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Podemos estar diante de um adulto Haddad, ao invés de um menino (ideologizado com discurso universitário). Neste caso, o estresse recente do mercado foi um exagero
Na última sexta-feira, o mercado financeiro finalmente obteve a confirmação de que Fernando Haddad, ex-prefeito de São Paulo e ex-ministro da Educação, será o próximo ministro da Fazenda.
O atual Ministério da Economia será desmembrado para seu perfil anterior, com Fazenda, Planejamento (Planejamento, Orçamento e Gestão) e Indústria (Desenvolvimento, Indústria e Comércio). Era um nome amplamente esperado, depois do volátil mês de novembro.
Sim, Haddad está longe de ser a melhor escolha, ou pelo menos o melhor nome na visão do mercado. Mas convenhamos que ele está bem distante do pior dos mundos.
Sabendo que Lula estaria levando em consideração apenas nomes petistas para o cargo, a escolha do ex-prefeito acaba sendo uma opção pragmática, mais lulista do que petista e representante de uma esquerda mais moderna e menos ideologizada, que não nega a ciência econômica, abraçando o "terraplanismo fiscal".
Agora, Haddad já está comandando as discussões de Orçamento relacionadas com a PEC da Transição.
A ideia é pautar a proposta nesta terça-feira na Câmara e votar os dois turnos até quinta-feira (o texto não pode ser alterado, sob risco de voltar para o Senado, e os congressistas não podem votar depois do dia 15, o que inviabilizaria o pagamento do Auxílio Brasil em R$ 600 em janeiro).
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Os próximos temas serão o arcabouço fiscal, a reforma tributária e o acordo UE-Mercosul.
É importante deixarmos claro que o Brasil precisa de uma nova regra fiscal, uma vez que o teto de gastos não existe mais como foi concebido durante o governo Temer.
Ou seja, teremos que desenhar em 2023 uma nova âncora fiscal, com a qual Haddad prometeu que ouviria técnicos do Tesouro e economistas — são muitas propostas e nenhuma definitiva ainda, mas há alguns caminhos promissores para seguirmos.
Conhecendo o perfil de Haddad, apesar dos ruídos, há espaço para algo construtivo.
Argumento isso porque o histórico dele durante sua gestão na Prefeitura de São Paulo não foi irresponsável do ponto de vista fiscal (não sou um grande admirador da gestão Haddad, mas sobre a gestão do orçamento, contra fatos não há argumentos). Pelo contrário.
À época, ele nomeou Marcos Cruz, ex-McKinsey com MBA pelo Insead, na França, para a secretaria das Finanças, se tornando ao longo dos anos o primeiro prefeito a conseguir grau de investimento do país, apesar da crise de 2015-16.
O reconhecimento das agências de risco se deve em grande parte ao esforço de renegociação da dívida (caiu de R$ 79 bilhões para R$ 29 bilhões) e aos bons parâmetros de gastos de sua gestão, que recebeu críticas do próprio PT por "não gastar o suficiente". Inclusive em ano eleitoral, quando perdeu já no primeiro turno para João Doria.
Por sinal, Cruz deverá voltar a trabalhar com Haddad no ministério, ocupando algum cargo do segundo escalão, muito provavelmente na Secretaria de Política Econômica.
Por isso que digo: se caminharmos para uma emulação do que foi o Palocci no primeiro governo Lula, talvez os investidores estejam reagindo de maneira exagerada, até porque o nome de Haddad na Fazenda não sinaliza nada além de equilíbrio entre demandas sociais e responsabilidade fiscal, indicando diálogo.
Em outras palavras, podemos ter um discurso em favor da reforma tributária e da sustentabilidade fiscal, com apresentação de nomes respeitados pelo mercado para o segundo escalão.
Sabemos que, na média, o mercado é um péssimo avaliador de notícias políticas. Por isso que, nas últimas semanas, convivemos com uma elevação de volatilidade verificada sobre os ativos (há um considerável nível de incerteza no ar, o qual não parece se justificar inteiramente).
Não precisa ser construtivo com o governo Lula para entender que a situação do país não é necessariamente explosiva. Sim, será necessário muito trabalho, como o gráfico abaixo denota.
Note que, segundo a metodologia do FMI, a dívida bruta do Brasil atingiu 93,0% do PIB em 2021 e 91,9% do PIB em 2022, a mais alta entre os mercados emergentes.
Diferentemente da metodologia do BC, o FMI calcula para a dívida bruta toda a dívida emitida pelo Tesouro. Isso inclui aquela no balanço do Banco Central, que não é utilizada para fins de política monetária).
