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Em entrevista ao Seu Dinheiro, Roberto Valério falou sobre o impacto do novo marco regulatório para o ensino à distância (EaD), as avenidas de crescimento e preocupações do mercado sobre a recente aquisição da Faculdade de Medicina de Dourados
Se a bolsa de valores fosse uma escola, a Cogna (COGN3) seria uma das alunas com mais destaque neste ano, ostentando não um boletim recheado de notas dez, mas uma valorização de 182% em 2025 — ou, exercendo nossas habilidades matemáticas, quase triplicando na B3 desde janeiro.
E o segredo para o desempenho foi sentar a bunda na cadeira e ‘estudar’, até porque não faz muito tempo que a companhia foi arrastada à ‘turma do fundão’ da bolsa, em meio a uma crise que fez as ações serem negociadas na casa dos centavos, como penny stocks.
Em entrevista exclusiva ao Seu Dinheiro, o CEO da Cogna, Roberto Valério, conta sobre o processo de virada pelo qual a companhia passou. A empresa controla marcas conhecidas como: as faculdades Anhanguera e Fama, além das escolas Anglo.
“Quem coloca um tijolinho em cima do outro constrói uma grande muralha, mas isso leva tempo. Não dá para fazer da noite para o dia”, afirma o executivo, que assumiu o comando da companhia em 2022, bem ao fim do processo de reestruturação (entre 2019 e 2022).
No entanto, para Valério, as ações da empresa poderiam ter se saído ainda melhor na bolsa se não fosse por uma coisa: a nova regulamentação do ensino à distância (EaD), que impôs uma carga maior de presencialidade nos cursos online, entre outras coisas. Confira as novas exigências nesta reportagem do Seu Dinheiro.
Sobre isso, o CEO é direto: “Se não fosse pelo novo marco, as ações teriam subido mais”.
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As mudanças são vistas por analistas como uma faca de dois gumes: por um lado, trazem aumento de custos e incertezas para as companhias do ramo; por outro, podem acarretar o ‘sufocamento’ da concorrência, que teria menos poder de fogo para fazer as adaptações exigidas.
Ou seja, olhando pelo copo meio cheio, a nova regulamentação aumentaria a barreira de entrada no mercado e reduziria a pressão dos preços na oferta de cursos online, que enfrentavam séria concorrência de empresas menores. No fim, isso beneficiaria grandes nomes, como é o caso da Cogna.
Já vendo o lado vazio, os custos aumentam. Para o BTG Pactual, a companhia é, inclusive, uma das mais expostas ao EaD, com 17% do market share. Mas não é por isso que Valério enxerga a regulação como um peso para as ações. Para ele, o real problema é a dúvida que a mudança coloca na cabeça dos investidores.
“O mercado ainda está com o freio de mão puxado, esperando para entender qual é, de fato, o tamanho do impacto. Alguns analistas acham que ele é grande e outros, que não tanto. Quando converso com investidores, percebo que ainda fazem muitas perguntas sobre o novo marco. Isso mostra que existem dúvidas e, diante delas, o investidor tende a ser mais cauteloso e esperar um pouco mais”, afirma o CEO.
Em um relatório, o Itaú BBA mostra essa mesma preocupação. Para os analistas do banco, os investidores permanecem céticos sobre os possíveis efeitos das novas regras em uma indústria que já apresenta fragilidade na acessibilidade. O banco aponta para o risco dessas mudanças reduzirem a escala de alguns programas.
Há também a dúvida sobre se as companhias vão conseguir repassar os custos das mudanças para os alunos. Com base nos cálculos dos analistas do Itaú BBA, caso não haja repasse, o aumento das atividades presenciais exigidas reduziria o Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) da Cogna em 9%. Se 75% dos custos fossem transmitidos, o efeito negativo seria de 4% sobre o Ebitda.
Valério deixa claro que a companhia pretende passar a totalidade desses custos para os estudantes, mas afirma que isso não deve gerar um impacto significativo na mensalidade.
“Para o aluno de EaD, que paga na média R$ 150 por mês, o aumento vai ser de R$ 5. Ou seja, vai para R$ 155. No semipresencial, ou híbrido, o ticket médio é de R$ 350, e o acréscimo seria de R$ 15, indo para R$ 345. E nos cursos presenciais, que passaram por alguns ajustes também, a média mensal hoje é de R$ 800, e elevaríamos para R$ 835”, diz o CEO.
Ele argumenta que são valores baixos e não fariam os estudantes largarem os cursos, mas o real obstáculo é outro: a logística da coisa. Será necessário redesenhar currículos e organizar salas de aula para que, por exemplo, não estejam vazias na segunda-feira, enquanto na terça-feira estão lotadas, e assim por diante.
“Então, tem um pouco desse desafio sistêmico, processual e logístico dentro das unidades e polos. Mas não é um impacto que inviabilize o negócio”, afirma Valério.
Por outro lado, o executivo ressalta a questão da estrangulação da concorrência. “Eu imagino que os pequenos players não vão ter tantos recursos para equipar os seus polos e, consequentemente, eles devem sair do mercado, e isso abre um espaço para aumentarmos o ticket médio das mensalidades. Mas aí a gente ainda vai ter que viver isso e ver como essa dinâmica vai funcionar”, ressalta o executivo.
