Campos Neto Mãos de Tesoura: Copom passa a navalha nos juros e corta a Selic em 0,50 ponto, a 13,25%; veja os detalhes da decisão
Conforme esperado, o Copom cortou a Selic e deu início ao ciclo de alívio nos juros — e já partiu para uma redução mais agressiva

A Selic sentou-se em frente ao espelho do Copom: suas longas madeixas, cultivadas por um ano, chamavam a atenção de todos — uma franja curtinha cairia bem, diziam. Pois Roberto Campos Neto, presidente do Banco Central, pegou suas tesouras e decidiu que era hora do corte.
E, já que estamos aqui, vamos fazer mudanças radicais no visual. Conforme esperado, o Copom baixou a Selic, cedendo aos pedidos insistentes de autoridades, empresários e setores diversos da sociedade — e as navalhas do BC estavam afiadas, cortando bem mais que um dedinho da taxa básica de juros.
Sendo mais preciso: o Copom reduziu a Selic em 0,50 ponto percentual (p.p.), de 13,75% para 13,25%, num movimento considerado arrojado por parte do mercado — pesquisas apontavam para uma visão dividida, com parte relevante dos agentes financeiros apostando num corte menos intenso, de 0,25 p.p.
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O corte parece dialogar com os indicadores macroeconômicos divulgados desde a última reunião do Copom, em junho. Os índices de inflação continuaram mostrando alívio nos preços, já convergindo para a meta de 2023, de 3,25% ao ano e teto em 4,75%.

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A atividade econômica, por outro lado, dá sinais de fraqueza: o IBC-Br de maio, indicador do Banco Central considerado uma "prévia" do PIB, caiu 2% em maio em relação a abril — e os juros altos foram imediatamente apontados por especialistas como um fator sufocante para a economia brasileira.
E Campos Neto Mãos de Tesoura não deve parar por aqui: o comunicado da decisão do Copom dá a entender que, daqui para frente, as visitas da Selic ao salão de cabeleireiro serão mais comuns — e com um novo corte já pré-agendado para setembro.
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"Em se confirmando o cenário esperado, os membros do Comitê, unanimemente, anteveem redução de mesma magnitude nas próximas reuniões e avaliam que esse é o ritmo apropriado para manter a política monetária contracionista necessária para o processo desinflacionário", diz o documento.
Selic a 13,25%: decisão dividida do Copom
Vale lembrar que esta foi a primeira reunião do Copom com a participação dos membros indicados pelo governo para o BC: Gabriel Galípolo, homem de confiança do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, assumiu a diretoria de política monetária, e Ailton de Aquino ficou com a diretoria de fiscalização.
Os dois novos integrantes fizeram coro à postura do governo, votando a favor do corte de 0,50 p.p. e foram fundamentais para a queda mais intensa da Selic — a decisão foi dividida, com cinco votos defendendo a redução mais intensa e quatro optando por uma redução de apenas 0,25 ponto.
Como votou cada membro?
- Corte de 0,50 p.p.: Roberto Campos Neto (presidente), Ailton de Aquino (fiscalização), Carolina de Assis Barros (administração), Gabriel Galípolo (política monetária) e Otávio Damaso (regulação);
- Corte de 0,25 p.p.: Diogo Guillen (política econômica), Fernanda Guardado (assuntos internacionais ), Maurício Moura (relacionamento, cidadania e supervisão de conduta) e Renato Dias de Brito Gomes (organização do SFN).

Os detalhes da decisão
Como sempre, o Copom lista os fatores favoráveis e desfavoráveis à dinâmica inflacionária, tanto no Brasil quanto no exterior. Mas há um resumo simples na segunda metade do documento: os efeitos dos juros sobre a economia e a queda das expectativas para inflação nos prazos mais longos fizeram a diferença.
A decisão recente do Conselho Monetário Nacional sobre a meta para a inflação é apontada como um dos fatores que ajudaram a ancorar as projeções inflacionárias — e tudo isso, em conjunto, permitiu ao BC acumular a confiança necessária para iniciar um ciclo gradual de flexibilização monetária.