Isto é, a dívida bruta do Brasil continuará sendo a mais alta entre emergentes, ficando atrás apenas da China em 2027.
Sim, não é um cenário muito confortável. Precisaremos de uma reforma tributária, com um provável aumento de carga e com uma remodelação do orçamento em si, hoje muito engessado.
Aliás, considerando que nossa carga já é muito elevada e temos muitos gastos com proteção social, o principal indutor de um sentimento mais positivo será a reorganização orçamentária e a criação de uma nova âncora fiscal, que possa substituir de maneira crível o teto de gastos, hoje já muito desgastado.
Resta saber agora os nomes de seu segundo escalão, que devem sair nos próximos dias, bem como as propostas para o Novo Marco Fiscal.
Entre alguns cotados podemos destacar Felipe Salto, hoje na Secretaria da Fazenda do Estado de São Paulo, para a Secretaria do Tesouro.
Outro nome é o já bem citado Marcos Cruz, que, ao lado de Salto, indicaria o diálogo com a responsabilidade fiscal que tanto desejamos, de modo a fornecer credibilidade ao país.
Outros nomes podem ser o de Bernard Appy e Marco Bonomo. Como sabemos, Appy é um dos principais formuladores da proposta de reforma tributária em tramitação no Congresso.
Enquanto isso, Bonomo é economista formado pela PUC do Rio com doutorado em Princeton. Ele também foi um dos autores da PEC alternativa recentemente apresentada por Tasso Jereissati.
Carlos Hamilton, ex-diretor do BC, e Rodrigo Orair, ex-diretor da Instituição Fiscal Independente do Senado, também foram citados.
Veja, não vou negar aqui que os primeiros sinais do governo eleito não são muito positivos sob a perspectiva fiscal.
Depois de uma primeira semana boa para os mercados depois da eleição, em que o capital internacional se preparava para migrar ao Brasil e Lula era recebido com festa na COP-27, o presidente eleito arriscou atirar no próprio pé.
Ao colocar responsabilidade fiscal como antagônica à social, flertou com juros de 15% e câmbio de R$ 6, com consequências nefastas para os mais pobres.
Sinais preocupantes, sem dúvida. Mas há ponderações a serem feitas, tentando fugir da superficialidade das tradicionais análises políticas com facilidade propagadas pelo mercado.
Em primeiro lugar, ainda há muita retórica; afinal, apesar de diplomados, Lula e Alckmin ainda não assumiram.
Em segundo lugar, o Congresso fica mais à direita e ideológico em 2023, o que poderia significar mais dificuldade para negociações à frente. Do ponto de vista político, essa tendência é favorável a um bom substituto do teto.
Lula sabe que a inflação pega na veia seu eleitorado e pode reviver Bolsonaro em 2026. Sem a economia, portanto, nada feito.
Mesmo diante disso, ele colocou seu sucessor espiritual na pasta mais difícil e pesada do governo. Recomendo a leitura do livro do Thomas Traumann, no qual o cargo de ministro da Fazenda é precisamente classificado como o pior emprego do mundo. Sendo assim, se considerarmos o movimento, podemos estar caminhando para um Palocci 2.
Em outras palavras, podemos estar diante de um adulto Haddad, ao invés de um menino (ideologizado com discurso universitário).
Exemplo disso foi sua atuação na equipe de transição, onde fez dobradinha com Alckmin, de quem já era próximo. O que também o coloca próximo de Pérsio Arida, ainda que como conselheiro informal apenas.
Agora, resta aguardar com atenção a nomeação de seus secretários. Isso pode ser muito importante para entendermos os rumos da política econômica.
Como disse Mansueto Almeida em entrevista recente, vale o benefício da dúvida. Se repetirmos algo semelhante à era Palocci, quando também não tínhamos técnico no ministério da Fazenda, mas um político de confiança do presidente, capaz de ouvir os brilhantes Marcos Lisboa, Murilo Portugal, Joaquim Levy e Daniel Goldberg.
Neste caso, o estresse recente foi um exagero, e os ativos brasileiros estariam oferecendo um excelente ponto de entrada.
Tudo isso, claro, feito sob o devido dimensionamento das posições. Ou seja, conforme seu perfil de risco, e a devida diversificação de carteira, com as respectivas proteções associadas.
Não faria o movimento de comprar mais ativos de risco locais, entretanto, sem posições bem firmadas em caixa (o CDI paga hoje quase 14%) e proteções tradicionais (ouro e dólar).
Se não estivermos diante de um Jaiminho, o personagem do Chaves que só quer evitar a fadiga e que evitaria a quantidade de trabalho a ser feita, há espaço para aprimoramento da conjuntura local.
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