimento dos lucros [das empresas] dos EUA e o rendimento dos títulos do Tesouro de 10 anos possa justificar uma sobreponderação em títulos, discordamos”, diz o relatório.
Os analistas afirmam que os retornos com juros dos títulos do governo não representam uma boa oportunidade neste momento devido ao menor rendimento real, que considera a perda de valor para a inflação no período.
Além disso, o BofA também pondera sobre o risco de aumento das taxas de juros pelo Federal Reserve (banco central dos EUA) devido à possibilidade de aumento da inflação após o tarifaço.
Com isso, além do rendimento deteriorado pela inflação, o preço dos títulos também deverá sofrer com a marcação negativa, representando uma dupla perda.
A incerteza política que representa Trump e uma greve de investidores estrangeiros nos Treasurys, que vem de alguns anos e piorou em 2025 após a deterioração da confiança nos EUA com as tarifas recíprocas, são riscos adicionais, segundo os analistas.
“Para quem busca renda, as ações de grande capitalização se mostram particularmente atraentes – especialmente para proteção contra a inflação – em comparação com o custo de oportunidade dos títulos que oferecem baixos rendimentos reais hoje, em meio ao risco de alta das taxas de juros”, diz o relatório.
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