"O Comitê reforça a necessidade de perseverar com uma política monetária contracionista até que se consolide não apenas o processo de desinflação como também a ancoragem das expectativas em torno de suas metas", diz o Copom, no comunicado da decisão desta quarta (2).
Mas e o dilema entre a magnitude do corte? O Copom diz que optou pela redução de 0,50 ponto dada a melhora do quadro inflacionário, mas que, mesmo com a decisão de hoje e os cortes futuros já sinalizados, continuará mantendo uma política monetária contracionista.
Isto é: os juros estão baixando, mas o objetivo de manter os preços sob controle ainda está sendo perseguido — o cenário atual, segundo o BC, é de um estágio desinflacionário que tende a ser mais lento combinado a uma reancoragem parcial das expectativas futuras.
Ou, nas palavras do próprio comunicado do Copom:
A conjuntura atual [...] demanda serenidade e moderação na condução da política monetária.
Comunicado de decisão de política monetária do Copom, de 2 de agosto
Copom e Selic: e agora, o que vem por aí?
As mãos de tesoura do presidente do BC tendem a ficar ocupadas nos próximos meses, de acordo com os sinais transmitidos na reunião de hoje: se o quadro se mantiver como esperado, as próximas reuniões devem manter os cortes de 0,5 ponto na Selic — atenção para o plural em "próximas reuniões".
O Copom ainda irá se reunir mais três vezes neste ano: 19 e 20 de setembro, 31 de outubro e 1º de novembro, e 12 e 13 de dezembro. Sendo assim, a comunicação do BC dá a entender que, ao menos, a Selic irá cair para 12,75% no próximo encontro e 12,25% no seguinte, caso tudo corra como planejado.
Caso o termo "próximas reuniões" ainda inclua o último encontro de 2023, teríamos a Selic encerrando o ano em 11,75%. Naturalmente, os planos do Copom passam por revisões e não necessariamente são cumpridos à risca; mas, ao menos, há uma sinalização por parte da autoridade monetária.
E, vale lembrar: mesmo com os novos cortes, o BC ressalta que a política monetária irá se manter em território contracionista, de modo a consolidar o processo de desinflação.
"O Comitê ressalta ainda que a magnitude total do ciclo de flexibilização ao longo do tempo dependerá da evolução da dinâmica inflacionária, em especial dos componentes mais sensíveis à política monetária e à atividade econômica, das expectativas de inflação, em particular as de maior prazo, de suas projeções de inflação, do hiato do produto e do balanço de riscos", diz o documento.
Os cenários do Copom
O comunicado com a decisão do Copom cita o termo "incerteza" ainda em sua primeira linha — um indício da divisão acirrada entre os membros do colegiado quanto à magnitude do corte na Selic. A tal dúvida refere-se ao cenário externo.
Lá fora, há desinflação na margem, mas com núcleos da dinâmica de preços ainda elevados e mercado de trabalho resiliente — um quadro que parece descrever a economia americana, que ainda está num ciclo de alta de juros.
Mas, aqui dentro, o Copom vê um cenário menos complexo, com os indicadores recentes apontando para uma desaceleração econômica nos próximos trimestres e um alívio no front dos índices de inflação ao consumidor.
Nem tudo são flores, no entanto: por mais que o IPCA acumulado em 12 meses esteja num processo de desaceleração, como o gráfico no começo da matéria deixa claro, o Copom ressalta que, ao longo do segundo semestre, o índices deve voltar a aumentar.
