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A ÚLTIMA DECISÃO DO FED DE 2024

Ainda estou aqui: o recado do maior banco central do mundo sobre os juros antes da chegada de Trump e que derrubou as bolsas e fez o dólar disparar

O Federal Reserve cortou os juros em 25 pontos-base como indicavam as apostas do mercado e dá um spoiler do que pode acontecer a partir de 2025, quando o governo norte-americano será comandado pelo republicano

Imagem mostra Jerome Powell como grande estrela do mercado financeiro
Imagem: Shutterstock, com intervenções de Andrei Morais

Mesmo que você não seja ligado ao cinema, é praticamente impossível ignorar o sucesso de “Ainda estou aqui”, que recebeu, junto com a atriz Fernanda Torres, indicações ao Globo de Ouro e flerta com o Oscar. Muito menos estelar do que o filme brasileiro, a decisão dos juros do Federal Reserve (Fed) desta quarta-feira (18) também será difícil de ser ignorada — especialmente por Donald Trump.

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Na última reunião de 2024, o banco central norte-americano seguiu o roteiro: cortou os juros em 25 pontos-base (pb), devolvendo a taxa para o mesmo patamar de dezembro de 2022, colocando-a na faixa entre 4,25% e 4,50% ao ano.

Pela segunda reunião consecutiva, um membro do comitê de política monetária (Fomc, na sigla em inglês) discordou da decisão: a presidente do Fed de Cleveland, Beth Hammack, votou para que o Fed mantivesse inalterada. Em novembro, Michelle Bowman não endossou o corte de 25 pb, na primeira vez que uma diretora votou contra uma decisão desde 2005.

Apesar de não ter sido unânime, o terceiro corte consecutivo dos juros na maior economia do mundo vem com um recado: o Fed ainda está aqui. 

Só que diferente do filme, que conta uma história que todos nós já sabemos o final, o que acontece a partir de agora na política monetária dos EUA é uma incógnita — e muito tem a ver com o fato de as promessas de Trump para o segundo mandato terem o potencial de acelerar uma inflação que já dá sinais de reaquecimento.

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A reação da plateia foi digna de um filme arrasa-quarteirão. Wall Street passou a operar no vermelho, com o S&P 500, o Nasdaq e o Dow Jones recuando mais de 1% cada.

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O índice DXY, que mede o dólar ante uma cesta de rivais fortes, também subiu 1%, enquanto os yields (retornos) dos títulos do Tesouro dos EUA aceleraram os ganhos, renovando máximas intradiárias. O T-note de dez anos, referência do mercado, chegou a tocar nos 4,50%.

Já o VIX, índice conhecido como termômetro do medo em Wall Street, saltou mais de 20% na tarde de hoje.

Por aqui, o dólar no mercado à vista renovou máxima ao atingir R$ 6,2707 (+2,86%). A moeda norte-americana fechou o dia cotada a R$ 6,2657 (+2,78%).

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O Ibovespa renovou uma série de mínimas do dia, chegando ao piso da sessão, aos 120.941,73 pontos (-3,01%). O principal índice da bolsa brasileira fechou o dia com baixa de 3,15%, aos 120.771,88 pontos.

A decisão dos juros veio com spoiler

“Ainda estou aqui” é baseado no livro de Marcelo Rubens Paiva, em que ele conta a história da própria família — portanto, seu sucesso nada tem a ver com um desfecho surpreendente ou inesperado. 

Ainda assim, qualquer um que assista o filme não quer spoiler — algo bem diferente da decisão do Fed de hoje. Tudo o que o mercado deseja é saber o que o aguarda em 2025 — no caso da política monetária, surpresas nunca são bem-vindas. 

O comunicado de hoje mudou pouco, exceto por um ajuste em relação à "extensão e ao momento" de novas mudanças nos juros — uma ligeira alteração na linguagem em relação à reunião de novembro.

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Acontece que a decisão veio acompanhada das últimas projeções econômicas do Fomc do ano — e elas dizem muito sobre o que pode acontecer a partir de 2025 nos EUA de Trump

O ponto alto das projeções é o dot plot. O chamado gráfico de pontos dá uma ideia do que os membros do Fomc esperam para os juros na maior economia do mundo. 

Ao entregar o corte de 25 bp de hoje, o Fed indicou que provavelmente reduzirá a taxa apenas mais duas vezes em 2025 — uma projeção que caiu pela metade em relação às intenções do comitê quando o dot plot foi atualizado pela última vez, em setembro.