Cabe lembrar que a Cogna não é mais uma companhia focada só no ensino superior. A empresa se posiciona como um hub de educação “dos dois aos cem anos”. Em 2024, essa vertente representou cerca de 63% da receita líquida total da empresa.
Para Valério, o desempenho das ações ao longo deste ano reflete um processo que vem sendo construído desde 2019, mas em que o mercado só passou a ‘botar fé’ nos últimos meses — depois que viu a empresa conseguindo entregar os resultados previstos no guidance divulgado em 2020, com as projeções para os próximos quatro anos.
“Eu acho que o mercado levou um tempo para acreditar nas nossas projeções. Só levaram a sério quando viram que entregamos o que estava previsto no guidance. Isso fez com que as ações disparassem a partir de janeiro”, diz o CEO.
Além disso, outro fator tem sido apontado pelos analistas como propulsor das ações: os rumores de uma possível fusão com a Yduqs (YDUQ3) — mas, antes de se animar, o mercado tinha que ter combinado com a Cogna, uma vez que o CEO nega que o negócio esteja no radar.
“Essa pauta não está em nossa mesa. Nosso foco está totalmente voltado para dentro de casa, em executar a nossa estratégia e rentabilizar os ativos que já temos. A Cogna passou por uma transformação profunda e hoje tem um caminho muito claro de crescimento orgânico e geração de valor, e é nisso que nossa energia está concentrada”, afirma.
Ele ainda diz que a companhia tem olhado oportunidades de M&A pontuais, menores e regionais que façam sentido, mas que não desviem o foco do que importa: “Fortalecer nossa operação, crescer de forma sustentável e entregar retorno aos nossos acionistas”.
Diante disso, a Cogna olha para o futuro com três avenidas de crescimento. A primeira é um modelo educacional que combina o ensino bilíngue com a preparação para vestibulares, com a Start Anglo, que tem sete unidades em operação e 50 contratos assinados para que escolas adotem o modelo.
“Nossa estratégia não é só operar escolas e, sim, oferecer serviços para que os donos dessas escolas consigam prosperar com os nossos materiais”, diz Valério. A rede Anglo faz parte da Vasta Educação, uma das unidades de negócio da Cogna voltadas para fornecer soluções e serviços educacionais e digitais para escolas particulares.
A segunda e terceira frente são a comercialização de soluções educacionais para entidades do governo e infoprodutores, na economia criativa. Juntas, essas áreas do negócio tiveram um avanço de 81% na receita líquida no segundo trimestre de 2025 frente ao mesmo intervalo do ano passado, impulsionando os resultados da Saber Educação — outra vertical que faz parte do grupo Cogna.
Sobre os infoprodutos, ele ressalta que: “tem muita autoridade que pode ensinar por aí. Médicos, advogados ou outros especialistas. Então, essa é uma outra frente que cresce bastante, a gente não estava explorando e começamos a atuar nos últimos dois anos e meio.”
“São negócios que há alguns anos nem existiam e hoje têm um potencial muito grande de acelerar nossos resultados”, diz Valério. O CEO também destaca que espera crescimento da unidade de negócios de ensino superior, com a Kroton, e destacou o peso das faculdades de medicina.
“Apesar de não ser o principal pilar da empresa, a gente tem uma estratégia muito clara. Não queremos operar em todo o Brasil. A gente quer ser muito forte nas regiões em que já estamos presentes”, diz. Valério afirmou que a recente aquisição da Faculdade de Medicina de Dourados (MS), por R$ 54,4 milhões, entra nessa estratégia.
O negócio vem sendo vista com um certo pé atrás pelo mercado, por ser considerado “barato demais”, o que poderia significar que a unidade ainda não está madura e demandaria investimentos maiores por parte da empresa para gerar resultados.
O Bradesco BBI calcula que o valor médio por vaga de medicina embutido no acordo foi de R$ 900 mil, abaixo da média do mercado. O banco estimou um valor justo potencial de R$ 1,2 milhão por assento. O investimento total em capital é estimado entre R$ 3 milhões a R$ 5 milhões, sendo cerca de R$ 500 mil no primeiro ano.
Sobre isso, Valério afirma: “Foi uma oportunidade, uma boa circunstância, tanto para nós quanto para o mantenedor que estava vendendo. Ninguém deve se preocupar com investimentos fora do normal. Vai seguir o padrão que a gente já faz em todas elas”.
Apesar disso, analistas do Citi, Itaú BBA e Bradesco BBI destacam a aquisição como positiva, por aumentar a exposição da empresa ao curso de medicina, que tem ticket médio alto. Hoje, a Cogna tem 653 vagas em nove unidades.
Valério afirma que a prioridade da empresa é reduzir a dívida líquida, que gera muitas despesas financeiras. A estratégia é usar a geração de caixa para antecipar o pagamento de algumas linhas de dívida e trocá-las por novas.
A segunda prioridade na lista, diz Valério, é retorno ao acionista, seja via dividendos ou recompra de ações. A companhia já pagou cerca de R$ 120 milhões em dividendos em maio e fez uma recompra de cerca de 2,5% do capital social.
“Agora precisamos esperar os próximos trimestres. O que a gente mais gosta é a distribuição de dividendos. Não temos nenhum plano de fazer uma distribuição de proventos trimestral, mas certamente vamos pagar os mínimos em 2026”, afirma.
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