Investidor prefere renda fixa no 1º trimestre mesmo com juros mais baixos – e títulos isentos como LCI, LCA, CRI e CRA foram as estrelas
Crescimento do volume alocado em títulos de renda fixa isenta se destacou ante o desempenho de ações e fundos mais arriscados; poupança perdeu participação no volume investido pela pessoa física

Mesmo com a Selic em queda e as mudanças nas regras de títulos isentos como LCI, LCA, CRI e CRA, o investidor pessoa física brasileiro continuou preferindo a renda fixa no primeiro trimestre deste ano, como atesta o crescimento do volume alocado nesses ativos no período.
Segundo dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), o volume investido por pessoas físicas em Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRA) cresceu 19,9% no primeiro trimestre, para R$ 111,3 bilhões, enquanto o valor alocado em Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRI) subiu 17,5%, para R$ 73,4 bilhões.
Já a alocação em Letras de Crédito Imobiliário (LCI) aumentou 15,7%, somando R$ 330,5 bilhões ao final do trimestre, e o volume investido em Letras de Crédito do Agronegócio (LCA) cresceu 5,2%, para R$ 435,4 bilhões.
Ainda entre os instrumentos isentos, as debêntures incentivadas viram crescimento de 9,1% no trimestre, para R$ R$ 71,7 bilhões, e as debêntures tradicionais (sem isenção) cresceram 15,4%, para R$ 40,4 bilhões.
Os tradicionais e populares Certificados de Depósito Bancário (CDBs) cresceram 7,2% em volume, para R$ 923,5 bilhões ao final do primeiro trimestre, enquanto os títulos públicos viram alta de 10,2%, para R$ 162,6 bilhões.
O crescimento dos volumes alocados em ativos de mais risco, por sua vez, não teve o mesmo brilho. Os investimentos em ações cresceram apenas 2,2%, para R$ 712,1 bilhões, no primeiro trimestre.
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Entre os fundos de investimento mais arriscados, os multimercados e os de ações ficaram com volume praticamente estável no período. Os primeiros viram o volume crescer apenas 0,8%, para R$ 633,7 bilhões, e os acionários viram recuo de 0,6% no volume, somando R$ 246,2 bilhões.
Na renda variável, o crescimento mais significativo se deu entre os fundos imobiliários (alta de 16,9%, para R$ 106,1 bilhões) e os Fundos de Investimento em Participações (FIPs) (alta de 19,9%, para R$ 32,9 bilhões). Já os fundos de renda fixa viram crescimento de 13,3%, para R$ 645,2 bilhões.
Desempenho das ações no primeiro trimestre desanimou
O crescimento modesto do volume alocado em ativos de risco por pessoas físicas no primeiro trimestre pode ser atribuído ao fato de que, após um fim de ano de otimismo em relação à bolsa, o humor do mercado mudou no início de 2024, à medida que dados de atividade e inflação nos Estados Unidos vinham mostrando uma economia mais aquecida do que o esperado.
Assim, os juros futuros subiram no Brasil e no exterior conforme o mercado ia jogando para frente a previsão de início nos cortes nas taxas de juros americanas, ainda que aqui a Selic tenha mantido seu ritmo de queda, recuando 1 ponto percentual no primeiro tri, de 11,75% para 10,75% ao ano.
Com isso, o Ibovespa fechou o período em baixa de 4,53%. Ao mesmo tempo, embora os títulos de renda fixa prefixados e indexados à inflação tenham seus preços negativamente impactados pelo aumento dos juros futuros, suas taxas ficaram ainda mais gordas e atrativas.
Assim, por um lado a Selic mais baixa reduziu o retorno das aplicações pós-fixadas (que pagam um percentual da Selic ou do CDI), mas ainda se mantinha nos dois dígitos, um patamar elevado; por outro, a alta dos juros futuros elevou as taxas prometidas pelas aplicações prefixadas e indexadas à inflação, atraindo o investidor.
Como exceção na renda variável, os fundos imobiliários tiveram um bom desempenho no primeiro trimestre, com o principal índice do setor, o IFIX, fechando em alta de quase 3%.
O setor viu um ressurgimento dos fundos de tijolo (que investem em imóveis) com as perspectivas de mais cortes na Selic, ao mesmo tempo que também conseguiu se expor aos maiores retornos da renda fixa atrelada ao mercado imobiliário (CRIs e LCIs).
Mudança em CRI, CRA, LCI e LCA agitou o mercado
Para além dos fatores macroeconômicos, mudanças nas regras de CRI, CRA, LCI e LCA implementadas pelo Conselho Monetário Nacional (CMN) em fevereiro acabou, contraintuitivamente, atraindo o investidor ainda mais para os ativos isentos.
O governo resolveu restringir os tipos de emissores e garantias de CRIs e CRAs, o que, ao menos num primeiro momento, reduziu a oferta desse tipo de papel e, consequentemente, acabou impulsionando seus preços.
Já no caso das LCIs e LCAs, os prazos de carência, durante os quais não é possível pedir resgate, subiram de três meses para 12 e 9 meses, respectivamente. Mas nem por isso o investidor deixou de demandar esse tipo de papel.
As mudanças em CRI, CRA, LCI e LCA acabaram afetando também o mercado de debêntures incentivadas. Embora não tenham sofrido mudanças de regras, esses títulos de dívida isentos de IR tornaram-se uma segunda opção para os investidores, o que também contribuiu para a alta nos seus preços.
Quanto às debêntures tradicionais e não isentas, a Anbima observa que o aumento no volume alocado no primeiro trimestre se deveu principalmente ao investidor de varejo, que ampliou a aplicação em 44,8%. No segmento private, o produto registrou na verdade um recuo de 1,9%.
“As mudanças nas regras para a emissão dos isentos favoreceram a busca dos investidores, especialmente os de varejo, pelas debêntures. No private, esse movimento não aconteceu em função da maior diversificação da carteira”, explicou Ademir A. Correa Júnior, presidente do Fórum de Distribuição da Anbima, em nota.
Poupança perdeu participação na carteira do investidor pessoa física
O investimento total das pessoas físicas no Brasil cresceu 6,1% no primeiro trimestre de 2024 em relação ao último trimestre de 2023, totalizando R$ 6,8 trilhões, segundo a Anbima.
Os clientes de private banking, mais endinheirados, aumentaram seu volume investido em 7,4% no período, para R$ 2,2 trilhões, enquanto o varejo somou R$ 4,6 trilhões, alta de 5,5% na comparação trimestral.
A maior parte da carteira (45,3% ou R$ 3,1 trilhões) esteve alocada em títulos e valores mobiliários, uma alta de 7,4% em relação ao fechamento de 2023.
Em seguida, vieram os fundos de investimento, que compõem 24,9% do volume total investido, ou R$ 1,7 trilhão, uma alta de 6,4% no trimestre.
Com uma fatia de 16% do volume investido (R$ 1,1 trilhão), a previdência privada avançou 7,6% no período.
Já a caderneta de poupança, aplicação financeira mais popular do país, perdeu espaço. O volume alocado em poupança, que em dezembro respondia por 14,5% do volume dos investimentos das pessoas físicas, no fim de março correspondia a 13,6% do valor investido, totalizando R$ 917,5 bilhões.
“A conjuntura econômica do primeiro trimestre, com queda na inflação e na taxa de juros, contribuiu para aumentar a confiança do investidor que, além de ampliar o volume aplicado, diversificou mais a carteira”, afirmou Correa Júnior, na nota.
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