Inflação perde força, mas economia também: gestores têm motivos para ficar otimistas com Brasil, mas com cautela
Política monetária mais dura, inflação em desaceleração e dólar pressionado — confira os principais calls de investimento da Kinea, Itaú Asset e Porto Asset

A política monetária no Brasil está razoavelmente traçada — pelo menos na avaliação dos gestores. Mas isso não significa que não haja oportunidades. Com a inflação perdendo força e o juro real acima de 10%, o consenso entre profissionais de grandes casas como Itaú Asset, Kinea e Porto Asset é claro: a hora é de aplicar nos juros e olhar com atenção para o dólar.
Bruno Serra, ex-diretor do Banco Central e atual portfolio manager da Itaú Asset; Marco Freire, gestor da Kinea; e Gustavo Okuyama, head de renda fixa da Porto Asset, debateram os principais assuntos da macroeconomia brasileira e internacional em painel do evento Porto Asset Day, nesta quinta-feira (8).
O ciclo de política monetária no Brasil vive um momento estável. O Banco Central mantém o tom mais duro de manutenção dos juros em 15% ao ano, embora as expectativas de corte já estejam estabelecidas.
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Para Serra, a autoridade monetária "está colhendo os frutos" dessa postura firme e ganhou espaço para cortes futuros com alguma folga, de modo que não comprometa o cenário restritivo da economia por um tempo posterior à queda inicial.
O resultado disso deve aparecer nos próximos meses: uma inflação abaixo do esperado, diz o ex-BC.
A projeção do Itaú Asset para 2025 é de 4,5% no fechamento do IPCA, menor do que a estimativa do Focus (5,07%) e do próprio Banco Central (4,9%).
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Apesar disso, Serra acredita que o Comitê de Política Monetária (Copom) deveria esperar até março de 2026 para começar a cortar os juros no Brasil.
“O BC pode até ser pressionado a cortar em dezembro, mas não deveria. A desinflação vai continuar e ganhar força”, afirma.
A visão macro dos gestores para o Brasil
Serra diz que o momento é de surfar a desinflação e aponta a estratégia do Itaú Asset. A casa está aplicada em prefixados, pois espera cortes mais intensos nos juros. Na ponta de inflação, está vendendo títulos de inflação de curto prazo.
Na Kinea, Freire acredita que o nível atual de juro real — acima de 10% — é muito contracionista. “Está muito restritivo. A conta não fecha. A economia vai começar a cair”, afirma.
Para ele, não importa se o corte começa em dezembro ou março: há muito espaço para corte.
A casa trabalha com um cenário de cinco cortes de 0,50 ponto a partir de abril, mas vê risco para antecipação ou maior intensidade de queda — até mesmo cortes de 1 ponto por reunião.
“O juro real de 10% não está certo. A assimetria de risco está para o corte vir antes ou mais forte. Tem que estar aplicado em juros”, diz Freire.
Okuyama, da Porto Asset, concorda. Ele vê a postura do BC como crível e projeta um ciclo de queda de 350 pontos-base na Selic a partir de março.
Estados Unidos com problemas institucionais
Se no Brasil o debate gira em torno da Selic, nos Estados Unidos o foco está na combinação entre guerra comercial e fragilidade institucional.
Segundo Serra, a política de deportações já começa a impactar o mercado de trabalho. O payroll divulgado na sexta-feira (1) foi o mais fraco desde a pandemia.
Com menos imigrantes, tem menos força de trabalho. Mas não só. A política também afeta a entrada de estudantes que também é um motor para a economia americana, pontua o ex-BC.
A projeção da Itaú Asset é de um crescimento abaixo de 1% para o Produto Interno Bruto (PIB) dos EUA em 2025.
O choque inflacionário deve corroer a renda, e o enfraquecimento do mercado de trabalho tende a pressionar o Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA) a cortar juros.
Junto a essa expectativa de afrouxamento monetário também entra a mudança da presidência do Fed no próximo ano. Enquanto o atual presidente Jerome Powell é uma muralha frente às vontades de Trump, o novo nome será indicado pelo republicano.
“Ele [Trump] vai perguntar: quem vai cortar mais juros para mim? 100, 200 ou 300 pontos? Quem prometer mais, leva a cadeira”, ironiza Bruno Serra.
Vale lembrar que Powell foi indicado por Trump no primeiro mandato com a mesma missão de manter os juros baixos nos EUA. Ele substituiu Janet Yellen no comando do Fed, que também era duramente criticada pelo republicano por manter juros elevados.
E o dólar nessa confusão?
Com o mercado de trabalho norte-americano perdendo tração, o dólar deve cair nos próximos meses, segundo os gestores.
Freire lembra que a surpresa recente no payroll foi significativa e indicou fraqueza real na economia. “Juros para baixo é ruim para o dólar”, resume.
O gestor da Kinea também critica a guerra comercial de Trump, que acredita estar “com 30 anos de atraso”. Para ele, o foco do governo Trump está em empregos industriais que já não fazem mais sentido, enquanto o mundo real caminha para uma transição rápida com inteligência artificial no centro da produtividade.
“O curto prazo é ruim para o dólar, porque as instituições estão sendo testadas. Mas o longo prazo ainda é dos EUA, porque ninguém vai ganhar essa corrida da IA senão eles”, afirma Freire.
O momento exige atenção redobrada ao comportamento dos bancos centrais, mas também aos sinais de desaceleração econômica — tanto aqui quanto lá fora.
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