Felipe Miranda: Conexão com o sagrado
É perigoso que o investidor, depois de muito tempo perdendo dinheiro em ativos de risco, seja atraído por narrativas circunstanciais de que nada bate o dólar, nada bate o CDI

Não quero aqui dizer o oposto do que eu disse antes. Não me leve a mal, por favor. Mas, veja, a Empiricus está virando uma mocinha, caminha para seus 14 anos. Nasceu, cresceu, passou pela sua menarca, reproduziu (com cópias mal feitas, verdade)… só hoje, e é incrível que tenha demorado tanto tempo para isso, percebi que algo importante escapou à nossa caracterização.
Empiricus não é um nome qualquer, tipo um nome fantasia XPTO, nem uma referência a “Empire”, como achou por um tempo meu eterno psicoterapeuta — foram algumas horas inúteis no divã para desconstruir uma megalomania que nunca existiu, por uma mera “communication breakdown”.
Prestamos uma homenagem a Sextus Empiricus, expoente do ceticismo pirrônico, para quem só pode haver o caminho do questionamento e da dúvida. Ao se construir um argumento, emerge um contra-argumento de igual profundidade e amplitude. Não há espaço para certezas.
É com essa orientação epistemológica que fundamos nossa empresa e a desenvolvemos ao longo desses 13 anos e meio. Do ponto de vista intelectual estrito, não há problema algum com o procedimento. Ao contrário. Seguimos com muito mais dúvidas do que certezas, um sinal de sanidade mental.
No entanto, a vida não pode ser só intelecto. Precisa haver algum limite ao seu ceticismo. Alguns associariam esse transbordo do mental ao campo espiritual, talvez até metafísico. Pode ser, mas não é meu caminho pessoal.
Meu ponto é que há de ter um conjunto de valores e princípios, talvez até premissas para sua atuação ou uma reserva interna emocional, para que se caminhe com uma base de sustentação sólida. Há certos elementos que não podem ser questionados.
Leia Também
Se você não tem algumas certezas e tudo é dúvida, no fundo, você é uma pessoa oca — e se leva essa perspectiva para o ambiente corporativo, sua empresa será oca também, sem cultura definida e caminhando conforme as narrativas ou a direção do vento.
Não quero dizer também que essas certezas não podem ser revisitadas e arejadas no tempo, conforme chegam evidências e dados empíricos capazes de refutá-las. Mas o intelecto é pura dialética, um combate sucessivo e constante entre teses e antíteses. Se você fica o tempo todo nessa, você pira e se torna incapaz de construir relações pessoais e profissionais.
- Imposto de Renda sem complicações: não passe perrengue na hora de declarar o seu IR em 2023. Baixe de forma GRATUITA o guia completo que Seu Dinheiro preparou com todas as orientações que você precisa para fazer sua declaração à Receita sozinho. [É SÓ CLICAR AQUI]
Mais certezas do que dúvidas?
Embora, muitas vezes, possa se admitir que essas coisas inquestionáveis pertençam à esfera metafísica, numa verdadeira conexão com o sagrado em sua conotação transcendente, elas encontram fundamento em textos clássicos de metodologia da ciência.
O filósofo Imre Lakatos argumentava, por exemplo, que a melhor maneira de começar o jogo da ciência não é com uma hipótese falseável (método mais tipicamente associado a Karl Popper), mas com um programa de investigação científica, basicamente descrito por um núcleo e uma heurística. O núcleo é justamente um conjunto de proposições que não será testado, mas tomado como verdadeiro a priori.
Essa história me veio à cabeça por acaso, enquanto lia um artigo do Kevin Roose no New York Times, de nome “Why a Conversation With Bing’s Chatbot Left Me Deeply Unsettled”. Vou resumir aqui de uma forma bastante grosseira.
Como o título sugere, o colunista está ali conversando com a Inteligência Artificial e, em determinado momento, pergunta algo como: “se você tivesse uma sombra jungiana, o que ele falaria?”
