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Quando o assunto é investimento, ninguém tem conselhos melhores do que Luiz Alves Paes de Barros
Se você acompanha o Market Makers — e se nos acompanhou também na outra encarnação —, já ouviu falar do Luiz Alves Paes de Barros (LAPB).
Aliás, se você acompanha qualquer um que produz conteúdo sobre o mercado de ações brasileiro, certamente já ouviu falar dele. Isso porque o Luiz é um dos mais longevos, mais sábios e mais bem-sucedidos investidores da Bolsa.
Ao longo dos seus 50 anos de mercado financeiro (isso mesmo, cinquenta!), ele transformou cerca de US$ 10 mil em mais ou menos US$ 800 milhões, o que dá cerca de R$ 4 bilhões.
Só entre 2003 e hoje, seu fundo, o Poland, rendeu incríveis 4.261,94%, contra 800% do Ibovespa e 700% do CDI.
Durante a maior parte desse tempo ele foi uma pessoa reclusa. Não dava entrevistas, não fazia palestras, não se deixava fotografar, não ia a eventos.
Assim, ficou conhecido como o bilionário anônimo da bolsa. Luiz Alves preferia gerir seu dinheiro longe de qualquer tipo de holofote.

Mas isso começou a mudar mais ou menos um ano depois que a reportagem acima foi escrita, em 2015, quando o próprio LAPB, Henrique Bredda e outros sócios fundaram a Alaska Asset Management.
Como sócio fundador de uma gestora aberta ao público, Luiz começou a aparecer e nós a descobrir mais sobre suas ideias, sua performance e sua sabedoria como investidor de ações.
Durante os anos seguintes, de intenso financial deepening no Brasil — fenômeno de sofisticação dos investidores, que levou muitas pessoas para a Bolsa e para os fundos de ações e multimercados, como os da Alaska —, ele saiu de sua toca.
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Ele fez lives, deu entrevistas (a primeira delas para mim e para o Salomão, diga-se), passeou na Expert, onde até sentou no chão para ouvir gestores…Enfim, abandonou a reclusão.
Assim descobrimos que ele comprou sua primeira ação aos 15 anos de idade, em 1962, mas que engatou na Bolsa mesmo aos 20.
Descobrimos também que ele nunca teve outra ocupação na vida, a não ser investir na Bolsa. E que não se importa com bens de luxo, prefere morar de aluguel e os carros mais simples.
Mas o que mais importa de tudo que o Luiz compartilhou nessas entrevistas, foi seu conhecimento de mercado.
Para homenageá-lo nos seus 76 anos, completados na sexta-feira passada, e celebrar seu legado, resolvemos selecionar suas lições sobre investimentos que mais nos marcaram.
Essa talvez seja a principal e aparentemente mais paradoxal lição do Luiz. Para ele, investir não é sobre ganhar dinheiro para comprar coisas, é sobre ganhar e respeitar o dinheiro.
Quando ele conversou com o Salomão em uma aula do nosso antigo MBA de Ações, ele disse que o seu objetivo é ganhar dinheiro “pelo prazer de ganhar, e quem tem isso, está sempre procurando ganhar dinheiro".
"Tem gente que quer ganhar dinheiro para comprar um automóvel, comprar uma casa, viajar. Aí o dinheiro acaba (...) Depois de um certo volume de dinheiro, tudo fica tão mais fácil… as preocupações de vida… aí você pode fazer as coisas agradáveis um pouco mais tarde”, afirmou.
Se você fizer uma interpretação rasa e apressada do que ele disse, pode achar esse um discurso cheio de avareza e até dinheirista. Afinal, diz o senso comum que o bom do dinheiro são as coisas que ele compra.
Mas se você prestar bem atenção, vai entender que, na verdade, o que ele está dizendo é que é preciso investir com o propósito certo: ter dinheiro suficiente para que sua vida seja mais fácil e mais agradável, e não comprar coisas.
A Bolsa é um lugar de angústia e felicidade, às vezes no mesmo dia. Essa foi uma das primeiras coisas que ouvimos do Luiz em sua primeira entrevista, lá na nossa antiga casa, ainda em 2019.
Naquele momento ele nos respondia sobre por que havia deixado de lado sua ideia de se tornar um ator e sapateador (surpreendente, eu sei) para ser investidor em tempo integral.