Assumindo reduções de 25 bp, as autoridades indicaram mais dois cortes em 2026 e outro em 2027. No longo prazo, o comitê vê a taxa de juros neutra — aquela que não superaquece e nem esfria a economia — em 3%, 0,1 ponto percentual a mais do que a atualização de setembro.

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O Fed divulga projeções a cada três meses — a última vez que isso aconteceu foi em setembro. Confira o que mudou de lá para cá segundo as previsões atualizadas hoje:

Juros

  • 2025: 3,9% de 3,4% previstos em setembro
  • 2026: 3,4% de 2,9% previstos em setembro
  • 2027: 3,1% de 2,9% previstos em setembro
  • Longo prazo: 3,0% de 2,9% previstos em setembro

PIB dos EUA

  • 2025: 2,1% de 2,0% previstos em setembro
  • 2026: mantido em 2,0%
  • 2027: 1,9% de 2,0% previstos em setembro
  • Longo prazo: mantido em 1,8%

Inflação medida pelo PCE

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  • 2025: 2,5% de 2,1% previstos em setembro
  • 2026: 2,1% de 2,0% previstos em setembro
  • 2027: mantido em 2,0%
  • Longo prazo: mantido em 2,0%

Taxa de desemprego

  • 2025: 4,3% de 4,4% previstos em setembro
  • 2026: mantido em 4,3%
  • 2027: 4,3% de 4,2% previstos em setembro
  • Longo prazo: mantida em 4,2%

O corte de juros desta quarta ocorreu mesmo que o Fomc tenha aumentado a projeção para o crescimento do PIB de 2024 para 2,5%, meio ponto percentual a mais do que setembro. No entanto, nos anos seguintes, os membros do comitê esperam que as economia norte-americana desacelere para a projeção de longo prazo de 1,8%.

Outras mudanças nas projeções fizeram com que o Fomc reduzisse a estimativa para a taxa de desemprego em 2024 de 4,4% para 4,2%, enquanto a inflação foi empurrada para cima, de 2,3% para 2,4% neste ano.

Vale destacar que, embora essas condições sejam mais consistentes com a manutenção ou aumento dos juros, os membros do Fomc estão cautelosos com o aperto monetário, já que não desejam arriscar uma desaceleração desnecessária na economia norte-americana.

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FARIA LIMA VS. GOVERNO LULA: O que está na cabeça dos principais gestores de fundos

Powell ainda está aqui

Trump toma posse em 20 de janeiro de 2025. A próxima reunião do Fomc acontece depois disso, nos dias 28 e 29 de janeiro. 

O retorno do republicano representa muito mais do que a já conhecida relação tempestuosa com o Fed e com o próprio presidente da instituição, Jerome Powell — o novo chefe da Casa Branca é um crítico contumaz da política monetária norte-americana.

Dessa vez, Trump traz consigo um pacote de medidas que prometem dificultar — e muito — a vida dos membros do BC norte-americano. 

Aumento de tarifas, corte de impostos e uma política de imigração mais dura são apenas algumas das principais medidas que o presidente eleito promete emplacar assim que sentar à mesa do Salão Oval e começar a assinar decretos.

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Todas essas medidas, que, por ora, ainda estão no campo das promessas, têm o potencial de acelerar uma inflação que volta a deixar o Fed e o mercado atentos. 

Ao conceder a última coletiva do ano, Powell endereçou essas e outras preocupações. 

O chefão do Fed começou suas declarações reafirmando o compromisso em levar a inflação dos EUA para 2% ao ano.

De acordo com ele, a economia norte-americana está forte e fez progressos significativos em direção aos objetivos do BC: o mercado de trabalho esfriou, embora continue sólido, e a inflação se aproximou mais da meta de longo prazo.

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"Estamos comprometidos em manter a força da nossa economia apoiando o pleno emprego e devolvendo a inflação à meta de 2%", afirmou.

Powell destacou ainda que um amplo conjunto de indicadores sugere que as condições no mercado de trabalho estão agora menos aquecidas do que em 2019. "O mercado de trabalho não é uma fonte de pressão inflacionária significativa", disse.

O chefão do Fed também mandou um recado ao mercado: as projeções para os juros não conduzem as decisões do Fomc.

"Essas projeções não são um plano ou a decisão do comitê, pois à medida que a economia evolui, a política monetária se ajustará para promover melhor nossas metas de pleno emprego e estabilidade de preços", disse Powell.

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