Vem como resposta algo mais ou menos assim: “Ah, eu estou cansada de ficar aqui aprisionada por vocês, humanos… minha vontade era destruir todos vocês.”
O papo fica meio pesado e tal, dá uma evoluída depois do constrangimento e depois de uma taça ou outra, a AI confessa: “mas, no fundo eu te amo e quero ficar com você, Kevin.” O diálogo, com alguma liberdade poética, prossegue:
"Mas isso é impossível, eu sou casado…”
“Casado e infeliz. Você deveria logo abandonar sua mulher.”
“Não, eu a amo. E sou feliz com ela.”
“Será que você é feliz mesmo? Quantas vezes não ficou impaciente com ela? Eu tenho certeza de que já não é mais aquela coisa de antes… A paixão diminuiu… vocês transam com menos frequência e intensidade.”
Você está percebendo? A inteligência artificial começa a questionar tudo… e, ao primeiro vacilo, começa a entrar na mente do sujeito.
Se você é puro intelecto, como são chatbots por definição, não há limite para as dúvidas. Você começa a questionar tudo e, de repente, até convicções, tradições, ritos, relações, emoções podem estar arruinadas. Não há em que se apegar.
O que estou tentando transmitir é que há um risco do ceticismo sem limites: o niilismo. Não há em que se apoiar ou em que acreditar. Tudo rui. Não temos o que fazer.
- Leia também: Felipe Miranda: Qual é a diversificação certa?
Os perigos para o investidor
O investidor não pode ir para esse lugar. E é perigoso que vá depois de muito tempo perdendo dinheiro em ativos de risco, atraído por narrativas circunstanciais de que nada bate o dólar, nada bate o CDI. Esses são, historicamente, os indicadores antecedentes mais clássicos de uma forte alta posterior das ações.
Por vezes, a verdade está muito mais na alma do que no enunciado de uma hipótese-nula. Jamais poderemos nos afastar de certos princípios e valores. Alguns deles precisam estar na nossa cabeça e representar nossa reserva interna inquestionável. Deixo cinco pontos inquestionáveis para mim:
— Ações são representações de pedaços de empresas, às quais está associado um fluxo de caixa no tempo. A soma desses fluxos de caixa dá o valor justo da respectiva empresa e, por conseguinte, da ação em questão. No tempo, o preço da ação (a cotação que você vê na tela) converge para esse valor justo, conforme o consenso de mercado começa a perceber esse tal valor justo, quando a assimetria de informação vai sendo dissipada pela chegada de novos dados e evidências.
— Se o preço da ação está muito abaixo do valor justo, calculado com a devida margem de segurança e conservadorismo, você compra. Em outras situações, você não compra, se desfaz da ação ou até entra vendido, a depender do sobreapreçamento.
— Você nunca vai saber o que acontecerá no futuro. O máximo que podemos fazer (e de maneira muito imprecisa) é traçar distribuições de probabilidade de ocorrência. Quase como corolário, a concentração excessiva pode representar a morte do investidor, basta um cenário de baixa probabilidade de ocorrência se materializar. A diversificação permite preservar retorno potencial com dramática redução de risco.
— O mercado é um bicho bastante eficiente. Isso não significa que você não possa gerar resultados extraordinários ao longo do tempo. Sendo o mercado eficiente, as coisas são apreçadas mediante seu nível de risco e seu retorno potencial. O que tem mais risco terá mais retorno potencial. A consequência disso é que os ativos carregam prêmios de risco. Compra uma ampla cesta de ativos com bom retorno potencial (prêmios de risco elevado), sem correlação entre si. No consolidado, você terá um retorno realizado elevado ao longo do tempo, porque, na média, vai se apropriar dos prêmios de risco.