“A vida de bolsa é muito mais bonita e realizadora. Tem realizações quase todos os dias. Tem também os fracassos, mas é uma vida muito completa. A cada papel você tem um processo de angústia, tristeza, excesso de felicidade. Isso ajuda você a viver”, resume.
Essa declaração do Luiz me marcou muito na época. O momento daquela entrevista, 2019, era uma época de oba-oba no mercado financeiro, de uma profusão de influenciadores, muitos deles irresponsáveis, que alardeavam sem parar seus ganhos.
Parecia que todo mundo só ganhava dinheiro e que não tinha como o mercado de ações dar errado. Por isso, ouvir de alguém tão experiente e vivido que sim, há fracassos, e que sim, a bolsa também é um lugar de angústia, foi um alento.
Essa lição foi testemunhada em primeira mão e in loco pelo Salomão. Em 2018, ele, Bredda e Luiz tiveram a oportunidade de estar na mesma sala e conversar poucos minutos com o então candidato à Presidência da República, Jair Bolsonaro.
Não era uma agenda aberta ao público ou um evento com jornalistas. Enquanto todos que estavam ali tentavam tirar do candidato alguma informação relevante sobre suas futuras políticas, Luiz foi para um canto mais isolado, comprar ações da Petrobras no celular, afinal, elas estavam muito baratas.
Moral da história: política não importa.
Uma vantagem que a experiência traz para qualquer profissional é saber separar as coisas. O que importa do que não importa. No caso do Luiz, que faz preço do que não faz preço.
Na entrevista de 2019 perguntamos a ele quanto do “jogo” do mercado de ações era emoção, quanto era matemática.
Naquele momento já sabíamos que uma de suas características como investidor era não se debruçar muito sobre os balanços das empresas, mas levar em consideração como o mercado reagia em relação aos resultados das companhias e a notícias.
Por isso, imaginava que ele daria uma resposta privilegiando as emoções. Mas mesmo assim sua resposta me surpreendeu.
“Não quero exagerar, mas muito próximo de 100% não ser matemática, ser só emoção. A matemática está disponível igual para todos”, disse.
“O sentimento no caso da Vale, por exemplo, é ‘vai estourar mais alguma barragem? A Vale não está no preço que está porque está todo mundo assustado”, reflete Luiz.
Lembrando que essa entrevista aconteceu meses depois da tragédia de Brumadinho, quando uma barragem da Vale se rompeu, matando 270 pessoas.
Em seu perfil no LinkedIn, Henrique Bredda fez uma lindíssima homenagem ao sócio Luiz Alves.
No texto, ele reflete sobre quais são os segredos que fazem o Luiz ser tão bem sucedido. E a resposta não está em nenhuma teoria de valuation, nenhuma habilidade especial em trading nem nada do tipo.
Para o Bredda, a resposta está no amor que ele tem pelo que faz e na confiança nas boas pessoas.
“O amor é capaz de interferir na percepção da passagem do tempo. Se você realiza uma atividade que ama, você não percebe o tempo passar", afirmou.
"Para uma pessoa comum, lidar com a passagem do tempo quando ela investe em ações é muito mais difícil do que para o Luiz Alves. Além do Luiz Alves fazer o que ama, fazendo com que o tempo passe mais rápido, o seu estoque de tempo (memória) e a sua esperança (expectativa do tempo futuro) são diferentes da maioria.”
Sobre a confiança nas pessoas boas, Bredda diz:
“No Luiz Alves, ainda existe um ente comum, um amálgama, entre o amor pela arte de investir em empresas e a fé nas boas pessoas: o otimismo estrutural. Não ingênuo ou fantasioso, mas uma estrutura de fundo, uma certeza de que a realidade oferece uma distribuição de probabilidade assimétrica, que tende mais 'para cima' do que 'para baixo'”.
De uns tempos para cá, Luiz voltou a ser mais recluso, dando poucas entrevistas e participando de poucos eventos.
Por isso, em vez de fazer isso pessoalmente, deixo aqui, em nome de todos os membros do Market Makers, nosso desejo de felicidades neste novo ano que se inicia de sua vida.
Muito obrigado por tanta sabedoria, e feliz aniversário, Luiz Alves.
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