Euro(bad)trip: Como a guerra na Ucrânia e a busca por novas fontes de energia para substituir o petróleo russo fizeram o euro despencar
A moeda única atingiu o seu nível mais baixo em relação ao dólar em 20 anos (próximo do US$ 1), pior que os patamares vistos na crise da dívida no começo dos anos 2010

Caro leitor,
A forte queda nos preços do petróleo dominaram as manchetes nos últimos dias. O receio de uma recessão global fez com que a commodity voltasse para níveis próximos daqueles observados antes das altas decorrentes da invasão da Ucrânia.
Assim como o petróleo, também tivemos desvalorizações significativas em outras commodities energéticas, como o gás natural, que caiu mais de 3% ontem.
Isso, contudo, não deve significar um alívio imediato, principalmente quando voltamos as nossas atenções ao continente europeu.
A Europa e o petróleo russo
Veja o caso da Alemanha. Mesmo que o índice de inflação ao produtor tenha vindo abaixo das projeções para o mês de junho, ainda estamos falando de uma alta de mais de 33% nos preços (+16,5% excluindo energia) – o maior nível da série histórica e 15 vezes maior do que a média mensal desse indicador desde o final da década de 70.
Com uma economia altamente industrializada e dependente da energia barata proveniente da Rússia, o modelo de crescimento alemão permitiu ao país ser um dos principais beneficiários da demanda global por produtos de qualidade e, com isso, reportar sucessivos superávits em sua balança comercial (ou seja, tudo que foi exportado menos o que foi importado pelo país).
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Mas o forte aumento nos preços de energia, aliado com a possibilidade de uma recessão global, fez com que uma das principais economias da Europa tivesse seu primeiro déficit na balança comercial desde 1991.
Sem falar que os maiores custos com energia podem tornar algumas indústrias inviáveis economicamente falando, o que afetaria ainda mais a receita com exportação do país.
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Outras fontes de energia
Ainda que os países dependentes da energia fornecida pela Rússia estejam buscando outras fontes de fornecimento, fato é que conseguir trocar de fornecedor de gás natural de maneira ágil não é algo tão simples (para não dizer viável).
Diferentemente do petróleo, a necessidade de liquefação do gás natural dificulta ainda mais o transporte da commodity, uma vez que alguns países não possuem a infraestrutura necessária para realizar esse processo.
E qualquer incidente na infraestrutura atual tem a capacidade de reverberar nos mercados globais.
No começo de junho, um incêndio em uma planta de liquefação no estado do Texas reduziu a capacidade dos países importadores de energia recorrerem aos Estados Unidos para adquirir a commodity em vez de terem que recorrer à Rússia.
Problemas internos na Europa
Sem falar nos próprios problemas internos no continente europeu.
A Rússia informou que o seu principal gasoduto para fornecimento de gás à Europa (Nord Stream 1) deve ficar fora de operação por dez dias a partir de 11 de julho para manutenção – mas muitos analistas temem que Putin possa dificultar a reabertura caso o país ainda sofra com sanções econômicas.
Já na França, a estatal EDF anunciou que a produção de energia nuclear deve ser reduzida por conta de interrupções em quase metade de suas plantas (de um total de 56) e o baixo nível dos rios por conta das altas temperaturas no país, reduzindo a capacidade de resfriamento dos reatores.
Além disso, a onda de calor no continente pode impactar as reservas de gás para o próximo inverno, fazendo com que os governos tenham que estabelecer racionamentos e impactando ainda mais o crescimento na região.
A decadência do euro
Não à toa, o euro atingiu o seu menor nível em relação ao dólar em 20 anos (próximo do US$ 1) com os investidores preocupados de que todos esses fatores possam dificultar a vida do Banco Central Europeu em elevar os juros mesmo com a inflação na Zona do Euro rodando acima dos 8% ao ano.
Apenas para se ter noção, nem mesmo durante a crise da dívida soberana no começo dos anos 2010 vimos a moeda única atingir tal patamar.
Enquanto o problema energético do continente não for resolvido, ainda teremos meses difíceis pela frente – e não somente nos aeroportos por toda a Europa.
Um abraço,
Enzo Pacheco
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