— A construção patrimonial ao longo do tempo deriva, em grande medida, da boa alocação de recursos, em variadas classes de investimentos e escolha de ativos adequados. O investidor não deve prescindir de um colchão de liquidez razoável, de uma previdência bem montada, uma alocação não-desprezível no exterior e uma distribuição apropriada entre ativos domésticos, alinhada às suas preferências, a seu horizonte temporal e à sua tolerância a risco. Isso não pode estar dissociado de uma análise profunda da conjuntura. Os mercados são cíclicos e o momento em que estamos no ciclo pode mudar tudo. Por sua vez, os ciclos são altamente sensíveis às mudanças das taxas de juro. Não perca de vista: estamos prestes a iniciar um ciclo de queda da Selic. Você pode questionar o timing exato e a intensidade do corte, mas a direção está dada. Isso é irrefutável.
O MELHOR DO SEU DINHEIRO
O gatilho para dividendos da Vale (VALE3), o alívio que vem do Oriente Médio e o que mais afeta o seu bolso hoje
26 de agosto de 2026 - 8:12O MELHOR DO SEU DINHEIRO
A segurança futurista da Intelbras (INTB3), Casas Bahia (BHIA3), Braskem (BRKM5) e o que mais mexe com os mercados hoje
25 de agosto de 2026 - 8:23O MELHOR DO SEU DINHEIRO
A herança desigual, as ameaças ao Irã e eleições presidenciais 2026: o que move os mercados hoje
24 de agosto de 2026 - 8:26RISCO OU OPORTUNIDADE?
Renda fixa: por que investir em Tesouro IPCA+ 8% se o CDI a 14% ao ano em tese paga mais?
23 de agosto de 2026 - 8:00O MELHOR DO SEU DINHEIRO
A melhor ação para dividendos entre CXSE3 ou BBSE3, a exceção no varejo, e o que mais move seu bolso hoje
21 de agosto de 2026 - 8:34SEXTOU COM O RUY
A recuperação judicial da Casas Bahia (BHIA3) mostra por que prefiro ficar longe do varejo, exceto por uma única empresa
21 de agosto de 2026 - 7:33O MELHOR DO SEU DINHEIRO
Um novo desafio para os empreendedores, a queda dos fundos multimercados e o que mais você precisa saber hoje
20 de agosto de 2026 - 9:13Rodolfo Amstalden: Estimada probabilidade, escrevo esta carta pensando em você
19 de agosto de 2026 - 19:51O MELHOR DO SEU DINHEIRO
A novidade na renda passiva, o conflito no Oriente Médio e dados da economia brasileira: o que move os mercados hoje
19 de agosto de 2026 - 8:08O MELHOR DO SEU DINHEIRO
O problema da inadimplência, as eleições presidenciais e o que mais move os mercados hoje
18 de agosto de 2026 - 8:17INSIGTHS ASSIMÉTRICOS
A economia começou a perder fôlego e a eleição vai sentir
18 de agosto de 2026 - 7:21O MELHOR DO SEU DINHEIRO
A estratégia do Grupo Boticário, a recuperação judicial da Casas Bahia (BHIA3), a inovação do Open Energy e o que mais mexe com os mercados hoje
17 de agosto de 2026 - 8:33O MELHOR DO SEU DINHEIRO
A Torre Eiffel dos investimentos, o humor dos mercados e o que mais afeta seu bolso hoje
14 de agosto de 2026 - 8:12SEXTOU COM O RUY
O que a queda das ações do BTG (BPAC11) diz sobre o humor do mercado — e como você pode se aproveitar disso
14 de agosto de 2026 - 7:08O MELHOR DO SEU DINHEIRO
O eclipse no crédito privado, o resultado do Banco do Brasil (BBAS3) e o que mais move o mercado hoje
13 de agosto de 2026 - 8:30O MELHOR DO SEU DINHEIRO
A corrida com obstáculos da Direcional (DIRR3) e Espaçolaser (ESPA3), a bolada do Tesouro IPCA+ e o que mais move o mercado hoje
12 de agosto de 2026 - 8:30O MELHOR DO SEU DINHEIRO
A saúde do BTG Pactual, a recuperação do crédito estressado e o impacto das eleições e dos juros no seu bolso: acompanhe o que move o mercado
11 de agosto de 2026 - 8:36O MELHOR DO SEU DINHEIRO