Veja como estão as projeções de inflação do Copom em seu cenário de referência, que usa a taxa de juros do Focus, câmbio em R$ 4,75, petróleo seguindo a curva futura no curto prazo e aumentando 2% ao ano num horizonte mais longo e bandeira tarifária verde ao fim de 2023, 2024 e 2025:
- 2023: 4,9%
- 2024: 3,4%
- 2025: 3,0%
Em 2023, o CMN manteve o centro da meta de inflação em 3,25%, com margem de tolerância que vai de 1,75% a 4,75%; para 2024 e 2025, o centro é de 3%, também com 1,5 ponto de margem para mais ou para menos — a partir de 2025, será adotado o modelo contínuo, com a meta sendo perseguida por um horizonte mais longo que um ano.
Selic a 13,25%: as reações do mercado
Alberto Ramos, diretor de pesquisa macroeconômica do Goldman Sachs
"O balanço de riscos para a inflação sofreu mudanças significativas, mas permaneceu amplamente neutro. A previsão condicional para a inflação ao fim de 2024 não melhorou (permaneceu em 3,4%, isto é, ainda acima da meta de 3% para o fim do ano). Considerando tudo, esperamos que o Copom corte a Selic num ritmo de 50 p.p. nas três reuniões restantes, levando a Selic para 11,75% ao fim de 2023."
Mirella Hirakawa, economista sênior da AZ Quest
"Chama a atenção, entre os diretores que votaram por corte de 0,25 p.p., o fato de que Fernanda [Guardado] e Maurício [Moura] terem mandatos que acabam em dezembro. Em janeiro do ano que vem, novos membros devem compor [o BC], o que deve rebalancear ainda mais a composição para, possivelmente, mais dovish que a atual."
Leonardo Costa, economista da ASA Investments
"[A decisão] frustra a nossa expectativa e a da mediana do mercado, que projetava redução de 0,25 p.p. A taxa terminal de 2023 deve ser um pouco menor do que a nossa projeção atual, de 12%; além disso, o BC tenta manter alguma credibilidade perante a "ancoragem parcial" das expectativas e torce pela redução mais rápida da inflação."
Paulo Gala, economista-chefe do Banco Master
"É importante registrar o voto do Campos Neto, alinhado ao grupo que votou por corte de 0,5 ponto
"A inflação, segundo o modelo do BC com taxa de juros do Focus, aponta para 3% ao final de 2025, ou seja, dentro da meta. Lá fora, já tivemos uma reação bem positiva, com o EWZ [o principal ETF de ativos do Brasil em Nova York] subindo mais de 2%. O mercado deve gostar da decisão."
Daniel Wainstein, sócio sênior da Seneca Evercore
"A partir de amanhã, outras expectativas serão formadas sobre quando virão novas reduções na nossa taxa básica. E, sem dúvida, temos ainda muito espaço para novas reduções significativas em futuro próximo."
Nicolas Borsoi, economista-chefe da Nova Futura Investimentos
"A afirmação de que 0,5 p.p. é o ritmo apropriado, mas que a decisão de set/23 dependerá dos próximos dados, nos fazem crer que um corte de 0,75 p.p. é provável. De forma preliminar, mantivemos nossas projeções de três cortes de 0,50 p.p. até dez/23, com a taxa Selic fechando o ano em 11,75%, mas reconhecemos que há um viés de baixa."
Alexandre Lohmann, Economista Chefe da Constância Investimentos
"Decisão dovish de hoje, deve provocar uma queda na parte curta da curva de juros e o mercado pode começar a precificar um corte mais amplo, de 0,75 ponto, nas próximas reuniões."
José Filippo, Diretor Vogal do Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças (IBEF) de São Paulo
"A medida é positiva para a melhoria do cenário econômico brasileiro, devendo influenciar na elevação da oferta de linhas de crédito e financiamentos. Para 2024, os reflexos do corte da taxa Selic poderão contribuir para o aquecimento da economia o que deve elevar os níveis de emprego no mercado de trabalho."
Adriana Dupita, economista sênior para Brasil e Argentina na Bloomberg Economics
"Como esperávamos, a decisão não foi unânime e os formuladores de políticas elaboraram uma linguagem para conter as apostas em cortes maiores em reuniões futuras. Revisamos nossa projeção de taxa de final de ano ligeiramente para 11,75%."
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