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Planos para a Porto Asset incluem a criação de uma plataforma de investimentos para que clientes do banco possam fazer aportes diretos
Em dezembro, 30 funcionários da Porto (PSSA3) que trabalhavam para os negócios da Asset, gestão de capital da holding, deixaram a sede da companhia no Campos Elíseos, centro da capital paulista, rumo a um prédio mais moderno e apartado de todo o resto do grupo, na Faria Lima. A separação física era também simbólica: uma maneira de mostrar à equipe (e ao mercado) a maior relevância que essa área de negócios ganha agora dentro do grupo.
Criada há 10 anos para gerir o capital próprio da empresa, a Asset ganhou nos últimos anos um peso maior ao começar a fazer a gestão também de terceiros, entre poucos clientes, corretores e funcionários. Acontece que a fama do negócio realmente cresceu — e o bolo gerido também: hoje, a gestora administra uma carteira de cerca de R$ 34 bilhões, sendo R$ 24 bilhões de capital próprio e os outros R$ 10 bilhões de terceiros.
O volume é quase três vezes menor do que o gerido inicialmente pela empresa lá atrás, em 2014, quando a área de negócios passou a operar separadamente com a chegada de Izak Benaderet como CIO dessa parte da holding. Naquele momento, a Porto Asset começava a diversificar o portfólio com estratégias múltiplas, que incluíam renda fixa, crédito privado, multimercados e previdência.
A área cresceu a ponto de o foco, atualmente, ser a gestão de patrimônio de terceiros também com renda variável. Essa reestruturação está acontecendo por meio de uma parceria com a SFA Investimentos, gestora especializada em ações. O acordo, fechado em junho, envolveu um aporte de R$ 200 milhões em fundos administrados pela SFA, que passou a gerir a maior parte da alocação em ações da Porto, e deu origem ao Porto SFA FIC FIA.
O fundo já existia e foi renomeado. Além dele, foi criado um fundo institucional, o Porto SFA Institucional FIC FIA. No mesmo mês, a Asset bateu um recorde de captação em seu principal fundo DI, o Porto Seguro RF Referenciado DI Crédito Privado, de R$ 7 bilhões no mês.
E é a turma que cuida dos recursos de terceiros que deu tchau à sede, com a ideia não só de transmitir a intenção de um compromisso maior, como também de colocar em prática o plano de criar uma plataforma de investimentos diretos no futuro (talvez até o final de 2025), já que hoje os produtos são vendidos apenas por parceiros, como BTG, Itaú e XP.
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Para as pessoas que confiarem os recursos sob gestão da Porto, a estratégia será mais conservadora ou arrojada, de acordo com o perfil de cada cliente, mas nunca tão agressiva.
“Queremos ser reconhecidos como uma Asset um pouco mais conservadora, que encontra bons rendimentos de proteção e eficiência da mesma forma e com a mesma qualidade que buscamos investimentos para os nossos próprios recursos”, diz Celso Damadi, CFO da Porto, em entrevista ao Seu Dinheiro.
Não é que a Porto entenda que não pode arriscar ou não queira traçar rotas mais ousadas para os clientes, pelo contrário. A companhia sabe que pode seguir nessa direção, vez ou outra, com passos firmes e tranquilos, graças à tradição e experiência colhida em anos e anos com seu negócio original, de seguros.
“Temos uma visão clara de que é preciso estarmos protegidos da inflação, até porque nossos recursos próprios servem para cobrir o passivo, são nossa reserva técnica e o que nos dá segurança para eventualidades”, conta Damadi.
Tanto que ele explica que, na visão da empresa, é preferível se proteger da inflação, com a garantia de investimentos que tragam juro real, do que correr riscos com operações de grande volatilidade. Não à toa, a Porto hoje tem uma parcela muito pequena de suas aplicações em renda variável, apenas 3%, em média.
O dinheiro da reserva da companhia, ele explica, serve para cobrir tanto o pagamento de sinistros, calculados meticulosamente para estarem precificados na operação do dia a dia, quanto o de fatalidades que fogem do controle, como foi o caso da tragédia causada pelas chuvas torrenciais no Rio Grande do Sul, no primeiro semestre do ano passado.
