PIB do Brasil cresce 4,6% em 2021 e fica acima do esperado; economia surpreende no quarto trimestre
O PIB do Brasil ficou acima das expectativas de economistas e analistas financeiros, que projetavam um crescimento de 4,5% da economia em 2021

A economia brasileira cresceu 4,6% em 2021, de acordo com dados divulgados há pouco pelo IBGE, chegando à cifra de R$ 8,7 trilhões. O resultado surpreendeu positivamente o mercado: a mediana das projeções de 45 economistas compiladas pelo Broadcast apontava para uma expansão ligeiramente menor do PIB do Brasil, de 4,5% em relação a 2021.
Boa parte dessa surpresa veio do resultado obtido entre outubro e dezembro 2021. Nos três últimos meses do ano, o PIB brasileiro avançou 0,5% frente ao trimestre imediatamente anterior; as projeções do mercado financeiro indicavam um crescimento de 0,2% entre os períodos.
O avanço da economia brasileira no quarto trimestre marca uma mudança de ritmo em relação aos meses anteriores. Tanto no segundo quanto no terceiro trimestres, o PIB do país caiu 0,1%, o que configurava um quadro de 'recessão técnica'.
PIB do Brasil em 2021: o que foi bem (e o que foi mal)
A dinâmica da economia ao longo do ano passado mostra uma mudança relevante de perfil, com a agropecuária tendo um desempenho fraco e os setores de indústria e serviços se expandindo de maneira mais firme.
Vale ressaltar, no entanto, que a base de comparação é bastante distorcida, já que os resultados de 2020 foram afetados pelos efeitos da pandemia no PIB do Brasil.
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No acumulado de 2021, o PIB da agropecuária recuou 0,2% em relação ao ano anterior, impactado pelo mau comportamento de algumas culturas de lavoura, especialmente cana-de-açúcar, milho e café, e da pecuária de bovinos e leite — condições climáticas adversas afetaram essas atividades. Por outro lado, soja, trigo e arroz deram uma contribuição positiva ao setor.
No lado da indústria, destaque para o segmento de construção civil, que teve expansão de 9,7% na comparação com 2020 — as áreas de transformação e extração de matérias-primas também tiveram um ano positivo. Já as atividades de produção e distribuição de energia elétrica e água tiveram um desempenho ligeiramente negativo, de 0,1%.
Por fim, o setor de serviços foi puxado pelo crescimento expressivo dos subgrupos de informação e comunicação e de transporte, armazenagem e correio, ambos com altas de mais de 10% em um ano.
Veja abaixo como se comportaram os principais subsetores da economia brasileira em 2021:

Sob a ótica da despesa, destaque para a formação bruta de capital fixo (FBCF), que aumentou 17,2% em 2021 na comparação com 2020 — em linhas gerais, o indicador serve como termômetro dos investimentos que estão sendo feitos na capacidade produtiva do país.
Novamente, é importante lembrar que os resultados são calculados em relação a 2020, período bastante atípico para a economia brasileira por causa da Covid-19. Ainda assim, o dado da FBCF mostra uma tendência animadora.
O consumo das famílias ao longo do ano aumentou 3,6% em relação a 2020, enquanto o consumo do governo se expandiu em 2% na mesma base de comparação. As exportações aumentaram 5,8%, mas as importações avançaram num ritmo bem superior, de 12,4%.
Economia no quarto trimestre: surpresa positiva
Nos três últimos meses do ano, o setor de agropecuária voltou a assumir uma posição de protagonismo na economia brasileira, crescendo 5,8% em relação ao trimestre anterior — um desempenho que, no entanto, não foi capaz de tirar o segmento do campo negativo no acumulado do ano. A indústria caiu 1,2%, enquanto os serviços avançaram 0,5%.
Veja abaixo o comportamento de cada subgrupo da economia no quarto trimestre de 2021 e sua contribuição para o PIB do Brasil no período:
- Agropecuária: +5,8%
- Informação e comunicação: +3,4%
- Transporte, armazenagem e correio: +2,6%
- Outras atividades de serviços: +2,1%
- Construção: 1,5%
- Administração, defesa, saúde e educação públicas e seguridade social: +1%
- PIB do Brasil no quarto trimestre: +0,5%
- Atividades financeiras, de seguros e serviços relacionados: 0%
- Eletricidade e gás, água, esgoto, atividades de gestão de resíduos: -0,2%
- Atividades imobiliárias: -0,4%
- Comércio: -2%
- Indústrias extrativas: -2,4%
- Indústria de transformação: -2,5%
Veja que, por mais que o saldo para o PIB como um todo tenha sido positivo, os dados acima mostram algumas tendências que podem ser preocupantes, principalmente no front da indústria: o mau desempenho dos segmentos de extração e transformação na reta final de 2021 indica uma base enfraquecida na virada do ano.
O comércio, em queda de 2%, também não traz notícias particularmente animadoras, especialmente quando consideramos o fortalecimento sazonal desse tipo de atividade nos três últimos meses do ano. Por outro lado, os serviços mostram uma dinâmica positiva e uma continuidade da recuperação vista ao longo de 2021.
Sendo assim, boa parte da surpresa positiva com o PIB do Brasil no quarto trimestre — e no ano de 2021 — se deve à expansão forte da agropecuária no período, o que não é uma notícia ruim a priori; é preciso, agora, ter atenção redobrada aos dados de atividade da indústria e dos serviços neste começo de 2022.
No lado das despesas, a formação bruta de capital fixo no quarto trimestre teve alta de 0,4%, corroborando a percepção de aumento gradual nos investimentos no setor produtivo. O consumo das famílias cresceu 0,8%, enquanto os gastos do governo aumentaram 0,9%.
PIB do Brasil: expectativa vs. realidade
Por mais que o PIB do Brasil em 2021 tenha surpreendido positivamente, puxado pelo fortalecimento da economia no quarto trimestre, fato é que as projeções para 2022 continuam bastante desanimadoras. Segundo o boletim Focus publicado na última quarta-feira (2), o mercado financeiro trabalha com um cenário de crescimento de apenas 0,3% da economia neste ano.
É um reflexo do cenário de inflação ainda elevada e juros acima dos 10%, o que tende a desestimular o consumo e enfraquecer o nível de atividade doméstica. Em paralelo, ainda há a preocupação constante em relação ao cumprimento das metas fiscais do governo e as incertezas ligadas às eleições, o que pode elevar a turbulência econômica no segundo semestre.
E, ainda usando como base as projeções do Focus: o boletim de 7 de janeiro, o último a trazer projeções para a economia de 2021, trazia uma expectativa de crescimento do PIB no ano passado de 4,65% — portanto, em linha com o resultado revelado hoje.
Ainda assim, a percepção de muitos pode ser de decepção. No começo de 2021, os economistas ouvidos pelo Focus trabalhavam com um avanço do PIB do Brasil da ordem de 4,65%. Esse otimismo, no entanto, foi dando lugar à dúvida conforme o desempenho da economia mostrava-se menos intenso que o previsto e a trajetória de política monetária do Banco Central indicava uma elevação forte dos juros ao longo do ano.
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