Após 15 anos — e muito juro pela frente —, IPO do Bradesco Seguros pode finalmente sair do papel? Bancões têm altas expectativas que sim
Oferta colocaria banco ao lado de outras instituições que já tem seus segmentos de seguros com capital aberto em bolsa

A seca de ofertas públicas de ações — ou IPOs, na sigla em inglês — se prolonga desde 2021 na bolsa brasileira e a perspectiva de juros mais elevados por mais tempo não inspira um cenário muito favorável pela frente. Mesmo assim, analistas do mercado financeiro acordaram com uma possível oferta vinda do Bradesco (BBDC4).
Isso porque o CEO do segmento de seguros do banco, Ivan Gontijo, concedeu uma entrevista para a Folha de São Paulo levantando essa possibilidade. No entanto, o próprio executivo admitiu que a abertura de capital depende das condições do mercado.
Porém, essa sinalização abre porta para mais uma possibilidade de investimento.
Afinal, o segmento de seguros do banco brasileiro inclui o Bradesco Saúde, o Bradesco Seguros Residencial e Veicular, o Bradesco Vida e Previdência, o Bradesco Capitalização, o BSP Empreendimentos Imobiliários e a Atlântica Hospitais.
Além disso, essa é uma forma de o Bradesco se expor a um setor que já tem penetração de outras instituições, como o Banco do Brasil (BBAS3), através do BB Seguridade (BBSE3) —, e a Caixa Econômica, com o Caixa Seguridade (CXSE3).
Mas hoje não é um bom dia para avaliar se o mercado está preparado ou mesmo disposto a arriscar. Após o banco central elevar os juros para 12,25% ao ano e o presidente Lula passar por mais uma cirurgia, o dia é de sangria para os ativos de risco.
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Bradesco no ramo de seguros é uma boa?
Os analistas do BTG Pactual se debruçaram nos dados do ramo de seguros do Bradesco e, atualmente, uma parcela significativa dos lucros do banco vem desse setor.
No acumulado dos primeiros nove meses de 2024, só a unidade de seguros registrou um lucro líquido de R$ 6,5 bilhões — 45% do total de R$ 14,2 bilhões para todo o conglomerado. Veja o resultado do Bradesco no 3T24.
“O IPO do Bradesco Seguros é um tema antigo. Ouvimos falar [dessa possibilidade] há pelo menos 15 anos. Mas, de fato, faz sentido acreditar que essas discussões poderiam realmente ressurgir, apesar das atuais (ruins) condições de mercado”, escrevem os analistas do banco.
Além disso, o negócio de seguros está indo muito bem, com um desempenho notável nos últimos trimestres e anos, de acordo com o BTG.
Em 2023, o lucro líquido do segmento cresceu 32% na comparação anual, com seu retorno sobre o patrimônio líquido (ROE, na sigla em inglês) melhorando de 18,9% em 2022 para 22,4% em 2023. Somente no terceiro trimestre de 2024, o ROE foi de 23,7%.
Se expor ao ramo de seguros é uma alternativa com os juros altos
Da mesma forma, os especialistas do Itaú BBA enxergam como um momento oportuno para o Bradesco se expor ao segmento de seguros com o IPO desta unidade.
“Nos últimos meses, em meio à alta das taxas de juros e a um cenário macroeconômico mais fraco, as subsidiárias de seguros de grandes bancos — como a BB Seguridade (Banco do Brasil) e a Caixa Seguridade (Caixa Econômica) — ganharam maior interesse e valorização crescente”, dizem os analistas.
Eles explicam que esses modelos de negócios tendem a ser mais estáveis, se beneficiando de taxas de juros mais altas no curto prazo, “agora se destacam entre nossa cobertura”, escrevem.
O próprio BTG destaca que o segmento de seguros do Banco do Brasil é a melhor forma de se expor ao banco público. Nas contas da instituição, cada aumento de 1% na taxa de juros tem o potencial de aumentar o lucro consolidado em R$ 100 milhões, dizem os analistas.
Ainda que sejam negócios diferentes, ambos atuam no mesmo ramo e devem se beneficiar do mesmo cenário, com maior ou menor eficiência.
Para o Itaú BBA, a operação não deve movimentar grandes volumes de capital em si, mas manter o Bradesco exposto ao segmento de seguros em um momento particularmente difícil para o mercado em geral — e isto pode gerar valor no longo prazo.
Na ponta do lápis do Bradesco
Assim, a expectativa do Itaú BBA é de que o valuation do Bradesco Seguros deve ficar mais próximo dos múltiplos apresentados pelo BB Seguridade e Caixa Seguridade do que com os de seguradoras de saúde puras.
“Dado seu mix de receita diversificado e o peso relativo dos negócios de vida e pensões, acreditamos que a valorização da Bradesco Seguros deve se alinhar mais com os múltiplos da BB Seguridade e da Caixa Seguridade do que com os das seguradoras de saúde puras”. afirmam os analistas em relatório.
Com essa perspectiva, o Itaú BBA assume um múltiplo de 9x P/L (preço sobre lucro), o que implica em um valuation de R$ 90 bilhões aproximadamente, levando em conta as projeções de ganhos para o fim de 2025.
Esse IPO poderia, inclusive, destravar um valor de até R$ 45 bilhões para o Bradesco — ou 35% do atual valor de mercado do banco —, assumindo um preço por ação de R$ 12,7.
“Esses números se refletem em um ROE historicamente baixo — e como o valuation do segmento de seguros são importantes para a história do banco”, escrevem os analistas.
Vale dizer que o Itaú BBA tem recomendação de outperform, o equivalente a compra, para os papéis do BBDC4, com preço-alvo em R$ 16,00, o que representa um potencial de alta de cerca de 28%.
Já o BTG mantém recomendação neutra para o banco, com um preço-alvo de R$ 17,00, o uma valorização potencial de 36,2% em relação às cotações de fechamento da última quarta-feira (11).
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