Para casos mais graves, a Porto tem resseguro (e precisa da reserva para acioná-lo, claro), fora o risco de desastres naturais inimagináveis, apontados como iminentes por cientistas. E são essa reserva e solidez que dão a segurança necessária para o negócio seguir, seja lá qual for o caso.
“Por tudo isso, o nosso mercado requer uma reserva técnica consistente para garantir o ativo, nosso passivo garantidor. Por natureza, nosso negócio requer uma grande quantidade de aplicações financeiras, feitas para garantir uma rentabilidade”, afirma o CFO.
É por sempre se preocupar em traçar planos para o caso de tudo dar errado que o cenário macroeconômico do país e do mundo, previsto com tanto pessimismo por muitos analistas e economistas para 2025, não assusta tanto a empresa.
Juros altos, como os que o Brasil enfrenta hoje, com tendência de mais altas pela frente, são a base da grande maioria dos investimentos (a larga maioria em renda fixa) feitos pela Porto.
Tirando a Asset, alocada na holding, o grupo tem hoje quatro vertentes de negócios: Porto Bank, Seguros, Saúde e Serviços. Claro que para a parte do banco, seguros e saúde, juros altos também são positivos, já que praticamente tudo é corrigido a favor dessas áreas da companhia.
“A gente tem uma estrutura de capital muito robusta. Então, é claro que o aumento de taxas de juros do curto prazo favorecem o meu balanço quase que de forma imediata”, afirma Damadi.
O que será do País a longo prazo é o que tira o sossego do CFO — ainda assim, com cautela.
“Claro que, se o nível de desemprego subir, que não é o caso de agora, isso pode trazer alguma dificuldade de crescimento em todas as frentes”, comenta ele. “Mas o ponto é que estamos preparados para o que vier e temos muita oportunidade de crescimento. Em saúde, por exemplo, estamos crescendo muito, só que ainda temos uma participação pequena e muito para crescer”.
Damadi explica que, no segmento de saúde, a capilaridade das operações em um Brasil tão grande mostra que há espaço de sobra para desbravar ainda. “E estamos pensando em formas diferentes de conquistar mais espaço”, afirma.
O CFO está na companhia há 20 anos e viu a Porto, antes chamada Porto Seguro e conhecida apenas pela oferta de seguros para automóveis, desenvolver negócios diferentes (e ampliar todos eles com o tempo) a ponto de ter que começar a organizar cada uma das fatias de operação em negócios distintos.
Ou seja, a companhia já ofertava seguros, consertos residenciais, crédito, entre outros. A questão é que, com o tempo, o grupo viu que era mais jogo usar a estratégia de dividir para ocupar — seguida de entrelaçar com sinergias.
Em abril de 2022, a Porto realizou um rebranding e anunciou a criação das unidades de negócio: Seguros, Bank e Saúde. A ideia era a de dar independência aos projetos e decisões, criar possibilidades de produtos e serviços diferentes e destravar o potencial dos segmentos. Anos depois, em dezembro de 2023, mais uma unidade de negócios surgiu, a Porto Serviço.
No espaço de tempo entre lá e cá, todas as áreas conseguiram construir parcerias e realmente ter um jeito próprio. A Porto Serviços, que conta com um portfólio de serviços de assistências residenciais, empresariais e automotivas, tem hoje parcerias com grandes varejistas, como o Magazine Luiza, para a oferta de instalação do fogão e geladeira comprados nas lojas da rede.
A demanda tem sido tanta, que as parcerias semelhantes só crescem.
Na Porto Bank, um cartão de débito recém-lançado é hoje oferecido aos clientes, junto de crédito, previdência, seguros e outros produtos por meio de bancos parceiros. A Porto já conseguiu uma licença para operar como uma instituição financeira — apesar de, por enquanto, atender por meio de um aplicativo bancário.
O banco oferece produtos como cartões de crédito, fiança locatícia, consórcios e previdência privada, consolidando-se como uma alternativa completa dentro do ecossistema da Porto.
Na área de Seguros, a mais tradicional, a liderança da Porto faz com que a empresa hoje pense em novas maneiras de atender, por meio da marca Azul, além de buscar novos formas de benefícios e treinamento para os corretores de seguros.
