O que a tragédia de um fundo do Pátria ensina aos investidores? Veja cuidados ao investir na classe
Os cotistas do Special Opportunities II viram as cotas do fundo, que antes estavam em R$ 10,55, ficarem negativas em R$ 301,04 nesta semana

Um dos maiores temores de qualquer investidor — seja ele uma pessoa física com uma carteira ainda modesta ou um profissional com milhões aplicados no mercado — é ver um de seus ativos virarem pó da noite para o dia.
Esse pesadelo tornou-se realidade recentemente para os cotistas do Special Opportunities II, um Fundo de Investimento em Participações (FIP) do Pátria Investimentos.
As cotas, que antes estavam em R$ 10,55, ficaram negativas em R$ 301,04 nesta semana após uma operação da gestora para se desfazer do portfólio.
“No âmbito da referida transação, os fundos de investimento envolvidos tiveram suas cotas impactadas em decorrência dos custos, os quais inclusive demandaram aporte na companhia para viabilizá-la”, diz o Pátria, em nota enviada ao Seu Dinheiro.
Ou seja, não só os investidores perderam todo o capital aplicado como ainda podem ter de participar de uma nova rodada de captação para quitar as obrigações financeiras e encerrar o ativo, conforme explica Bruno Mérola, analista da Empiricus Research.
Especialista em fundos, Mérola ressalta que, de acordo com a regulação atual do Brasil, a gestora pode chamar capital dos cotistas. De acordo com fontes ouvidas pela imprensa, o Pátria já está em contato com os investidores para estruturar uma captação de cerca de R$ 15 milhões.
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Várias tentativas, uma tese
Vale relembrar que o Special Opportunies II foi criado em 2020 para investir no segmento de shopping centers por meio de uma empresa chamada Tenco, com atuação focada em cidades de médio porte, e apoiar uma tese que já apresentava problemas.
O Pátria começou a exposição à rede de shoppings em 2007 por meio de um fundo de private equity. Com um bom desempenho da operação até então, a gestora lançou o Special Opportunities I em 2012 e aportou R$ 1 bilhão na Tenco.
Mas o negócio passou a enfrentar dificuldades a partir de então e a situação piorou ainda mais durante a pandemia, quando a marcação dos ativos se aproximou de zero. A gestão, no entanto, ainda não estava disposta a desistir da tese e estruturou o Special Opportunities II.
Desacreditados do negócio, parte dos cotistas do primeiro fundo não embarcou no novo produto — alguns deles chegaram a entrar com um procedimento de arbitragem contra a companhia em 2020. Por isso, segundo informações do Brazil Journal, cerca de 70% dos R$ 106 milhões levantados pelo segundo ativo vieram dos próprios sócios do Pátria.
A nova captação, contudo, não foi capaz de salvar os shoppings, que voltaram a sofrer com as ondas subsequentes da pandemia de covid-19 e o fechamento dos empreendimentos.
Sem alternativa, a gestora começou a se desfazer dos ativos em um processo que culminou na negociação que levou as cotas do Special Opportunities II para patamares muito abaixo de zero.
A transação em questão envolveu quatro shoppings centers localizados nas cidades de Taubaté, Lages, Varginha e Bragança Paulista, e foi realizada na modalidade “porteira fechada” — ou seja, com a transferência de todos os ativos, passivos e obrigações.
O nome do comprador não foi revelado, mas, de acordo com a nota, ele “tem expertise em reestruturação de negócios e empresas do setor imobiliário”.
De acordo com fontes ouvidas pela imprensa, outros cinco fundos do Pátria também investiram na Tenco. A diferença é que, ao contrário do Special Opportunities II, os ativos tinham caixa para cobrir o prejuízo com a venda e evitar que o patrimônio entrasse em território negativo.
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Os riscos de investir em fundos concentrados como o do Pátria
Outra diferença entre o fundo que virou pó e alguns dos outros ativos que investiam na Tenco está na concentração do portfólio. Enquanto as outras carteiras eram diversificadas, a do Special Opportunities II era composta exclusivamente pelos shoppings ligados à empresa.
Para Bruno Mérola, a regra da diversificação deve ser aplicada em todas as classes de investimentos, mas especialmente quando se trata de fundos ou empresas fechadas, pois o número de informações disponíveis costuma ser pequeno.
“Ativos fechados não têm a obrigatoriedade de prestar informações como os listados, então o gestor de um fundo sabe coisas às quais um investidor pequeno não tem acesso”, explica o analista da Empiricus.
Por isso, Mérola não recomenda confiar completamente na precificação ou no valuation fornecido por fundos do tipo, e sim estudar a carteira e a governança para estimar a relação entre o risco e retorno.
O analista indica que, quem ainda assim prefere aplicar em ativos do tipo, deve limitá-los a uma parcela não muito representativa da carteira.
“Se vai investir em empresa fechada, tenha uma participação pequena. Se vai investir em um fundo fechado, aplique pouco. Se vai investir em algo que junte esses dois cenários, como era o caso do Special Opportunities II, coloque menos dinheiro ainda.”
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