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Felipe Miranda: O mal é bom e o bem, cruel

Ao forçar a queda de juro com discursos inflamados, antecipar a regra fiscal para antes do Copom e cobrar politicamente um gesto público de Roberto Campos Neto, o governo Lula colhe mais juro, mais dólar e mais expectativa de inflação.

6 de março de 2023
18:34 - atualizado às 18:25
Homem com asas em varanda de um prédio, representando um investidor-anjo de startups.
Imagem: Shutterstock

"Ela me conta, sem certeza
Tudo que viveu
Que gostava de política
Em mil novecentos e sessenta e seis
E hoje dança no Frenetic Dancing Days”
Tigresa - Caetano Veloso

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“Não fosse pela grande variabilidade entre os indivíduos, a medicina seria apenas uma ciência e não uma arte, ao mesmo tempo.” William Osler pensava, claro, em seu tratado de clínica médica e na criação da Universidade John Hopkins, no contexto da frase, mas bem que poderia falar sobre a Economia, mais precisamente sobre a política econômica.

Acaba de ser lançado o livro “A arte da Política Econômica”, de organização de José Augusto Fernandes, um compilado de relatos pessoais de formuladores da política econômica brasileira recente.

O título da obra me parece especialmente feliz. Com o perdão do aparente paradoxo, uma ciência aplicada só pode ser exercida em plenitude se combinada à arte.

A atividade jamais poderá se dar a partir da mera aplicação direta e imediata de conhecimentos científicos em problemas práticos, sem o apoio da empatia, de intuições, de conhecimento tácito em prol de reconhecimento de padrões, de sensibilidade política, de interesse pela condição humana.

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Somente a partir da união do respeito à fronteira do conhecimento e à ciência com a sensibilidade prática poderemos avançar. A arte em sintonia com a ciência.

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Para o caso da Economia, o exercício precisa ainda ser feito com muita humildade intelectual, porque a impermeabilidade do futuro e a idiossincrasia das interações dos agentes econômicos nos remetem a um ambiente de incertezas, probabilidades, eventos raros, surpresas, particularidades e cenários inesperados.

De um lado, há, por vezes, a frieza do pesquisador platônico, incapaz de admitir as fragilidades de suas descobertas. De outro, ocorre a apropriação do monopólio da virtude, normalmente pela esquerda, que atribui falta de empatia e de consideração pelas mazelas da população mais desfavorecida aos técnicos.

Vivemos o problema agora no Brasil.

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Inflação e juro alto: a difícil missão da política monetária

Temos uma questão de difícil resolução para a política monetária. Mesmo as respostas mais técnicas e elaboradas da Academia encontram suas restrições.

O PIB desacelera em ritmo superior ao previamente contemplado e existe uma crise de crédito já em curso e com chances reais de degringolar, levando a um potencial processo de ruptura e histerese.

Ao mesmo tempo, a inflação e suas expectativas mostram sinal de resistência. Em paralelo, carregamos um importante problema fiscal. Tanto o nível (cerca de 15 pontos percentuais acima de países pares) quanto a dinâmica da dívida/PIB preocupam, sem sermos capazes de enxergar uma trajetória crível à frente. Cresce a desconfiança sobre a moeda, as expectativas desancoram.

E, se antes tínhamos no formalismo do Copom o sistema de metas de inflação basicamente com o compromisso quase único de garantir a variação para o IPCA predeterminada pelo CMN, agora também existe o objetivo explícito, ainda que secundário, de zelar pelo pleno emprego, numa maior aproximação ao arcabouço da regra de Taylor.

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Manter os juros tão altos por muito tempo pode ensejar uma grande quebradeira e uma crise financeira sistêmica. Você nunca sabe exatamente qual vareta pode ser retirada sem que o edifício todo desabe.

Cortar os juros antecipadamente, em contrapartida, implicaria inflação e expectativas piores, com provável aumento da inclinação da curva de juros (disparada dos juros futuros mais longos, prejudicando investimentos ainda mais). Perderíamos a também âncora monetária, sendo que já estamos sem âncora fiscal. Nau à deriva.

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Arcabouço fiscal é o caminho?

Só haveria um caminho, imposto pela inexorável força da realidade: criar um arcabouço fiscal crível e reconhecer, na retórica e na prática, a formação de expectativas de juro, câmbio e inflação por meio de um processo técnico.

Com a credibilidade das políticas fiscal e monetária restabelecida e com harmonia entre elas, o CMN poderia, tecnicamente, rever as metas de inflação à frente, com uma convergência a níveis mais baixos de inflação acontecendo de maneira mais lenta e suave, sem impor sobressaltos relevantes e aliviando as condições financeiras, o que inibiria a crise de crédito em curso.

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Teria sido criado o espaço para a tal empatia entrar em cena. Os juros cairiam e entraríamos em ciclo virtuoso. Lula tem todas as condições para criar esse ambiente. Goza da simpatia da comunidade financeira internacional, é um líder capaz de mobilizar massas e acordos políticos, foi eleito por uma Frente Ampla, já governou com uma política econômica ortodoxa.

Infelizmente, porém, parece insistir em apropriar-se do monopólio da virtude, como se os juros altos fossem resultado de uma canetada do cidadão bolsonarista infiltrado em seu governo.

O bonzinho preocupado com os mais carentes contra os maldosos rentistas, um discurso cansativo e mentiroso, datado de 1966, quando os manuais da Cepal ou, pior, os livros vermelhos (que não são o de Carl Jung) ainda encontravam alguma ressonância na Academia.

Inflação e juro: as escolhas de Lula

Ao forçar a queda de juro com discursos inflamados, antecipar a regra fiscal para antes do Copom e cobrar politicamente um gesto público de Roberto Campos Neto, o governo Lula colhe mais juro, mais dólar e mais expectativa de inflação.

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Se o governo realmente quer juros mais baixos, precisa parar de falar a respeito, porque soa interferência e perda de credibilidade.

Lula erra ao dizer que foi eleito com votos e, portanto, pode fazer sua política monetária. De fato, ele pode – mas deve?

Como gosta de resumir Pondé, quem se acha muito do bem é certamente do mal. O juro não vai cair por voluntarismo ou vontade política.

Caetano estava certo: o mal é bom e o bem, cruel. Por ora, o juro alto é um mal necessário para domar a inflação. Arrumem o fiscal, parem de falar bobagem. Antes disso, nada feito. Deixem o "cidadão" trabalhar.

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