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A Ford mudou de estratégia no Brasil e viu sua rentabilidade saltar no país; tanto é que, finalmente, será lançada por aqui a cobiçada F-150
Quando a Ford fechou as fábricas no Brasil, em janeiro de 2021, o clima era de consternação. Mais de 5 mil demissões, consequente encolhimento da rede de concessionários e muitas dúvidas.
Entre as justificativas para a debandada, a montadora culpou a alta ociosidade da indústria e a redução das vendas, resultando em anos de perdas significativas.
De protagonista em décadas passadas a coadjuvante, a Ford foi perdendo seu espaço no mercado para marcas mais novatas no Brasil, como Hyundai, Jeep e Toyota.
Mas, ao contrário do que muitos apostaram, a Ford viraria uma página de sua história em território nacional — e não foi para pior, apesar do portfólio limitado e somente de veículos importados a partir dessa decisão.
Além de manter algumas operações no Brasil, a Ford, depois de muito tempo, voltou a lucrar no país, o que deu respaldo e fôlego a uma nova operação brasileira.
Com isso, a marca conseguiu convencer a matriz a lançar 10 novos veículos no Brasil em 2023, o que, talvez, nunca teria acontecido se mantivesse as antigas instalações e modelos — que, apesar do volume, não eram suficientes para torná-la competitiva.
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Em produtos, o foco agora está em picapes e SUVs, com uma mira especial na eletrificação. Para isso, a marca norte-americana trabalha junto com a alemã Volkswagen em uma parceria para compartilhamento de plataformas eletrificadas.
Em breve, esses filhotes começam a chegar aos mercados internacionais — e, quem sabe, ao Brasil. Da Volks, deve nascer uma nova picape Amarok híbrida e elétrica, enquanto a Ford deve apostar numa Ranger eletrificada. O casamento também prevê a cooperação com SUVs plugados na tomada.
Voltando às novas estratégias da Ford no Brasil, o saldo positivo se deve, segundo seus executivos, a uma operação saudável na região. Em 2022, a Ford América do Sul atingiu US$ 410 milhões em lucro operacional (Ebit). Em 2021, após o fechamento das fábricas no Brasil, a marca do logotipo oval amargou prejuízo de US$ 121 milhões.
Sem Ka e EcoSport na vitrine, a tática foi apostar em veículos premium, como Bronco, Maverick, Territory, Mustang e Ranger (que teve redução de vendas devido ao anúncio da nova geração). A lógica do vender menos, mas vender melhor, tem servido bem à Ford.
Dos próximos lançamentos, além de uma versão híbrida da picape Maverick, que chega em breve, o inédito SUV Mustang Mach-E e a nova geração da Ranger para o segundo semestre, os holofotes se voltam para o veículo mais emplacado nos EUA, a picape F-150 — em pré-venda por aqui, com expectativa de entrega até o início de abril.
Para continuar crescendo, Daniel Justo, presidente da Ford América do Sul, disse que a marca investe em melhorias nas estruturas de vendas e pós-vendas. Seus 110 concessionários passam por modernização e o Centro de Desenvolvimento e Tecnologia da Ford, com unidades em Tatuí (São Paulo), Salvador e Camaçari (Bahia), busca gerar mais receitas e se tornar um polo exportador de inteligência automotiva.
Em 2022, as operações nacionais geraram receita de R$ 500 milhões, com os serviços prestados às demais unidades da Ford no mundo.
A Ford conta com 1.500 engenheiros brasileiros que atuam em projetos globais da marca — incluindo alguns veículos que podem nunca ser lançados por aqui —, apoiados nos pilares da eletrificação, conectividade e direção autônoma.
Entre os projetos desenvolvidos mais recentemente pela equipe brasileira, estão o design de futuros veículos elétricos da Lincoln, implementação de tecnologias eletrificadas em modelos para o mercado global e o desenvolvimento das futuras gerações do sistema multimídia.
O time brasileiro também atua na padronização de sensores, câmeras e radares de veículos autônomos, além de participar de pesquisas que geram novas patentes.
Os serviços de engenharia local ajudaram a engordar os cofres da companhia em R$ 500 milhões no ano passado. A Ford também transformou seu campo de provas em Tatuí (SP) em Centro de Desenvolvimento e Tecnologia, aberto a todas empresas interessadas em utilizar sua estrutura.
São 40 km de pistas de terra e 20 km pavimentadas, com capacidade para 440 tipos de testes — que vão de avaliação de durabilidade, calibração, desempenho e segurança, até homologação de veículos.
Há ainda laboratórios de emissões, desmontagem e análise de peças, dinamômetro de motores, vibroacústico e simulador de estradas para avaliação de suspensão, entre outros serviços.