Já a Porto Saúde segue pelo mesmo sentido, mas em um caminho próprio. Há produtos pensados para empresas com muitos funcionários, poucos, e até um plano Bairros está no forno.
“Pense que é um plano pensado, por exemplo, para atender moradores de Moema [bairro da capital paulista], que concentra ali os melhores hospitais, médicos e laboratórios da região”, conta Damadi. “Para muitas empresas, talvez com um ou dois funcionários, essa opção fará mais sentido”.
Percebe que todos esses serviços acabam, de alguma forma, conversando uns com os outros — e, principalmente, com a Asset? O objetivo é mesmo ganhar capilaridade e, com o tempo, atrair mais gente para algumas das várias portas abertas pela holding.
“Queremos que o cliente do banco invista em nossa Asset e use nosso plano, ou o contrário”, conta o CFO. “Para nós não importa o que você queira usar, contanto que use Porto”, brinca.
A estratégia de diversificação aliada à sinergia entre os negócios tem rendido bons resultados. Apenas entre julho e setembro de 2024, o lucro líquido da companhia foi de R$ 739,1 milhões, um crescimento de 32,3% frente ao mesmo período de 2023, com um ROAE (Retorno sobre o Patrimônio Médio) de 22,9%.
A Unidade Porto Seguro foi responsável por 59,3% da composição do resultado do terceiro trimestre, seguida por Porto Bank (22,8%), Porto Saúde (10,6%) e Porto Serviço (7,2%).
Nos nove primeiros meses de 2024, o lucro líquido atingiu a marca de R$ 2 bilhões, um aumento de 25,2% em relação aos primeiros nove meses de 2023. Já o ROAE foi de 20,4% no período, constituído por uma rentabilidade sobre o patrimônio acima de 20% em todas as verticais, tanto no trimestre quanto no acumulado do ano.
De janeiro a setembro, a expansão da receita da holding foi de 12,9%, em relação ao mesmo período do ano anterior, o que acumula R$ 27,1 bilhões. O aumento de receitas se deu pela ampliação da base de clientes, 18 milhões no total.
● Receita total: R$ 9,5 bilhões (+11%)
● Receita total Porto Seguro: R$ 5,5 bilhões (-0,2%)
● Receita Porto Saúde: R$ 1,7 bilhão (+41,5%)
● Receita Porto Bank: R$ 1,5 bilhão (+24,1%)
● Receita Porto Serviço: R$ 620,1 milhões
No terceiro trimestre, a unidade Porto Seguro registrou uma receita praticamente estável, com crescimento de 8,1% no seguro Patrimonial e de 10,4% no seguro de Vida.
Na Porto Saúde, as receitas cresceram 41,5%, em relação ao terceiro trimestre de 2023, impulsionadas pelo aumento de 25% dos beneficiários no Seguro Saúde, com 641 mil vidas seguradas e favorecidas também pela expansão de 28,4% nos beneficiários do Seguro Odonto — 946 mil, no total.
No Porto Bank as receitas expandiram 24,1% no período, com destaque para o avanço de 37,6% das vendas de consórcio, enquanto nas demais operações, como Crédito, Riscos Financeiros e Capitalização, o salto foi de 20% em todos os negócios.
Para fechar, a Porto Serviço alcançou uma receita de R$ 620,1 milhões e realizou 1,3 milhão de serviços no trimestre.
Vale lembrar aqui que duas empresas do grupo, Porto Saúde e Porto Serviço, já estão listadas na bolsa, mas ainda sem que emissão de ações tenham sido feitas, “para que a gente possa fazer o IPO quando acharmos conveniente”, como explica Damadi.
Por enquanto, no entanto, não há intenção de um IPO, como já foi feito com a Porto Seguro.
Dias atrás, saiu na imprensa uma suposta negociação da Porto Saúde com fundos de private equity com possíveis acionistas minoritários, dispostos a desembolsar R$ 1 bilhão por uma fatia da empresa. Oficialmente, a holding nega as tratativas.
Verdade ou não, a única certeza é que o grupo não vai querer dar um passo em falso. Assim como aprendeu a calcular todas as probabilidades de dar ruim com o seguro do carro de uma pessoa específica, que mora em um endereço específico e com hábitos e idade específicos, a única certeza é que a Porto deve calcular bem a mão de quem quer apertar no futuro.
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