4 verdades sobre transição de carreira que você não vai ler em posts no LinkedIn
O primeiro grande mito da transição de carreira é que não é preciso estar insatisfeito com o trabalho, a ponto de querer sair somente por isso

No último texto aqui no Trilhas de Carreira, narrei a história de Ester, uma nutricionista e corredora amadora de 43 anos, que passou por uma trajetória inspiradora e cheia de reviravoltas em sua carreira.
Ester veio de uma família humilde e tinha poucas perspectivas de futuro, mas conseguiu se destacar e alcançar sucesso no mercado financeiro. No entanto, mesmo com uma carreira aparentemente bem-sucedida, descobriu sua paixão pela nutrição esportiva e decidiu persegui-la.
Com o apoio do marido e um planejamento cuidadoso, Ester decidiu abandonar o emprego no banco e seguir seu sonho de se tornar nutricionista. É uma história que mostra a importância de escolhas individuais na carreira, a resistência e flexibilidade necessárias durante uma transição profissional. Para quem quiser ler na íntegra, aqui está o link.
Mas hoje quero abordar um outro aspecto dessa história, ainda pouco explorado, que é o da pós-transição. É muito comum nos depararmos no LinkedIn com casos de sucesso absoluto de transição de carreira, mas raramente vemos cases de fracasso, arrependimento ou frustração.
Meu convite então é adentrar na realidade da transição, explorando as sombras por trás do processo. Farei isso pela continuação da história de Ester, que me muniu com um relato verdadeiro e revelador, construído por meio de uma entrevista que fiz com ela nessa semana.
A seguir, destaco os principais aprendizados dessa conversa profunda e cheia de insights sobre o processo de transição de carreira.
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1- Você não precisa estar insatisfeito com o trabalho para fazer uma transição
O primeiro grande mito que Ester nos ajuda a desafiar é que ela não estava insatisfeita com o trabalho no banco, a ponto de querer sair somente por isso, e outras coisas pesaram muito também.
Uma delas era o papel como mãe, que ela avaliava estar aquém na época. Um filho no início da adolescência, outro na primeira infância, demandando atenção e cuidado que ela não conseguia oferecer com a vida atribulada que levava no mundo corporativo.
E, claro, houve também a descoberta da paixão pela alimentação saudável dentro do mundo dos esportes, que foi o tempero final para dar cabo à transição.
Ester pediu para que eu frisasse esse como um dos primeiros aprendizados aqui, porque diz que é muito comum ouvir esse tipo de inferência em conversas com amigos – da transição ser motivada exclusivamente por uma forte insatisfação a priori na profissão.
Portanto, fica aqui o conselho para que você não se apegue somente ao fator satisfação na profissão para encarar uma transição. Mesmo parecendo trivial, talvez você possa estar sob o efeito de uma premissa que não faz sentido para você. Banque sua decisão, honrando o que te importa cuidar.
2 - Vá além da visão romântica sobre a profissão que se almeja e não se iluda: dinheiro é importante
"Fiquei muito no campo da paixão quando escolhi a carreira de nutrição. Tinha acabado de voltar da minha primeira maratona, estava sob o efeito do se 'eu quero, eu posso, eu consigo.' Correr os 42 quilômetros me deu a sensação de ter super poderes e eu tinha certeza que a nova profissão seria mais uma coisa que eu conquistaria e me realizaria."
Ester hoje se depara com um mercado de trabalho diferente do que imaginava. Acabou por não considerar uma âncora de carreira importante – a de recompensa financeira. Tinha a expectativa de ganhar mais dinheiro no curto prazo após a formação, o que hoje percebe ser um caminho mais longo do que pensado inicialmente.
Além disso, algo que ela nunca havia experimentado era ser autônoma. E a falta de previsibilidade de um salário, como estava acostumada, hoje é um desafio também. A grana só entra se atende pacientes, com o agravante de estar muito no início da nova carreira e uma base de pacientes começando a ser construída. Será necessária ainda mais paciência e resiliência nisso.
3 - Nem tudo vai sair como planejado — então prepare-se para o inesperado
Você pode mirar em um objetivo com a transição, mas descobrirá que o caminho revela mais possibilidades. Talvez você esteja pensando: "mas isso é uma coisa boa, não?", e eu respondo: depende do seu perfil.
Tem gente que não gosta de se abrir para mais possibilidades, prefere seguir mais restrito a uma ideia ou plano preconcebidos. Se este for o seu caso, as alternativas podem ser vistas como fontes de ansiedade e dificuldade em escolher um caminho a seguir.
Exemplificando, Ester nunca havia tido uma experiência dedicada somente ao ensino superior, porque já trabalhava desde os dezessete anos. Se apaixonou por isso. Entrou na iniciação científica, durante a nova graduação, e se jogou de cabeça em vários outros projetos que a levaram à descoberta dessa paixão pelo ambiente acadêmico.
Outro exemplo foi a nova paixão pela culinária e gastronomia. Isso tem deixado Ester ainda mais indecisa sobre qual caminho seguir. Seria em direção a uma intersecção das duas profissões? Focar em somente uma delas? Ou voltar para a última área de atuação, na antiga profissão? Esses são pensamentos que tiram o sono de Ester.
E esse aprendizado nos leva à última reflexão.
4 - O dilema entre continuar tentando, voltar para a antiga profissão ou redirecionar para o novo (de novo)
Ester seguiu o coração e hoje está frustrada.
"Se eu faria de novo essa escolha e passaria por todo o processo?
Olha, eu faria de novo o processo de transição, porque também buscava o equilíbrio com o papel de ser mãe e ter disponibilidade para os meus filhos. Mas, talvez, explorasse outros caminhos antes de entrar na graduação de nutrição. Por exemplo, poderia ter conversado com profissionais e feito alguns cursos na área para validar o campo prático da coisa.
No fundo, descobri que amo estudar. Depois da graduação, já fiz dois cursos de pós-graduação. Amo essa área. Talvez a minha maior frustração hoje seja realmente a questão financeira, e isso pode passar. Estou no momento de explorar outras possibilidades dentro da profissão.
Mas me dei um prazo e também estou aberta a voltar a trilhar uma carreira na área que trabalhava, caso perceba que será um lugar que ancora minhas outras necessidades de carreira, como a recompensa e a previsibilidade financeiras."
E, antes de encerrar o papo, perguntei à Ester qual conselho ela daria para alguém que está planejando uma transição de carreira:
"Não quero que a minha história e honestidade sobre o meu processo afastem as pessoas de realizarem seus sonhos. Para acomodar nossas necessidades, às vezes é preciso encarar de frente uma grande mudança. Planeje-se financeiramente, vá para a rua conversar com as pessoas, entenda como é a realidade do que você idealiza, mas não deixe de dar um passo de fé em direção ao que o seu coração diz."
Ester sabe que o caminho se faz caminhando. Embora frustrada, pude ver o brilho nos olhos de uma pessoa com muita coragem, que já provou que é capaz de mudar a rota e bancar decisões difíceis.
Para você, Ester, aqui vai meu conselho final: confia, tudo vai se encaixar.
Até mais,
Thiago Veras
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