Todo esse cenário e as novas estratégias tornaram a operação brasileira parruda para pleitear a importação de um dos modelos Ford mais desejados no mundo: a picape grande F-150, há mais de 40 anos o veículo mais vendido nos EUA.
Ou seja: a Ford precisava estar mais confiante não só em seus negócios, como também na demanda, para lançar a picape, que chega por aqui em abril, em duas versões.
As 500 primeiras unidades da F-150 foram esgotadas minutos após a abertura da pré-venda. Não seria tão espantoso caso não estivéssemos falando de um veículo que custa R$ 470 mil (na versão Lariat, mais esportiva, detalhes em preto nas rodas e grade) e R$ 490 mil na Platinum, mais luxuosa, com acabamentos cromados e mais equipada.
Conhecemos de perto este ícone do mercado, que certamente vai chamar muita a atenção nas ruas. A começar pelo tamanho: o utilitário mede 5,88 metros de comprimento, 2 metros de largura (sem espelhos) ou 2,43 metros (com os espelhos). Em shopping centers vai certamente ocupar duas vagas.
Alta e imponente, exibe na parte frontal capô musculoso e ampla grade em harmonia com os faróis full LED e as imensas rodas de 20 polegadas.
Sob o capô, a grandalhona é empurrada pelo mesmo conjunto do superesportivo Mustang: motor V8 a gasolina de 5 litros que rende 405 cv de potência e 56,7 kgfm de torque, acoplado à transmissão automática de 10 marchas e tração 4x4 — afinal, são 2,5 toneladas de peso.
Por falar em peso, a caçamba da F-150, que tem capacidade para 1.370 litros de volume, leva até 728 kg de carga na versão Lariat (ou 681 kg na Platinum), o que é pouco para uma picape. Por isso, ela não pode, pela legislação brasileira, vir com motor turbodiesel – permissão que é dada apenas a utilitários que transportem mais de 1 tonelada de carga.
A caçamba, aliás, que é toda feita com estrutura em alumínio de alta resistência, tem a abertura da tampa acionada pelo controle da chave, sem nenhum esforço. O compartimento, que vem sem cobertura (será vendida como item opcional), tem ganchos, iluminação de LED, nichos com trava e uma tomada de 110V.
Outro recurso importante é o inédito Pro Trailer, assistente de ré para reboque, que facilita a manobra da picape quando o motorista utiliza um trailer. A capacidade de reboque é de 3.515 kg.
Para rodar em terrenos fora do asfalto, a F-150 oferece tração integral com 4 modos: 4×2, 4×4 automático, 4×4 High e 4×4 Low. Há ainda 8 modos de condução, conforme o piso: Normal, Econômico, Esportivo, Escorregadio, Neve/Areia, Lama/Terra, Rocha/Avanço Lento e Reboque.
Tamanhas robustez e força refletem no seu alto consumo de gasolina: a F-150 faz 6,3 km/l na cidade e 8,6 km/l na estrada, segundo a Ford. Ainda assim, seu imenso tanque de 136 litros permite que ofereça autonomia superior a 1.000 mil km. Mas se prepare: encher o tanque vazio dessa picapona vai custar mais de R$ 750.

Espaço, conforto, requinte e tecnologia traduzem o interior da F-150. Para o motorista, há duas imensas telas de 12” cada, sendo uma do quadro de instrumentos digital e outra do sistema multimídia, que conta com a nova geração do Sync4. O pareamento com Android Auto ou Apple Car Play é feito sem fio e há um carregador wireless para o celular no console.
O motorista encontra a posição perfeita de dirigir graças aos 10 ajustes elétrico do banco de couro com memória, além de regulagem de altura dos pedais e altura e profundidade do volante. O passageiro frontal tem 8 posições em seu banco.
Teto solar com abertura parcial, diversos porta-objetos, tomadas USB e sistema de som B&O (Bang & Olufsen) com 18 alto-falantes estão disponíveis na versão Platinum (a Lariat traz o mesmo, mas são 8 falantes).
O banco de trás é quase uma sala: com 3,67 metros de distância entre eixos os passageiros viajam com muito conforto – 1 metro a mais que um Volkswagen Taos, que tem espaço generoso, e a mesma dimensão de sua rival Ram 1500.
A segurança também foi reforçada: 8 airbags (incluindo de joelhos), piloto automático adaptativo com assistência de centralização de faixa, assistente autônomo de frenagem e detecção de pedestre, assistente de manobras evasivas, assistente de descida, assistente em cruzamentos, monitoramento de ponto cego, câmera traseira com detecção de objetos e mais câmera 360 graus.
Esse mercado de picapes grandes, mesmo sendo um nicho, só cresce no Brasil. Ano passado, a única marca, a Ram, vendeu 5 mil unidades dos modelos 1.500, 2.500 e 3.500, alta de 80% sobre 2021. E estamos tratando de um segmento de alto valor agregado, picapes acima de R$ 450 mil.
Na esteira da Ram 1500, a Ford viu o potencial de sua F-150 e decidiu que já era hora de colocá-la à venda, depois de ensaiar em trazê-la em outras ocasiões.
Nesta mesma faixa de preço, por R$ 457 mil, a Ram 1500 Rebel traz motor V8 5.7 V8 de 400 cv de potência e 56,7 kgfm de torque.
A necessidade de uso do cliente pode fazer toda diferença: a Ram leva até 1.200 litros de volume e tem capacidade para transportar 610 kg de carga na caçamba, entretanto reboca muito mais que a F-150: 4.935 kg.
Mas fica por aí: a F-150 é superior em luxo, equipamento e segurança.
No segundo semestre, será a vez da Chevrolet Silverado estrear neste segmento. A picape será importada com motor V8 a gasolina, tração 4x4 e câmbio automático de 10 marchas.
Pelas suas dimensões, a F-150 deverá ser mais vista em cidades do interior e áreas rurais, dirigidas por grandes fazendeiros e pessoas ligadas ao campo com alto poder aquisitivo.. A boa capacidade de reboque, contudo, faz dessas picapes um veículo voltado para quem transporta, por exemplo, cavalos.
Nas grandes metrópoles, seu uso será mais limitado: dificilmente terá vaga em prédios, shoppings e supermercados, que hoje mal suportam SUVs médios.
A importação oficial da Ford não é pioneira para esta picape, embora sua comercialização por aqui fosse bem restrita. Até então, a F-150 já era uma picape desejada e trazida por importação independente.
Em um portal de classificados, por exemplo, há cerca de 50 unidades à venda, sendo que os modelos mais recentes, e usados, extrapolam R$ 1,5 milhão — assim, certamente a vinda “oficial” botará um freio nesses preços surreais.

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