Doping Corporativo: será que você está competindo em desvantagem?
Na contramão do fair play das Olimpíadas, profissionais do mundo corporativo tem recorrido ao uso de remédios e substâncias para o ganho de performance

As Olimpíadas estão a todo vapor, e nossas TVs e computadores reproduzem verdadeiros espetáculos dos melhores atletas do mundo em suas modalidades. Saltos ornamentais, ginástica artística e atletismo são apenas algumas das competições que me deixam atônito ao assistir.
Corpos que parecem desafiar as leis da física, tamanha a capacidade de elasticidade, força, equilíbrio e explosão. Com uma característica em comum entre todos eles: a performance elevada ao mais alto nível. Nossos olhos mal conseguem acompanhar algumas apresentações.
Nesse espírito olímpico, as analogias surgem com frequência nas redes sociais. Gostaria de passar ileso e não sobrecarregar o mundo com mais uma, mas talvez eu me arrependesse de perder a oportunidade de falar sobre um tema que vem habitando minha mente: o doping corporativo.
Considero este um momento oportuno para abordar o assunto, com as Olimpíadas em andamento, em que o uso de substâncias que afetam a performance dos atletas é rigorosamente proibido, a fim de garantir a equidade nas competições, preservar a integridade do esporte e proteger a saúde dos atletas.
Indo na contramão desse fair play, os atletas profissionais do mundo corporativo tem recorrido ao uso de remédios e substâncias para o ganho de performance.
Em uma pesquisa rápida, você encontrará algumas matérias destacando o crescente uso de medicamentos como o Venvanse, uma anfetamina prescrita principalmente para tratar o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) e compulsão alimentar, no ambiente corporativo, especialmente entre pessoas que buscam aumentar o foco e a produtividade, mesmo sem possuírem diagnósticos médicos que justifiquem o uso.
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É cada vez mais comum ouvir relatos de colegas que ilustram como a pressão por alta performance tem levado ao uso desses medicamentos, inclusive estimulando a criação de um comércio ilegal, via plataformas como o Telegram, onde o remédio é vendido a preços elevados e até com prescrições médicas falsificadas, expondo os usuários a sérios riscos legais e de saúde.
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Mas e aí, é justo competir com pessoas sob o efeito dessas substâncias?
Há estudos que alertam que a sensação de melhora na produtividade para quem não tem TDAH é ilusória, não havendo evidências científicas de que realmente há uma diferenciação na performance.
Ou seja, não dá para concluir que estamos diante de uma competição desleal com aqueles que fazem uso do remédio sem um diagnóstico que o justifique.
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Fora das Olimpíadas: como chegamos até aqui?
Para mim, essa discussão escancara a forma como temos lidado com a concepção de trabalho e produtividade.
A busca incessante por resultados rápidos e a cultura do "sempre mais" têm transformado o ambiente corporativo em uma arena de competição com expectativas cada vez mais irreais.
O uso de substâncias para aumentar a performance reflete o quanto estamos dispostos a sacrificar nossa saúde e ética para alcançar metas que parecem inalcançáveis. Mas a que custo?
Assim como no esporte, em que o doping é severamente punido para garantir a integridade da competição, as corporações, que temem construir um ambiente de performance onde seus funcionários passem a adotar esse tipo de recurso para elevar o desempenho, deveriam investir na construção de uma cultura que tenha direcionadores claros sobre produtividade, mantendo a saúde e o bem-estar de seus colaboradores também como valores inegociáveis.
Um possível caminho para viabilizar essa cultura começa com uma liderança que reconhece a importância da saúde mental e é guiada por um sistema de avaliação que valorize a performance de maneira mais ampla e integrada. Para alcançar resultados, nossa integridade não deveria estar em xeque.
Até a próxima,
Thiago Veras
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